OPINIÃO
De 4 em 4 anos, a “Síndrome de Enéas” ressurge
Na Era dos Cortes, exaltação ao ex-candidato à Presidência se tornou de praxe nas eleições


As redes sociais intensificaram um fenômeno de rememoração saudosista de personalidades e acontecimentos passados, como se o período anterior ou a figura histórica em questão fossem perfeitos e o presente, inteiramente descartável. A política, em pleno ano eleitoral, não poderia ficar de fora. De quatro em quatro anos, a imagem do ex-deputado federal e ex-candidato à Presidência, Enéas Carneiro, volta às telas dos smartphones embalada pela roupagem de gênio incompreendido, um líder que o Brasil “não mereceu”, inaugurando uma espécie de “Síndrome de Enéas”.
O primeiro popstar outsider da política brasileira marcou época nas eleições de 1994, após se projetar na disputa de 1989 com pouquíssimo tempo de TV e um discurso frontal contra a classe política tradicional: “Meu nome é Enéas”. Trechos de suas entrevistas, que vinham acompanhados de vocabulário rebuscado, dicção firme, discurso antissistêmico e personalidade forte, voltaram a viralizar na atual temporada eleitoral, gerando comparações inevitáveis com a nova safra de postulantes que renegam o eixo tradicional entre esquerda e direita.
Os fãs do ex-candidato costumam acusar a imprensa de tê-lo retratado como figura caricata e sustentam que, sem a suposta oposição midiática, o médico de formação poderia ter vencido a eleição de 1994 — pleito em que somou apenas 7% dos votos válidos, o que já foi um feito e tanto.
Na realidade, por mais robusto que fosse seu vernáculo e respeitável sua trajetória na Medicina, Enéas nunca teve a dimensão política que os saudosistas dos vídeos curtos propagam hoje. Sua atuação no Parlamento, mesmo após conseguir se eleger deputado federal com votação recorde, teve impacto legislativo proporcionalmente modesto.
As comparações
A associação da imagem de Enéas a figuras da política contemporânea não é novidade. De pronto, o paralelo mais evidente ocorreu com Jair Bolsonaro que, embora tenha vindo do miolo do sistema tradicional, alçou-se ao poder capitalizando um forte discurso antissistêmico. Agora, na disputa deste ano, nomes como os de Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão) vêm sendo alçados ao lado do ex-candidato à Presidência, tratados nas redes sociais como “gênios incompreendidos”.
Cury, assim como Enéas, é médico de formação com respeitabilidade inquestionável em sua área de atuação. Trata-se de um personagem fora da curva no tabuleiro eleitoral que tenta se apresentar como a alternativa para “curar o país” em meio à exaustão da polarização. É visto por seus apoiadores como um “intelectualizador” do debate público, desvinculado dos escaninhos ideológicos tradicionais.
Por sua vez, Renan Santos evoca um perfil mais combativo, por vezes raivoso. Sua candidatura propriamente dita não chega a ser uma excentricidade completa, visto que ele é um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), mas cumpre o papel de outsider por nunca ter exercido mandato eletivo.
A aproximação de sua imagem com a de Enéas ganhou tração recente, sobretudo após declarações polêmicas, a exemplo da defesa pública da construção de uma bomba atômica pelo Brasil.
A verdadeira similaridade
Todavia, cabe ponderar que a principal semelhança entre esses perfis reside, no fundo, em uma perigosa desconexão com as particularidades do território brasileiro, com a engrenagem pragmática do Congresso Nacional e até com normas constitucionais básicas.
Um suposto brilho intelectual, por si só, não capacita alguém para o exercício da política institucional. Se portar como “fora do sistema” nunca foi, e jamais será, atestado automático de probidade ou competência administrativa.
A presente coluna trata exclusivamente da opinião pessoal do jornalista Leo Almeida.



