ARTIGOS
Aquilo que nunca perguntei aos meus avós
Quem acolhe aqueles que passaram a vida acolhendo os outros?


Durante boa parte da minha infância e juventude, tive o privilégio de conviver intensamente com meus avós. Meu avô Paulo, ou simplesmente Paulino, tinha no café uma linguagem própria de afeto. Havia generosidade em cada xícara servida, em cada conversa despretensiosa, em cada gesto silencioso que fazia qualquer pessoa se sentir bem-vinda. Minha avó Dirce, a nossa vovó Nene, era o ponto de equilíbrio da família. Carregava uma sabedoria que não vinha dos livros, mas da vida. Cuidava de todos com uma naturalidade impressionante, como se acolher fosse parte da sua própria identidade.
Naquele tempo, eu enxergava apenas o que eles ofereciam: o colo, os conselhos, a proteção, o cuidado. Demorei muitos anos para perceber que, enquanto eu crescia, eles envelheciam. Foi somente depois de me tornar psicólogo e especialista em Gerontologia que compreendi existir uma pergunta que nunca lhes fiz: como eles realmente estavam?
Nunca perguntei sobre seus medos, suas angústias, as renúncias que fizeram, as dores que decidiram silenciar para proteger a família ou o peso de sustentar emocionalmente tantas pessoas ao longo da vida. Talvez porque, como acontece com muitos de nós, eu também tenha aprendido a enxergar meus avós quase como personagens inabaláveis da história familiar.
Essa é uma das romantizações mais silenciosas do envelhecimento. Esperamos que os avós estejam sempre disponíveis, pacientes, acolhedores e fortes. Celebramos sua experiência, valorizamos suas memórias e recorremos à sua presença quando precisamos de estabilidade. Mas raramente nos perguntamos quem acolhe aqueles que passaram décadas acolhendo os outros.
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Essa forma de enxergar a velhice produz um efeito preocupante: reduz o envelhecimento à capacidade de continuar cuidando dos demais e invisibiliza as necessidades de quem envelhece. Cuidar da pessoa idosa não significa apenas acompanhar exames, controlar doenças ou garantir o uso correto de medicamentos. Significa também reconhecer suas emoções, seus vínculos, seus medos e seu direito de continuar vivendo com autonomia e propósito.
Não por acaso, essa compreensão está no centro do conceito de envelhecimento saudável defendido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A instituição propõe que viver mais só faz sentido quando a longevidade é acompanhada pela preservação da autonomia, das relações significativas, da participação social e do bem-estar psicológico. Em outras palavras, a saúde mental deixa de ser um aspecto complementar e passa a ser um dos pilares da qualidade de vida na velhice.
A filósofa Simone de Beauvoir escreveu que a velhice costuma ser definida pelo olhar do outro. Concordo. Ainda tratamos muitas pessoas idosas a partir dos papéis que desempenham — o avô, a avó, o aposentado, o cuidador dos netos — e esquecemos que, antes de qualquer função familiar, continuam sendo sujeitos que amam, sofrem, sonham, sentem medo e desejam ser compreendidos.
Na prática clínica, percebo que o sofrimento emocional na velhice raramente chega fazendo barulho. Ele costuma aparecer em frases aparentemente simples: "Não quero dar trabalho", "Meus filhos já têm problemas demais", "Está tudo bem". Muitas vezes, essas palavras escondem solidão, luto, ansiedade, medo da dependência e uma necessidade profunda de continuar pertencendo.
Vivemos mais do que as gerações anteriores, mas isso nos impõe um novo desafio: aprender a cuidar da longevidade para além do corpo. A Gerontologia nos ensina que qualidade de vida envolve autonomia, participação, vínculos e reconhecimento. Eu acrescentaria um elemento indispensável: escuta. Talvez uma das maiores formas de cuidado seja oferecer à pessoa idosa a oportunidade de falar não apenas sobre o passado, mas também sobre o presente e o futuro. Sim, pessoas idosas fazem planos, alimentam desejos e precisam sentir que continuam ocupando um lugar de valor no mundo.
Neste Dia dos Avós, continuarei lembrando do café de vovô Paulo e da sabedoria de vovó Nene com a mesma gratidão de sempre. Hoje, porém, essas lembranças carregam outra responsabilidade. Elas me recordam da pergunta que não tive a oportunidade de fazer aos meus avós e que ainda podemos fazer aos que continuam ao nosso lado: como você realmente está? Talvez essa pergunta não transforme apenas a vida deles. Talvez ela transforme, antes de tudo, a nossa forma de envelhecer.
*Paulo Roberto Reis é psicólogo, especialista em Gerontologia e mestre em Estudos de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb)


