Busca interna do iBahia
HOME > ARTIGOS

ARTIGOS

Há 60 anos, Nelson Maleiro incendiava o Carnaval de Salvador

Confira o artigo do jornalista e doutorando em Cultura e Sociedade/UFBA, Dante Nascimento

Dante Nascimento*
Por Dante Nascimento*
| Atualizada em
Imagem ilustrativa da imagem Há 60 anos, Nelson Maleiro incendiava o Carnaval de Salvador

A noite de 28 de fevereiro de 1965, um domingo de Carnaval, deve ter ficado mais iluminada quando o dragão projetado por Nelson Maleiro (1909-1982) invadiu a avenida botando fogo pela boca. O fundador dos blocos Mercadores de Bagdá e Cavalheiros de Bagdá era conhecido por produzir carros alegóricos e elementos cênicos arrojados, entre tantos outros talentos que possuía, como a arte da fabricação de instrumentos.

O dragão era a atração principal e desfilava lado a lado do Gigante do Bagdá, personagem encarnado pelo próprio Maleiro, que, de armadura peitoral e sapatos de bico afinado, pisava num dispositivo que produzia as chamas. Fixada no alto do carro, uma faixa avisava: “Só o Gigante dará fim nesta fera”.

Tudo sobre Artigos em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

Leia Também:

CARNAVAL

Já? Bell Marques abre vendas de blocos para o Carnaval 2026; confira valores
Já? Bell Marques abre vendas de blocos para o Carnaval 2026; confira valores imagem

CARNAVAL

Geracional! É o Tchan reúne foliões de todas as idades no Campo Grande
Geracional! É o Tchan reúne foliões de todas as idades no Campo Grande imagem

CONTRA A EXPLORAÇÃO

Ministério Público acompanha trabalho de conselheiros tutelares
Ministério Público acompanha trabalho de conselheiros tutelares imagem

Naqueles tempos, marcados pelo declínio das tradicionais sociedades carnavalescas e pela ascensão do trio elétrico, o carnaval alegórico vivia seus últimos dias. Um período de riqueza e efervescência cultural que tinha em Maleiro um dos seus principais e mais completos personagens.

Apesar dos recursos financeiros limitados, comum a uma agremiação negra dos anos 1950/60, os Mercadores e os Cavalheiros exibiam beleza e brilho. Os desfiles eram inspirados na representação do Oriente que se via no cinema: tendas árabes, camelos, tapetes voadores, lâmpadas mágicas.

Era preciso chamar atenção do público, da imprensa e do corpo de jurados do concurso organizado pela Prefeitura, em busca do disputado título de campeão do Carnaval. Os Cavalheiros e seu dragão incendiário concorriam na categoria “Pequenos Clubes”. Em 1963, por exemplo, Jorge Amado, Mário Cravo Júnior e Carybé estavam entre os jurados, como registrou o Diário de Notícias em 20 de fevereiro daquele ano.

Pois bem. Voltando à noite de 1965, o espetáculo de luz e cor teve o ápice por volta das 19h30, quando o fogo se voltou contra o próprio carro alegórico, consumido pelas chamas, próximo, por ironia, ao Quartel dos Bombeiros, na Barroquinha. O jornal A Tarde registrou o incidente com uma nota na capa da edição de segunda-feira, 1º de março de 1965.

“O carro incendiado foi a atração do desfile. O incêndio foi iniciado quando o próprio presidente do clube acendia um dispositivo, que faria sair chamas da bôca do animal armado sôbre o carro. O forte vento que soprava, propalou o fogo, que rapidamente destruiu tôda a armação do carro alegórico, sendo facilitado pelo material do carro, todo ele de palha sêca e madeira”, dizia o texto.

Apesar do susto, Maleiro renovou a criatividade. Ele colocou uma nova faixa no carro destruído pelo fogo: "Os maus por si só se destroem". E os Cavalheiros retornaram à avenida no dia seguinte. Mas o incêndio pode ter impedido os Cavalheiros de levantar a taça. O bloco ficou com o segundo lugar, como noticiou o Diário de Notícias, em 4 de março de 1965. Curiosamente, como atestam registros fotográficos, Maleiro exibia uma placa na porta do seu ateliê, na Barroquinha, com a inscrição: “Cavalheiros de Bagdá – Campeão de 62, 63, 64 e 65”.

60 anos depois, pouco importa quem venceu o campeonato. Mas a frase “Os maus por si só se destroem” continua a fazer muito sentido. Pode ser interpretada como uma crítica à elite soteropolitana? Uma referência à exploração do povo negro? Maleiro continua atual, apesar de a narrativa oficial da festa ofuscar a sua real importância.

E é preciso lembrar que ele realmente incendiou o Carnaval com seus múltiplos talentos. Contribuiu com produções do Gandhy aos Internacionais, influenciou a percussão na Bahia, reconfigurou o tradicional “carnaval negro” com seu mergulho obstinado no orientalismo e o Gigante de Bagdá, esse herói mestiço, negro/árabe, que enfrentava dragões e a opressão.

*Dante Nascimento é jornalista e doutorando em Cultura e Sociedade/UFBA

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Google Noticias Siga o A TARDE no Google Noticias

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no Email

Tags

Carnaval de Salvador Cavalheiros de Bagdá Mercadores de Bagdá Nelson Maleiro

Relacionadas

Mais lidas