SALVADOR
Centro cultural atrai jovens e pede ajuda


Março foi um mês de aprendizado e reuniões online para a estudante Mikaelle Andresa Conceição Mendes dos Santos, 16. Ela é uma das participantes do projeto “Olhar da Juventude”, uma formação em teatro de bonecos com ênfase em cidadania, arte, território e estética oferecido, gratuitamente, por outros jovens artistas do CCM (Centro Cultural Mamulengos), na comunidade do Monte Sagrado, em São Tomé de Paripe, subúrbio ferroviário da capital baiana.
Entusiasmada com dois encontros virtuais semanalmente, por conta das restrições impostas pela pandemia, Mikaelle elogia o trabalho da trupe teatral com 14 anos de ações na região. “O CCM é uma porta que possibilita a inserção de jovens em outros espaços e de expressar nossos talentos. É o lugar que valoriza a nossa identidade e ressalta que a gente pode conseguir alcançar os nossos objetivos”.
Essa relação afetiva com o centro cultural faz parte também da história de Natan Jesus da Silva, 25, atualmente coordenador da instituição. Ele foi integrante da primeira oficina de teatro de bonecos no espaço, ministrada pelo mestre bonequeiro Elias Bonfim, em 2007. “Ser bonequeiro é ser encantado pela arte do boneco e encantar outras pessoas”, define-se.
Feito simplesmente de papel ou, de uma forma mais significativa, com cabaça, madeira e tecido, o mamulengo, cuja tradução em bantu significa “mãos moles”, é um patrimônio cultural imaterial brasileiro presente na cultura popular nordestina. O teatro de bonecos traz em sua essência personagens criados a partir das representações sociais do cotidiano.
Para Natan, o projeto on-line foi uma alternativa para a continuidade das ações do coletivo no contexto atual. “A proposta surgiu com o desafio de manter as atividades do CCM, frente ao novo cenário de pandemia que impactou diretamente no setor cultural, em que o clímax é a interatividade e o encantamento entre público e plateia”.
Com outras ações virtuais em andamento, o espaço contabiliza números expressivos. “Cerca de 800 pessoas são acompanhadas direta e indiretamente pelos projetos do CCM. No Olhar da Juventude, 32 jovens se inscreveram e 20 participaram ativamente das reuniões pelo googlemeet. Nas redes sociais, algo em torno de mil pessoas, entre as que seguem nossa página e as que assistem às lives, interagem ao vivo e buscam contato diário para saber das atividades futuras”, afirma Alvaro Sant’Ana Oliveira Pereira, 24, coordenador de comunicação do CCM.
Contudo, Mateus Bahia, 24, gestor financeiro da instituição, Eduardo Machado/Agência Mural. “É um processo difícil porque o trabalho cultural e artístico envolve proximidade. O contato entre pessoas é energia, e isso quando se faz on-line é totalmente diferente. O desafio é tanto para gente ter essa motivação e conseguir entender, quanto para os educandos que vêm se esforçando para acompanhar as atividades”.
A sede do espaço, levantada por um mutirão, tem problemas estruturais, como rachaduras, cupins e destelhamento. Para captar recursos para a reforma, o CCM lançou vaquinha virtual, em julho do ano passado, para arrecadar R$ 6.698,00, mas até esta quinta-feira, 15, apenas 8 apoiadores contribuíram, totalizando R$ 700.
“A cada período de chuva a estrutura da nossa sede é mais prejudicada. Paredes, janelas e telhas são tomadas pela umidade. No ano passado arrombaram nossa sede e quebraram a pia. Nessas condições, não é acessível, não é seguro e não é o que a nossa comunidade merece”, esclarece Nata. Para contribuir com a vaquinha virtual é só acessar https://www.vakinha.com.br/vaquinha/reforma-ccm-centro-cultural-mamulengo/amp
Outros projetos
Localizado no último bairro dos 22 territórios populares que formam o subúrbio ferroviário, o Centro Cultural Mamulengo foi além das suas pretensões iniciais.
“Com as oficinas de confecção de bonecos, começaram a surgir outras demandas. Pessoas começaram a procurar o espaço, ainda de plástico, surgiram novos integrantes e outros cursos, como a dança afro e a capoeira. Aí, vingou”, conta Natan.
No local, tem atividades como teatro, capoeira, dança e eventos comunitários (bingos, feira de empreendedorismo, com vagas prioritárias para mulheres pretas, e saraus), além de eventos do calendário baiano, com foco na população negra e no enfrentamento ao racismo, entre eles o Festival Odara de São Tomé de Paripe e o acolhimento da Pré-Conferência Sobre Segurança Pública e Participação Popular.
Com a pandemia, a internet passou a ser a principal aliada para garantir novas ações. O projeto de “Formação de Teatro Popular da Juventude” foi uma das iniciativas pensadas para a valorização territorial e a consciência identitária.
Atividades on-line voltadas à performance teatral, preparação vocal e corporal e escritas criativas ocorreram todas as 3ª e 5ª-feiras de março, para um público de 15 a 29 anos, ministradas por profissionais e artistas parceiros do CCM. O projeto tem o apoio financeiro da lei Aldir Blanc e do governo do estado. “O olhar da juventude é expressão artística sobre direitos e reivindicações contra o genocídio da juventude preta. Esse olhar referenda quem somos, por isso convidamos pessoas negras e suburbanas que transformam as comunidades através da arte", resume Natan Silva.
Sentir-se mais próximo e buscar a sensação de que a arte não para foi o resultado da formação em teatro de bonecos do “Sarau da Juventude”, transmitido pelo canal do YouTube do CCM no último sábado, 10 de abril.
O evento de encerramento teve a participação dos grupos de teatro Novos Arteiros e Alto Falante, das rappers Udi Santos, Bruna Mc e da atriz e dançarina Carol Xavier. Com duas horas de duração, o sarau teve poesias, espetáculos teatrais, apresentações musicais e de mamulengos, diálogos sobre teatro e negritude.
Também na busca de reconhecer os valores culturais da comunidade de São Tomé de Paripe, o CCM iniciou no ano passado o “São Tomé Minha Raiz”, projeto de pesquisa com jovens, em que a coleta de dados se dá por meio de questionário virtual. “A intenção é, com esses dados, chegar até a população antiga do bairro. Queremos resgatar histórias dos lugares de memória locais, buscando a valorização de mestres tradicionais indígenas, de rezadeiras, quilombolas e marisqueiras presentes no território ao longo do tempo”, diz .