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Política é coisa de traído

Confira o artigo de Jolivaldo Freitas

Jolivaldo Freitas
Por Jolivaldo Freitas
Jolivaldo Freitas
Jolivaldo Freitas - Foto: Divulgação

Está todo mundo muito louco. O universo para tema de “O Alienista”, de Machado de Assis e eu, você e os seus e os meus formamos uma turma para internar num manicômio. A eleição ainda segue, mas tem eleitor agindo como se o resultado já estivesse escrito.

De um lado, eleitores de Lula demonstram inquietação, apreensão e até desespero diante do resultado do primeiro turno. Do outro, apoiadores de Flávio Bolsonaro parecem contaminados por uma euforia antecipada, como se a chegada ao Palácio do Planalto fosse apenas uma questão de cumprir tabela. É justamente aí que mora o perigo: na política, o salto entre a esperança e a certeza pode ser menor do que aquele que separa a vitória da derrota.

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O desespero de uns e a empáfia de outros são sentimentos compreensíveis em uma disputa tão polarizada, mas nenhum deles ajuda a compreender a realidade das urnas. O primeiro turno não é sentença definitiva, assim como uma votação expressiva não representa um cheque em branco para quem pretende comemorar antes da hora.

A eleição continua aberta. Ainda tem campanha, articulação, debate, convencimento, O mundo da política é cruel. O segundo turno é “coisa de corno”, como me disse amigo pescador de quatinga da Ponta do Humaitá.

A história política está cheia de exemplos de candidatos que se julgaram donos da vitória antes de ela acontecer. A confiança excessiva pode transformar-se em descuido, alimentar erros de campanha e produzir uma sensação de superioridade que afasta justamente aqueles cujo apoio é necessário.

O “já ganhou” é uma espécie de anestesia eleitoral: faz o candidato deixar de ouvir, o militante parar de trabalhar e o eleitor acreditar que sua presença nas urnas já não é tão importante. A comemoração antecipada pode acabar se tornando uma celebração da própria derrota.

Um episódio frequentemente lembrado nesse contexto envolve Fernando Henrique Cardoso. Durante a campanha presidencial de 1985, quando disputava a Prefeitura de São Paulo, FHC foi fotografado sentado na cadeira de prefeito, a pedido de um repórter, antes de o resultado da eleição ser conhecido. A imagem tornou-se símbolo da precipitação: ele acabou derrotado por Jânio Quadros.

A história costuma ser recordada como advertência contra a tentação de tomar posse antes de conquistar o cargo. Vale, porém, fazer a distinção histórica: a disputa era municipal, não presidencial.

O episódio ensina uma lição que atravessa gerações e partidos. A cadeira do poder só pertence a quem vence a eleição. Pesquisas, projeções, manifestações de entusiasmo e multidões nas ruas podem alimentar expectativas, mas não substituem o voto. A política brasileira já mostrou muitas vezes que campanhas aparentemente consolidadas podem perder força, enquanto candidaturas desacreditadas encontram espaço para reagir.

Quem transforma vantagem em arrogância corre o risco de subestimar o adversário e, principalmente, o eleitor.

Por isso, o desespero dos lulistas não deve ser confundido com uma derrota consumada, assim como a confiança dos bolsonaristas não pode ser tomada como garantia de vitória. Aos primeiros, cabe trocar o pânico pela mobilização e pelo argumento.

Aos segundos, convém lembrar que entusiasmo não é resultado eleitoral e que a arrogância pode custar caro. O voto não pertence às torcidas organizadas, aos dirigentes partidários ou aos comentaristas que distribuem certificados antecipados de vitória. Pertence ao cidadão, que decide quando deposita sua escolha na urna. Portanto, os bolsonaristas devem ficar atentos e mobilizados.

Os lulistas em movimento constante pra ver se um “milagre” acontece. A história mostra que ninguém que perdeu o primeiro turno para presidente venceu no segundo, mas a história serve para ser desmoralizada.

A eleição exige vigilância, trabalho e respeito ao adversário. Flávio Bolsonaro e seus apoiadores têm todo o direito de acreditar na vitória, mas transformar essa crença em certeza pode ser um erro político. Da mesma forma, os eleitores de Lula não precisam converter cada sinal desfavorável em motivo para desespero. O segundo turno é uma nova disputa, com seus próprios movimentos e surpresas.

A política não é uma corrida vencida na fotografia da largada. É uma travessia que só termina na linha de chegada. E, até que ela seja cruzada, convém guardar a cadeira, conter a euforia e manter os pés no chão. Porque, também na história das eleições, o “já ganhou” já fez muita gente descobrir, tarde demais, que ainda faltava combinar o resultado com o eleitor.

*P.S.: Meu amigo Jãozito Nariz de Broa está montando um grupo no Whatsapp. O nome: F*da-se Lula & F*da-se Flávio. Já tem é gente.

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