SALVADOR
Ato público celebra o respeito à estética da população negra


Quem passou no Largo do Campo Grande, no início da tarde deste domingo, 13, teve a chance de entrar em contato com um grupo de mulheres e homens de cabelos crespos, cacheados, alisados e trançados. Todos reunidos em prol de um objetivo comum: celebrar a estética da população negra.
A praça Dois de Julho serviu de palco para a Marcha do Empoderamento Crespo, evento que aconteceu pela segunda vez na capital baiana. De acordo com a estudante de administração Mila Carol Soares, 23, empoderamento é a busca pelo poder de forma coletiva.
“A partir do momento em que eu aliso, tranço, corto, pinto meu cabelo e isso faz com que eu me sinta segura como mulher negra, isso é empoderamento. É sobre lutar para ser o que você quiser ser. Em geral, essas atitudes ressoam e atingem outras pessoas”, explicou Mila.
Para a antropóloga Naira Gomes, 29, defender a estética negra é um ato político. “O racismo utiliza as nossas formas, o cabelo, a boca, o nariz para nos preterir em certos espaços e retirar nossa dignidade e autoestima perante a sociedade”, disse ela.
A concentração para o evento começou às 12h, com intervenção de capoeiristas, poetas e música negra. Pouco depois de 14h, a marcha seguiu, com gritos de ordem como “Eu tô na rua é para lutar pelo direito do cabelo encrespar”, em direção à praça Castro Alves.
A presença de homens na marcha também foi expressiva. Estudante de arquitetura, Yago Souza, 19, afirmou que desde cedo homens negros são “dogmatizados” a raspar os cabelos. “Parece até que não existe nenhum outro tipo de corte ou penteado que um cara negro possa ter. Viemos para mostrar que não é bem assim e valorizar as nossas características negras”, afirmou.
Observadores
O casal de aposentados Nelson da Luz, 69, e Maria José Fonseca, 67, assistia a movimentação da marcha em um banco da praça Dois de Julho. Quando questionada sobre o evento, Maria José afirmou que “essa marcha é necessária em um país racista”.
Para Nelson, cada um deve ter o cabelo e o estilo que quiser. “Temos que reagir para acabar com o racismo. Do jeito que está não dá para ficar”, disse ele.