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Esquenta: Happy hour na Tancredo Neves

Emanuella Sombra | A Tarde
Por Emanuella Sombra | A Tarde

Avenida Tancredo Neves, sextafeira, trânsito das 18h30. Não sobram alternativas para quem sai do trabalho e pretende ir para casa, pensará o leitor. Adeptos do happy hour sugerem algo melhor: não enfrente o engarrafamento. Aguarde cerca de uma hora e espere o fluxo de veículos drenar mais rapidamente. De preferência, ao redor de amigos e segurando uma caneca de chope. Ou um latão de cerveja, se preferir.

O “coração” financeiro da cidade, como rezam alguns economistas, vem aos poucos consolidando seu perfil etílico: na Tancredo Neves, bebe-se normalmente no fim da tarde, na companhia de colegas de trabalho. Executivos, estudantes, lojistas, gente que trabalha em escritórios e repartições públicas demarcam, cada um, seu território. Um sambão no meio da calçada, entre a Casa do Comércio e a passarela de pedestres é o mais emblemático deles.

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“Dos que compram cerveja na minha mão, 90% são funcionários do (Salvador) Shopping”, confidencia o ambulante Gilmar de Jesus Andrade, 32. Por funcionários entende-se seguranças, balconistas, auxiliares de limpeza. Gilmar concilia um negócio de veículos seminovos com a venda informal de bebidas, que lhe rendem um extra de R$ 250 por sexta-feira. A julgar pela oferta – três latões de 473ml por R$ 5 – seus clientes estão ali pelo preço da mercadoria. E pela música, claro.

O samba de partido-alto divide os tímpanos com o pagode dos mega-alto-falantes dos carros, estacionados ao lado de barraquinhas de cachorro quente e de CDs piratas – quem conhece Salvador sabe o que isso significa para a vizinhança. “Falta barzinho nessa região. Há restaurantes no shopping, mas estão fora do nosso poder aquisitivo”, diz o segurança Gilberto Alves, 33 anos. A constatação de Gilberto faz sentido.

Nos últimos anos, quase nenhum bar foi inaugurado na avenida. Seus cerca de 3,5 mil trabalhadores formais (estimativa da Câmara de Dirigentes Lojistas) já não tinham muita opção de happy hour. Com a inauguração do Salvador Shopping há dois anos, uniram-se a mais 2,7 mil lojistas recém-contratados. Para os de baixo poder aquisitivo, a alternativa foi o final da passarela, no meio da calçada, abastecidos por cerveja de isopor.

Refúgio - O “jet set” da Tancredo Neves já prefere lugares como o Espaço Gourmet do Salvador Shopping. Área de sofisticados restaurantes, onde o hábito carioca de beber chope substituiu a cevada engarrafada, é refúgio certo na hora do rush. “A gente vem, conversa, espera o engarrafamento passar”, confidencia o empresário Alberto Carrera, 49. Espanhol, divide o tempo com o conterrâneo Eugênio Pedrosa, 39. Engenheiro gráfico, diz ter se acostumado à bebida brasileira.

“Na Espanha, a cerveja e o chope têm um teor etílico maior, há uma variedade de rótulos. Mas o que vale é vir nesse horário, bater um papo”, diz o último. Ambos trabalham na parte norte da cidade e preferem esticar o fim de tarde por ali mesmo. Se fossem para o Rio Vermelho ou Barra, por exemplo, teriam de transpor os cerca de 6,3 mil veículos que se aventuram pela Tancredo Neves, entre as 17h45 e as 18h45, horário de pico. A estimativa é da Transalvador.

Mesmo depois do horário crítico, há quem retarde o último gole. Reduto de universitários, a loja de conveniências do Posto Shell, no Shopping Sumaré, é prova disso: até por volta das 21h, garrafas de 355 ml passam de mão em mão, enquanto seus apreciadores conversam em pé. “No princípio, a gente exige gelada, mas depois deixa pra lá”, critica o supervisor de atendimento Alex Bezerra, 33. Prova de que o expediente e o engarrafamento são imperativos antes de escolher o lugar: “Se fosse pra eu sair de casa, jamais viria aqui”, diverte-se.

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