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OPINIÃO

De 4 em 4 anos, a “Síndrome de Enéas” ressurge

Na Era dos Cortes, exaltação ao ex-candidato à Presidência se tornou de praxe nas eleições

Leo Almeida
Por
Enéas ficou conhecido em 1989 após disputar Presidência
Enéas ficou conhecido em 1989 após disputar Presidência - Foto: © Antônio Cruz | Agência Brasil

As redes sociais intensificaram um fenômeno de rememoração saudosista de personalidades e acontecimentos passados, como se o período anterior ou a figura histórica em questão fossem perfeitos e o presente, inteiramente descartável. A política, em pleno ano eleitoral, não poderia ficar de fora. De quatro em quatro anos, a imagem do ex-deputado federal e ex-candidato à Presidência, Enéas Carneiro, volta às telas dos smartphones embalada pela roupagem de gênio incompreendido, um líder que o Brasil “não mereceu”, inaugurando uma espécie de “Síndrome de Enéas”.

O primeiro popstar outsider da política brasileira marcou época nas eleições de 1994, após se projetar na disputa de 1989 com pouquíssimo tempo de TV e um discurso frontal contra a classe política tradicional: “Meu nome é Enéas”. Trechos de suas entrevistas, que vinham acompanhados de vocabulário rebuscado, dicção firme, discurso antissistêmico e personalidade forte, voltaram a viralizar na atual temporada eleitoral, gerando comparações inevitáveis com a nova safra de postulantes que renegam o eixo tradicional entre esquerda e direita.

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Os fãs do ex-candidato costumam acusar a imprensa de tê-lo retratado como figura caricata e sustentam que, sem a suposta oposição midiática, o médico de formação poderia ter vencido a eleição de 1994 — pleito em que somou apenas 7% dos votos válidos, o que já foi um feito e tanto.

Na realidade, por mais robusto que fosse seu vernáculo e respeitável sua trajetória na Medicina, Enéas nunca teve a dimensão política que os saudosistas dos vídeos curtos propagam hoje. Sua atuação no Parlamento, mesmo após conseguir se eleger deputado federal com votação recorde, teve impacto legislativo proporcionalmente modesto.

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As comparações

A associação da imagem de Enéas a figuras da política contemporânea não é novidade. De pronto, o paralelo mais evidente ocorreu com Jair Bolsonaro que, embora tenha vindo do miolo do sistema tradicional, alçou-se ao poder capitalizando um forte discurso antissistêmico. Agora, na disputa deste ano, nomes como os de Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão) vêm sendo alçados ao lado do ex-candidato à Presidência, tratados nas redes sociais como “gênios incompreendidos”.

Cury, assim como Enéas, é médico de formação com respeitabilidade inquestionável em sua área de atuação. Trata-se de um personagem fora da curva no tabuleiro eleitoral que tenta se apresentar como a alternativa para “curar o país” em meio à exaustão da polarização. É visto por seus apoiadores como um “intelectualizador” do debate público, desvinculado dos escaninhos ideológicos tradicionais.

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Por sua vez, Renan Santos evoca um perfil mais combativo, por vezes raivoso. Sua candidatura propriamente dita não chega a ser uma excentricidade completa, visto que ele é um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), mas cumpre o papel de outsider por nunca ter exercido mandato eletivo.

A aproximação de sua imagem com a de Enéas ganhou tração recente, sobretudo após declarações polêmicas, a exemplo da defesa pública da construção de uma bomba atômica pelo Brasil.

A verdadeira similaridade

Todavia, cabe ponderar que a principal semelhança entre esses perfis reside, no fundo, em uma perigosa desconexão com as particularidades do território brasileiro, com a engrenagem pragmática do Congresso Nacional e até com normas constitucionais básicas.

Um suposto brilho intelectual, por si só, não capacita alguém para o exercício da política institucional. Se portar como “fora do sistema” nunca foi, e jamais será, atestado automático de probidade ou competência administrativa.

A presente coluna trata exclusivamente da opinião pessoal do jornalista Leo Almeida.

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Artigo de Opinião Enéas Carneiro

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