SALVADOR
Cafeata pára o Mercado Modelo

Genivaldo Conceição Bonfim Dias, 13, estuda pela manhã e à tarde trabalha com o pai vendendo cafezinho na Praça da Sé. Todos os dias ele sai de sua casa, em Nazaré, sobe a Avenida Sete empurrando um carrinho de madeira, para vender a bebida a R$ 0,30. O mesmo roteiro que o pai, Genivaldo Raimundo Dias, 36, cumpre há 20 anos.
Nesta quarta-feira, ambos quebraram a rotina e desceram a Ladeira da Montanha para participar da 13ª edição do Concurso de Carros e Guias de Cafezinho, realizado anualmente pela associação Viva Salvador, no Mercado Modelo.
Genivaldo pai e Genivaldo filho não ficaram entre os vencedores, mas não voltaram para a labuta de mãos abanando. Ganharam duas cestas com garrafa térmica, café, leite, chocolate, copos descartáveis e outros apetrechos para o dia-a-dia do ofício.
“Nosso objetivo é valorizar o ser humano e sua criatividade. Apesar de a maioria dessas pessoas sequer serem alfabetizadas, são capazes de transformar seus instrumentos de trabalho em verdadeiras obras de arte”, diz o idealizador do concurso, o francês Dimitri Ganzelevitch, 62, radicado na Bahia há mais de 30 anos.
Os vencedores não levaram prêmio em dinheiro, apenas uma cesta de produtos mais incrementada. “Não faço a menor questão de ser campeão. Já venci esse concurso cinco vezes. Se eu ganhar de novo vão dizer que é marmelada”, esnobou Paulo Cesar de Jesus, 39, cujo principal objetivo era aproveitar os holofotes da mídia para divulgar seu verdadeiro produto, o carrinho Cabeção.
“Já fiz uns oito carrinhos, um foi para o Museu Afro do Brasil, e outro que eu aluguei para ser filmado para um filme [Ó Pai, Ó] foi vendido para um turista estrangeiro”, conta Paulo César, que acabou ficando em segundo lugar.
Campeão - O campeão, desta vez, não foi um carrinho, nem uma guia. O serralheiro Benedito Vieira da Silva, de 35 anos, levou seis meses na confecção de uma verdadeira carreta de mais de dois metros de comprimento, em que abusou de alusões ao Homem Aranha. Para manter TV e aparelho de som ligados simultaneamente, foram instaladas duas baterias de 45 amperes no veículo que garante um complemento de R$ 320 por mês ao orçamento da família.
“Gastei uns R$ 4 mil reais para fazer esse carrinho, mas tive a ajuda de meus colegas de trabalho e da minha empresa, que pagou metade. Já me ofereceram R$ 5 mil e eu não vendi”, afirmou o campeão, que espera uma oferta mais vantajosa para se desfazer de sua obra de arte.
Cinco carrinhos dividiram o terceiro lugar do concurso, entre eles o carro do chicleteiro Edvaldo Batista da silva, 69, devidamente equipado com a trilha sonora dos ídolos, e Justiniano Santana, que arrebatou aplausos com sua acalorada performance com o Carrinho do Reggae.
O júri, composto por um músico, dois empresários, dois artistas plásticos, uma escritora, uma agente de viagens e uma enfermeira, resolveu criar uma premiação especial para premiar os trabalhos mais modestos. Segundo Dimitri, foi a forma que a organização do evento encontrou para estimular os vendedores de café com menos recursos a “capricharem” mais em seus instrumentos de trabalho.
Um dos premiados, Wellington Sinésio da Silva, ficou surpreso e, ao mesmo tempo, grato. “Eu nem queria vir, porque achava que não tinha a menor chance. No próximo ano vou trazer um carrinho melhor”, prometeu.