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Burnout - Quando o trabalho perde o sentido: Entre as condições impostas pela empresa e a responsabilidade de cada pessoa diante da própria vida
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Quando um profissional adoece a pergunta costuma surgir quase automaticamente: o que a empresa fez com ele? A pergunta é legítima. Metas inalcançáveis, jornadas excessivas, assédio, insegurança, falta de reconhecimento e relações autoritárias podem produzir sofrimento real. Nenhuma reflexão sobre liberdade interior deve servir para naturalizar a exploração. Mas talvez exista outra pergunta, menos confortável e igualmente necessária: o que essa pessoa deixou de escutar em si mesma enquanto tentava corresponder ao que esperavam dela?
A Organização Mundial da Saúde descreve o burnout como um fenômeno ocupacional decorrente do estresse crônico no trabalho que não foi administrado com sucesso. Ele se manifesta por exaustão, distanciamento mental ou cinismo em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional. A definição situa o problema no contexto laboral, mas não encerra a compreensão do ser humano que sofre. O ambiente explica parte do adoecimento; não explica, sozinho, por que alguém permanece, silencia, ultrapassa repetidamente os próprios limites ou já não reconhece sentido naquilo que faz.
É nesse ponto que Viktor Frankl amplia a discussão. Em Em busca de sentido, ele retoma uma frase de Friedrich Nietzsche: “Quem tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como.”
Frankl não defendia a aceitação passiva do sofrimento, muito menos a submissão a condições indignas; sua proposta era outra: mesmo quando não escolhemos as circunstâncias, ainda somos convocados a escolher a atitude com que respondemos a elas. O ser humano não é inteiramente determinado pelo ambiente. Há nele uma dimensão de liberdade e responsabilidade que nenhuma organização deveria retirar e que nenhum indivíduo deveria abandonar. Por isso, sustentar que somente a empresa causa burnout pode reduzir o trabalhador à condição de objeto das circunstâncias. E afirmar que tudo depende do indivíduo seria igualmente injusto, porque apagaria relações de poder, abusos e formas concretas de precarização. A questão não pede a escolha de um culpado: ela exige compreender o encontro entre um ambiente que pode adoecer e uma pessoa que, muitas vezes, afastou-se de seu eixo, de seus valores e da responsabilidade de estabelecer limites.
O esgotamento nem sempre começa no excesso de tarefas; às vezes, começa muito antes: quando a pessoa passa a viver apenas para ser reconhecida; quando confunde produtividade com valor pessoal; quando aceita o inaceitável por medo de perder status, segurança ou aprovação; quando entrega à empresa a autoridade de dizer quem ela é.
Trabalhar muito por algo que tem sentido pode cansar profundamente, mas trabalhar sem por quê pode produzir um tipo diferente de vazio. O corpo se exaure, a mente se distancia e a atividade, antes significativa, transforma-se em obrigação sem alma.
Sob a perspectiva da autodeterminação, o ser humano necessita perceber-se participante da própria existência. Autonomia não significa fazer tudo o que se deseja, mas reconhecer-se autor das próprias escolhas. Competência é sentir que aquilo que se faz pode se desenvolver e produzir contribuição. Vínculo é experimentar relações nas quais a pessoa não seja apenas uma função.
Quando o trabalho frustra, continuamente, essas necessidades, o risco de adoecimento aumenta. Contudo, a autodeterminação também nos pergunta: em que momento deixamos de negociar, pedir ajuda, dizer não, rever prioridades ou procurar outro caminho possível?
A Psicologia do Espírito acrescenta uma dimensão ainda mais profunda: somos seres em processo, portadores de uma consciência que não se resume ao cargo, ao salário ou ao desempenho. A vida profissional é um campo de experiência e desenvolvimento, não a totalidade do ser.
Quando o ego faz do trabalho a única fonte de identidade, qualquer fracasso ameaça a existência inteira. Quando a pessoa se reconhece como consciência em evolução, pode olhar para o trabalho como parte de sua trajetória e perguntar não apenas “o que estou ganhando?”, mas “o que estou me tornando ao permanecer aqui?”.
Autorresponsabilidade, portanto, não é culpa. Culpa paralisa e condena; responsabilidade devolve possibilidade de ação. Dizer a alguém em burnout que ele é culpado por ter adoecido seria uma violência; mas convidá-lo a reconhecer sua participação na continuidade de uma dinâmica é devolver-lhe potência.
Talvez ele não tenha criado a cobrança, o assédio ou a sobrecarga, mas pode começar a decidir o que fará diante disso: buscar apoio, reorganizar a vida, procurar tratamento, estabelecer limites ou, quando possível, sair. Da mesma maneira, oferecer propósito ao trabalhador não pode ser uma estratégia empresarial para fazê-lo suportar o insuportável. Um “porquê” não transforma qualquer “como” em algo aceitável. Missões bonitas na parede não compensam ambientes desumanos.
As empresas têm responsabilidade objetiva por condições seguras, relações respeitosas, cargas viáveis, clareza de papéis e espaço real de participação. O sentido não pode ser fabricado pelo marketing interno; ele nasce da coerência entre os valores anunciados e as práticas vividas. A empresa também não pode fornecer um sentido existencial pronto. Ela pode criar condições para que o trabalho seja digno e significativo, porém não pode responder pelo projeto de vida de cada pessoa.
Quando alguém terceiriza à organização sua identidade, seu reconhecimento e sua direção, torna-se vulnerável sempre que o trabalho muda. O sentido precisa ser maior do que o emprego.
Talvez o enfrentamento do burnout exija duas responsabilidades que não competem entre si: à empresa cabe não adoecer pessoas e rever estruturas que transformam pressão em método de gestão; e ao trabalhador cabe não abandonar a própria consciência, reconhecer sinais, sustentar limites e perguntar se o modo como vive ainda corresponde àquilo que considera essencial.
Uma sociedade madura não escolhe entre responsabilizar instituições ou indivíduos: exige humanidade das primeiras e consciência dos segundos.
O contrário do burnout não é apenas descansar para voltar a produzir; é recuperar a relação com o sentido; é voltar a habitar a própria vida, distinguindo compromisso de autoabandono, esforço de violência e perseverança de aprisionamento.
O “porquê” de que falava Frankl não nos obriga a suportar qualquer situação. Ele pode, justamente, dar-nos coragem para mudar o “como”.
*Sheila Maria é Terapeuta Integrativa e Arteterapeuta Junguiana