O silêncio das arquibancadas diante da ausência de Cauly Oliveira nas últimas partidas contra Corinthians e Porto-BA diz muito sobre o atual momento do Bahia. O que antes seria motivo de desespero para o torcedor, hoje soa como um prenúncio de despedida. Após o técnico Rogério Ceni e o capitão Kanu admitirem publicamente que a saída do meia é uma possibilidade real — e com o Bahia já tendo recusado uma investida de empréstimo do São Paulo —, fica o questionamento: como o 'Mago' de 2023 se tornou o craque descartável de 2026?
A resposta não está apenas no desgaste físico, mas em uma crise de identidade tática provocada por improvisos que sacrificaram o talento em nome do esquema.
Paradoxo do protagonismo: da magia à operação
Em 2023, Cauly era o sol em torno do qual o Bahia orbitava. Em 47 jogos, ele marcou 10 gols e deu 9 assistências, sendo o pilar técnico da permanência na Série A. Naquele ano, sua função era clara: o 'camisa 10' clássico, com liberdade para flutuar entre as linhas, servir os atacantes e ainda deixar o dele, sempre que possível.
A queda de rendimento começou quando a eficiência deu lugar à onipresença. Em 2024, Cauly viveu uma maratona de 63 jogos e surreais 4.800 minutos. O 'Mago' foi transformado em um operário de elite, perdendo o brilho decisivo para se tornar uma engrenagem de manutenção de posse de bola.
Efeito Everton Ribeiro: menos espaço, mais sacrifício
A chegada de Everton Ribeiro trouxe refinamento, mas também um dilema para Rogério Ceni. Para acomodar as duas mentes pensantes no meio-campo, o sistema foi alterado. Everton passou a ocupar a faixa central de cadência, empurrando Cauly para zonas periféricas do campo.
O impacto foi imediato nos números: apesar de ter feito mais assistências em 2024 (13), o número de gols caiu pela metade em relação ao volume de jogos. Cauly deixou de ser o finalizador para ser o jogador que "corre para os outros", sacrificando seu frescor físico para compensar a menor intensidade de marcação de Everton no setor central. Setor esse composto ainda pelo franzino Caio Alexandre e pelo forte, mas não marcador, Jean Lucas.
Invenção do 'falso 9' e o exílio na ponta
O ponto de ruptura, no entanto, foi tático. Sem um centroavante de confiança em diversos momentos, Ceni utilizou Cauly como falso 9 ou aberto pela ponta esquerda. O resultado foi o isolamento de um craque que precisa da bola no pé para criar.
Jogando mais próximo da área contra zagueiros físicos ou preso na linha lateral — zona onde não possui a velocidade característica de um ponta — Cauly foi neutralizado. Em 2025, o scout não mentiu: foram 63 jogos e apenas 4 gols, com um longo jejum no segundo semestre. O talento foi 'descartado' em prol de uma polivalência que o jogador nunca pediu para ter.
Peso do calendário: o choque entre Europa e Brasil
Para entender a queda de rendimento de Cauly, é preciso olhar também para o seu passaporte. Antes de desembarcar em Salvador, o meia jamais havia experimentado o 'moedor de carne' que é o calendário brasileiro. Criado taticamente na Alemanha, o camisa 8 levava uma carreira de regularidade, mas sem sobrecargas: antes do Bahia, apenas uma vez em dez anos de Europa ele havia superado a marca das 30 partidas em um único ano. O ápice aconteceu na temporada 2020/21, pelo Ludogorets, quando atingiu 42 jogos — um número impulsionado pela vitrine da Champions League e da Europa League.
Antes disso, sequer chegava aos 40 confrontos anuais. Ao chegar ao Esquadrão, o salto foi brutal: o 'Mago' saltou de uma média europeia moderada para surreais 63 jogos em 2025. O Bahia não apenas utilizou seu craque; o Bahia o exauriu, exigindo de um atleta moldado no padrão europeu de descanso uma resistência que nem os gramados da Champions League haviam cobrado.
Desgaste e o adeus iminente
Os números totais de sua passagem (175 jogos e 19 gols) ainda são respeitáveis, mas a curva é descendente. A ausência recente e as falas de Ceni e Kanu após o jogo contra o Porto, pelo Campeonato Baiano, indicam que a relação técnica chegou ao limite. O Bahia, que segurou o jogador contra o assédio do Palmeiras no passado e recentemente recusou o São Paulo, agora parece entender que manter o 'Mago' infeliz e fora de posição é um desperdício de ativos.
O camisa 8, de 30 anos, e com contrato até dezembro de 2028, ainda tem lenha para queimar, mas talvez precise de um palco onde não seja obrigado a fazer truques de improviso em posições que não lhe cabem.
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