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Eliana Kertész: atuação de vanguarda na educação de Salvador
Confira o artigo do professor Manoel Calazans


Falar de educação e, sobretudo, falar dos educadores e das educadoras que ajudaram a construir a nossa história é algo que me entusiasma profundamente. Tenho procurado registrar algumas memórias sobre grandes nomes que contribuíram para a educação da Bahia e, especialmente, para a educação da nossa cidade.
Talvez, para os mais jovens, este primeiro destaque seja uma novidade. Para quem tem mais de 50 anos, ou está próximo dessa idade, certamente é mais fácil lembrar — ou pelo menos reconhecer — a importância da professora e administradora Eliana Kertész: à frente da Secretaria Municipal da Educação de Salvador.
Eliana exerceu o cargo de secretária de Educação em dois momentos e deixou uma marca importante na construção da educação pública da capital baiana. Hoje, seu nome é muito associado à arte, especialmente às famosas Gordinhas de Ondina, mas sua trajetória vai muito além das artes plásticas. Ela também foi vereadora de Salvador, alcançando uma das votações mais expressivas da história da Câmara Municipal, e, como administradora de formação, teve uma contribuição significativa para a organização e expansão da educação pública municipal.
À frente da Secretaria de Educação, Eliana teve a capacidade de reunir importantes nomes do pensamento educacional baiano. Cercou-se de professoras e professores das universidades, pesquisadores e educadores que ajudaram a pensar uma nova perspectiva para a educação de Salvador.
Entre esses nomes, podemos lembrar a professora Tereza Marcílio, ligada à instituição Avante, reconhecida por sua atuação em defesa da educação infantil e da qualidade da educação. Também esteve ao lado de Eliana a professora Anna Carolina Daltro Sampaio, da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), participando da construção e da reflexão sobre os caminhos da educação municipal ainda na década de 1980. No fortalecimento da gestão educacional foi assessorada pelo saudoso Raul Jungmann (ex deputado federal e ex ministro), modernizou os processos de gerenciamento da administração da Secretária da Educação e atualizou a carreira dos professores.
Por isso, costumo dizer que Eliana Kertész: teve um pensamento de vanguarda para a educação de Salvador, legado ofuscado pela fragilidade da memória histórica tão comum, infelizmente, entre os brasileiros e pela fartura e sucesso das gordinhas que fazem tanto sucesso.
Em parceria com o engenheiro João Filgueiras Lima, o Lelé, ela impulsionou a construção de escolas utilizando sistemas pré-moldados, permitindo que novas unidades fossem erguidas com grande rapidez. Mais do que uma inovação arquitetônica, aquela estratégia tinha uma finalidade social muito concreta: levar a escola pública para onde as crianças estavam.
Bairros e comunidades que ainda enfrentavam dificuldades de acesso à educação passaram a receber novas unidades escolares. Regiões como Fazenda Coutos, Paripe, Canabrava e tantas outras passaram a contar com escolas mais próximas das famílias. Era uma política que enfrentava um dos grandes problemas da educação: a distância entre a criança e o direito de estudar.
Mas a contribuição de Eliana não se limitou à construção de prédios escolares. Ela também enfrentou uma questão pedagógica que ainda hoje permanece atual: a cultura da reprovação e da exclusão escolar.
Salvador experimentou, ainda naquela década (1980), propostas relacionadas aos ciclos de aprendizagem e mecanismos que buscavam permitir que os estudantes avançassem em sua trajetória escolar, rompendo com uma lógica tradicional que muitas vezes transformava a reprovação em instrumento de exclusão.
Décadas depois, técnicos e profissionais que viveram aquele período ainda recordam Eliana como uma gestora que pensava a educação de maneira inovadora, defendendo a universalização do acesso à escola pública e buscando alternativas para garantir que as crianças permanecessem estudando.
É importante, portanto, resgatar essa história.
Hoje, quando muitos conhecem Eliana Kertész principalmente como a artista responsável pelas famosas Gordinhas de Ondina, é necessário lembrar que, antes e além das esculturas que se tornaram símbolos de Salvador, existiu uma mulher que participou ativamente da construção das políticas educacionais da cidade.
Resgatar o legado Eliana é reconhecer uma educadora, uma gestora e uma mulher que ousou pensar a educação pública de Salvador de maneira diferente em um período em que muitas dessas ideias ainda eram consideradas inovadoras.
Conhecer essa trajetória é também compreender que a educação que temos hoje foi construída por muitas mãos, por muitos pensamentos e por educadoras e educadores que, em diferentes momentos, tiveram a coragem de fazer diferente.
Eliana Kertész é, sem dúvida, um desses nomes que a história da educação de Salvador não pode esquecer.
*Professor Manoel Calazans, mestre em políticas sociais e cidadania, coordenador do Programa Estadual Mais Infância e Assessor Especial no Governo do Estado da Bahia