SALVADOR
Essa proposta fere os brios da comunidade

Entrevista: Elias John Ivo | Inspetor da Polícia Civil, diretor de Cultura do Sindipoc
A TARDEQual o balanço da greve?
Elias John Ivo | A capital aderiu 100% à greve. Estão obedecendo rigorosamente os ditames que o comando de greve determinou. A greve no interior começou tímida, mas hoje posso dizer que está na casa de 99%. Salvo o caso de algumas delegacias, cujo contingente de policiais é muito pequeno.
AT | Que ditames são esses?
EJI - Não dar banho de sol, não ter visita aos presos, manter 30% dos policiais nas delegacias, salvaguardar o patrimônio público, fazer toda e qualquer diligência diretamente relacionada a homicídio e remoções cadavéricas. São essas as principais diretrizes do comando de greve.
AT | Vocês tiveram mesa de negociação com o governo?
EJI - Durante todo o primeiro ano do governo Wagner. Ele instaurou a Mesa Central de Negociação Permanente. Houve a mesa central e as mesas setoriais. A da Segurança Pública teve uma situação esdrúxula: os oficiais não queriam sentar com os soldados e sargentos e os delegados não queriam sentar com os agentes e escrivães. Então, por conta dessa discriminação, a mesa ficou comprometida. Contudo, nós participamos, fomos para a mesa central, inclusive. E durante todo o ano, o nosso ex-companheiro Wagner não resolveu nada, veio com essa proposta que fere os brios da comunidade que lida com segurança pública no Estado da Bahia. O governo veio com um projeto de lei no qual congela a Gratificação por Atividade Policial (GAP). Se a categoria aceitar, nós teremos três anos de achatamento salarial. A GAP não é uma coisa simples. É uma gratificação, porque o policial coloca em risco a vida para defender o cidadão. Colegas que trabalham com investigação, que têm que se infiltrar, que têm que se disfarçar, correndo o risco de morrer a qualquer momento. Aí o governo tira R$ 20 da GAP, coloca no salário e congela a gratificação.
AT | Quanto Jaques Wagner já deu de aumento à categoria?
EJI - Posso dizer com convicção que ele só fez equiparar ao salário mínimo. No final do governo Paulo Souto, nosso salário-base estava abaixo do mínimo. E Wagner, simplesmente, nos colocou na condição de um trabalhador normal. Ele não me deu aumento, não fez uma leitura de que segurança pública é essencial para a sociedade. E não podemos dizer que o governo Jaques Wagner é calouro, porque ele é um sindicalista, ainda está na veia, está no sangue.
AT | A categoria apoiou a campanha de Wagner. Vocês se sentem traídos?
EJI - Absolutamente traídos, mas enquanto militantes de reivindicação de uma política pública igualitária.
AT | A PM também está se movimentando. Pode se repetir nesse ano, uma greve como a do ano de 2001?
EJI - Eu espero que não, porque seria o caos. Mas não deixa de ser uma possibilidade.