ARTIGOS
Bando de Teatro Olodum: 36 anos de pretagonismo artístico
Aulas integram os eixos Ancestralidade, Trilogia e Corpo Político


Em 17 de outubro de 1990, o Bando de Teatro Olodum – Patrimônio Cultural Imaterial de Salvador, por meio da Lei nº 9.976/2026 – foi criado no Centro Histórico desta capital baiana. Esse reconhecimento oficial manifesta a grande relevância nacional e internacional dessa companhia, que organiza, acerva, produz e difunde conhecimentos sobre questões raciais numa perspectiva interseccional e contracolonial, criando um espaço multirreferencial de ensinâncias e aprendências antirracistas para artistas e plateias pelo viés das Artes Cênicas.
Dentre as inúmeras atividades formativas, destaco a Oficina de Performance Negra, uma qualificação artística gratuita, para jovens e adultos, com metodologia autoral sobre o Teatro Negro do Bando, por meio de aulas sobre audiovisual, comunicação, dança, iluminação, gestão e produção cultural, memória e identidade, música, teatro e sonorização.
Combatendo, além do racismo, o sexismo, o capacitismo, a lesbo-homo-transfobia, o etarismo e o classismo, neste ano, as aulas integram os eixos Ancestralidade, Trilogia e Corpo Político. No 1º semestre, essa Oficina ocorreu a convite da Caixa Cultural Salvador através do programa educativo “CAIXA Gente Arteira” com pesquisa de campo afrodiaspórica à luz do eixo Ancestralidade no MAFRO (Museu Afro-brasileiro da UFBA), guiada pelo diretor e coordenador do museu Dr. Marcelo Cunha, e à luz do eixo Corpo Político na Feira de São Joaquim, guiada pelo Bando.
Já neste 2º semestre, com o patrocínio master da Petrobras, a Oficina está ocorrendo em três Núcleos (Centro Cultural de Plataforma, Espaço Cultural de Alagados e Subsede da Cultura e Cidadania do SindipetroBahia). Desta vez, a pesquisa de campo afrodiaspórica foi realizada à luz do eixo Trilogia no Centro Histórico de Salvador, conduzida pelo museólogo Eldon Neves e pelo Bando. Essas experiências formativas foram cruciais no processo formativo para a composição de personagens ante a necessidade de extirpar estereótipos e arquétipos que nutrem o racismo estrutural.
Parabéns, Bando de Teatro Olodum, pelos 36 anos de pretagonismo artístico!
Afinal, “é preciso ter coragem para ter na pele a cor da noite” (Cabaré da Rrrrraça), evidenciando, ante a legislação supostamente libertária assinada há 138 anos, que “a lei existe, mas o quadro é negro e a história é branca” (Erê) e exclamando, devido à ideologia eurocentrada que atualiza a colonialidade diuturnamente, que o grito de “independência só pode sair desta [nossa] garganta” (Resistência Cabocla).
Mó dúpé (Obrigada) pelo legado intangível antirracista nos palcos da vida e da arte!
Régia Mabel Freitas - Escritora, palestrante e pesquisadora interseccional e contracolonial sobre Raça e Gênero; doutorado em Difusão do Conhecimento/Ufba e pós-doutorado em Educação/USP.