SALVADOR
Comunidade acusa polícia da morte de ator circense

Familiares de um rapaz de 21 anos, morto a tiros na noite da última terça-feira, 22, acusam policiais civis de terem executado a vítima. O ator circense Ricardo Matos dos Santos, acrobata do Le Cirque, companhia nacional que percorre o País, e estava passando férias em Salvador. Ricardo estava jogando futebol em um campo na comunidade do Bate Facho, Boca do Rio, onde nasceu e se criou, quando foi atacado pelos homicidas. Policiais da 9ª CP, que investigam o crime não confirmaram que houve ação de colegas na comunidade e prometem apurar as denúncias.
Se as acusações dos familiares forem comprovadas, Santos será o terceiro jovem morto pela polícia baiana em dez dias. No ataque ao grupo, também foi assassinado Robson de Souza Pinho, 19, acusado de possuir envolvimento com o tráfico de drogas na comunidade. Revoltados com a morte do ator circense, quase duzentos moradores do Bate Facho fecharam a Avenida Paralela, durante toda a manhã de ontem, provocando um engarrafamento de quase quatro quilômetros.
“Ricardo era um menino decente tinha um futuro lindo pela frente. O outro que morreu era bandido, mas Ricardo não. Ele era um rapaz que aos 21 anos já era profissional do circo. Um exemplo para outros meninos do bairro“, lamentou a vizinha, Maria de Lourdes Santos Souza, 49 anos. A fala de dona Maria era unanimidade entre instrutores do Circo Picolino, parentes e vizinhos.
Mas uma entre tantas pessoas estava mais revoltada com a morte do ator circense. Trata-se do pai do garoto, Jorge Lázaro Nunes dos Santos, 48 anos, coincidência ou não, ex-prestador de serviços do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa, Yulo Oiticica e líder comunitário. “Meu filho é um exemplo de como nossa comunidade é tratada.
Ele venceu as dificuldades da vida e se tornou ator circense, mas ainda assim foi assassinado“, lamentou.
Homicídio – De acordo com a versão dos moradores da comunidade, o ator circense jogava futebol com vizinhos, nesta quarta-feira por volta da meia noite, quando duas guar
nições não padronizadas pararam bem em frente do campo e futebol, abrindo fogo contra todos. “Ricardo foi atingido na perna e caiu. Ainda assim ficou de pé, levantou os braços e se identificou“, lembrou uma testemunha que preferiu não se identificar, temendo ser alvo de re
presálias.
A testemunha ainda contou que o jovem foi colocado no chão e terminou de ser executado com outros sete tiros. “É jovem, preto, em uma comunidade carente. Não é assim que eles fazem na favela?“, questionou o jovem que solicitou o anonimato. Segundo contam, a viatura deixou o
bairro abandonando os dois jovens mortos. ”Somente depois de uma hora, uma equipe da Polícia Militar chegou e levou os dois ao Hospital Geral Roberto Santos”, afirmou o tio
do garoto, Leban Brito de Matos.
Manifestação – Entre lágrimas, vizinhos, amigos e parentes carregavam cartazes com pedidos de Justiça e com mensagens ao ator circense ontem pela manhã, na Paralela. “Vamos lutar por Justiça por você Ricardo!”, dizia uma das faixas. “Você acha que se meu sobrinho
fosse bandido teria atraído tanta gente?“, indignou-se o tio Matos.
Agentes da 9ª CP (Delegacia da Boca do Rio) dizem ainda estar investigando o crime, mas contam já terem conhecimento da idoneidade de Ricardo. “Ao que sabemos só o Robson tinha passagem na polícia“, afirmou o policial João Batista, integrante do Serviço de Investigação (SI). A Polícia Civil diz ainda não ter pistas da autoria do crime.
Futuro promissor - Assim como outros três coordena dores do Circo Picolino, a pedagoga Sara Regina Gomes, durante os quase trinta minutos de entrevista só teceu elogios a Ricardo. “Ele estava se preparando para ir para o circo de Solei“, lamentou. Oscilando entre momentos de lágrimas e lembranças boas que a fizeram abrir um sorriso discreto, a coordenadora pedagógica do Circo do Picolino, também é madrinha de formatura do acrobata.
“Ele me convidou para ser sua madrinha quando concluiu o Curso de Formação de Instrutores de Circo“, lembrou. Mas aquele não foi o único curso de Ricardo. “Ele era dedicado queria melhorar“, recordou.
Depois, se formou no 1º Curso Profissionalizante de artistas Circenses em 2005. Integrante da família Picolino há dez anos, chegou encaminhado pelo Projeto Axé em 1997, aos 11 anos.
Atualmente integrava a troupe do Le Cirque, onde atuava como acrobata, “Ricardo era um traba
lhador, um jovem vencedor que driblou todas as dificuldades, todos os riscos, que lutou para alcançar uma profissão“, lamentou Sara.