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Arrepios estéticos

Uma reflexão sobre sobrevivência e arte no Brasil

José Carlos L. Poroca*
Por José Carlos L. Poroca*
Confira o artigo deste domingo, 31
Confira o artigo deste domingo, 31 - Foto: Ilustrativa | Chatgpt

Antes de começar a escrever este texto, coloquei fones nas duas orelhas. Selecionei o Concerto nº 1 para piano, de Tchaikovsky. Não sem razão: há uma ligação afetiva entre essa música e este ser. Em seguida, a Serenata, de Schubert, pelos mesmos motivos. Depois, a Tocata e fuga em dó maior, de J. S. Bach. Mudei, então, para um repertório (bem) mais popular: Forró em Limoeiro, de Jackson do Pandeiro; Assum Preto, de Luiz Gonzaga/H. Teixeira. Fui adiante: Golden Slumbers, Happiness Is a Warm Gun, In My Life, Two of Us – do quarteto de Liverpool.

A audição não veio à toa. Começou com a leitura e releitura de uma crônica publicada numa revista brasileira. A autora discorre sobre os chamados arrepios estéticos – um “nigucin” – que o humano sente diante da arte, da música, de cenas comoventes ou de certas belezas naturais.

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Especialistas dizem tratar-se de uma recompensa cerebral: prazer intenso, emoção elevada, às vezes até abalo físico e moral. Para este ser, o tema é de uma complexidade desmedida – pela impossibilidade de padronizar o frisson. Minha experiência com as músicas citadas não serve como parâmetro: eu as conheço, gosto delas, e todas estão ligadas a memórias ou épocas específicas. O arrepio, aqui, já vem contaminado.

Vou adiante: não senti absolutamente nada assistindo a um show ao vivo de Elton John. Há motivos. Também nada senti vendo a cerimônia do Oscar nos anos em que a acompanhei pela televisão. Talvez a autora tenha se arrepiado – ela confessa que sim – ao ver, ao vivo e em cores – o tapa que Will Smith deu no comediante Chris Rock. Ao vivo, imagino, dói mais.

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Tentarei explicar: se o indivíduo nasce e vive em Genebra ou Zurique, come bem, mora bem e estuda em boas escolas, terá piloereções muito diferentes das de quem nasceu e vive em Melgaço (PA) ou Uiramutã (RR). Jovens suíços podem ter descargas intensas de dopamina e adrenalina – indicando resposta a um prazer intenso – ao contemplar o Davi, de Michelangelo, ou ao ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven. Em contrapartida, a reação dos melgacenses e dos uiramutenses pode se inverter diante de um prato de feijão com arroz. Os frissons de cá obedecem a outros gatilhos.

As respostas fisiológicas dizem muito sobre as condições da vida. Em vastas regiões do meu Brasil inzoneiro, onde se come mal e o acesso à educação e à cultura é mínimo, os estímulos são outros. As piloereções se ligam ao essencial: comer, beber, sobreviver, satisfazer impulsos imediatos. Os gatilhos estéticos que emocionam uns estão a quilômetros-luz de outros que sentem um formigamento na nuca ao ouvir “Apaga Apaga Apaga”, “Famosinha”, “Bota” e afins.

Para não deixar em branco, meu frisson talvez se aproxime do alumbramento de Manoel Bandeira – aquele coração acelerado diante de uma visão inesperada e simples: uma moça nuinha no banho.

*Executivo do segmento shopping centers | [email protected]

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