ARTIGOS
Educamos para a vida ou para o mercado de trabalho?
Relação com o ambiente educacional afeta a saúde mental


Que a educação é base para nossas decisões e molda nosso senso crítico e cidadania, muita gente já entende. Mas o impacto de como a nossa relação com o ambiente educacional afeta a nossa saúde mental ainda é pouco discutido.
Quando perguntamos “para que serve a escola?”, ouvimos respostas como: socialização, desenvolvimento humano, conhecimento técnico. Mas, na prática, o foco ainda é: tirar boas notas para conseguir um bom emprego. Isso tem um peso para quem cobra e para quem é cobrado. Quem nunca ouviu ou disse: “tem que estudar pra se sustentar”? Algumas escolas, inclusive, se promovem com as aprovações em faculdades de prestígio, o que, claro, tem seu valor. Em larga escala, precisamos de critérios. O problema não é a avaliação, mas como conduzimos ela.
O ponto é: como estamos acompanhando esse processo? O quanto estamos preocupados em colocar afeto nesse processo, seja o professor, as famílias ou vizinhança. Que laço estamos criando com a educação? Laço de sentido, de convivência ou só de obrigação e de ser o melhor a qualquer custo?
Precisamos falar sobre o impacto psicológico disso tudo. Gosto da metáfora de que um quilo de açúcar e um quilo de batata têm o mesmo peso, mas ocupam espaços diferentes e causam sensações distintas. Assim é a vida emocional de quem carrega a educação como um fardo para conseguir dinheiro, ou de convivência com iguais e diferentes, como preparação para desafios maiores na vida adulta.
Observar a coerência entre o que falamos e fazemos na educação faz reduzir casos de bullying, abandono escolar, violência entre alunos e contra professores. Porque sim, o que vivemos na infância molda o que normalizamos na vida adulta, como assédio e adoecimento mental.
Psicologia e educação caminham juntas. Cuidar da saúde emocional é parte essencial do processo educativo. E vale lembrar que educar é diferente de escolarizar.
Conversando com pessoas de mais de 60 anos, muitas mencionam com orgulho a disciplina “Educação Moral e Cívica” e como isso formou seu caráter. Outros, na faixa dos 40, lembram das orações e dos hinos na escola, e sentem que isso também deixou marcas positivas.
Mas não estamos dizendo que a solução é voltar ao passado. Afinal, mesmo com essas práticas, houve abusos, desigualdades e pressões desproporcionais. E também voltar não é possível, e o possível é que nos interessa.
Nosso convite é para pensar, discutir e propor uma educação coerente com o mundo de hoje. É olhar qual emoção está nos movendo quando o assunto é educação?
Que todos nós, pais, professores, e profissionais, assumam sua parte na construção de um ambiente educativo psicologicamente seguro. Porque sim, todos estamos envolvidos e somos todos responsáveis.
Anderson Rios é Doutor em Educação, professor, analista cultural, pesquisador do LTI Digital/Ufba