OPINIÃO
Quem paga a conta depois da obra?
Arquiteto Walter Schimmelpfeng fala sobre custos após obras


Toda obra começa com uma pergunta inevitável: quanto vai custar? Somamos materiais, mão de obra e prazos. A conta precisa fechar. Mas outra conta raramente chega à mesa: os impactos que esse edifício produzirá durante décadas.
Não falo apenas da energia que vai consumir, mas do carbono incorporado aos materiais, da água utilizada, do calor acumulado e dos efeitos na vida das pessoas. Uma obra pode caber no orçamento e transferir custos para o futuro. Quem paga essa diferença?
Em duas décadas como arquiteto, passei a questionar a ideia de que um projeto está resolvido quando funciona bem e agrada aos olhos.
Estamos acostumados a medir metros quadrados, prazos e custos. Por que ainda tratamos como secundária a avaliação das consequências? Comparar as emissões de sistemas construtivos na fase de projeto permite rever escolhas antes que se tornem concreto. A inovação está em usar informação para transformar decisões desde o início, não em exibir tecnologia no fim da obra.
Medir não significa reduzir a arquitetura a um número. Uma edificação de baixo carbono, mas desconfortável ou inadequada ao uso, não se torna boa por isso. O desafio é combinar indicadores com sensibilidade e inteligência.
Há uma convicção da qual não abro mão: responsabilidade ambiental e valor para o negócio não podem ocupar lados diferentes da mesa. Um edifício que desperdiça menos, funciona melhor e se adapta ao longo do tempo interessa ao planeta, a quem o utiliza e a quem investe.
Foi dessa inquietação que nasceu o CIX (Carbon Impact Index), ferramenta desenvolvida em meu escritório para mensurar o impacto de carbono das escolhas em projetos de arquitetura e construção civil. Essa preocupação também se traduz no compromisso de manter a operação carbono neutro.
Em 2026, a Andrade Schimmelpfeng conquistou a certificação B Corp, que reconhece empresas comprometidas com desempenho social e ambiental, transparência e responsabilidade. A conquista se soma a duas décadas de reflexão sobre os impactos da arquitetura e as escolhas que fazemos ao projetar e construir.
O desafio da arquitetura é conciliar o bem-estar das pessoas, o valor gerado para os negócios e a responsabilidade ambiental. Essa convergência precisa se traduzir em escolhas concretas, desde a concepção do projeto.
Durante muito tempo, aprendemos a prestar contas do que gastamos para construir. Agora, precisamos responder também pelo que nossas escolhas deixam para trás.
Porque uma obra termina. Suas consequências continuam.
*Walter Schimmelpfeng é arquiteto e sócio-fundador da Andrade Schimmelpfeng Arquitetura, Empresa B Certificada e membro do GBC Brasil.