SALVADOR
Maragojipe se prepara para a Lavagem

A festa em homenagem a São Bartolomeu começou desde o dia 1 de agosto em Maragojipe, mas as comemorações em louvor ao padroeiro do município chegam ao ápice neste domingo, com a Lavagem Popular. Cerca de 20 mil visitantes [estimativa da Secretaria de Turismo] irão se unir aos moradores do local para percorrer as principais ruas da cidade, que amanhece em clima de festa no terceiro domingo do mês.
Antes mesmo de o cortejo deixar o adro da Igreja de São Bartolomeu, na Praça da Matriz, a música de Seu Tibúrcio anima moradores e visitantes. O hino a "Seu Tibúrcio, inclusive, é o diferencial da festa. Nascido nas ruas do município do Recôncavo Baiano, possui sentido dúbio e anima a lavagem popular desde a saída, ao meio-dia.
O cortejo deixa a igreja após o tradicional banho-de-cheiro das baianas para pedir mais um ano de proteção aos maragojipanos. Cerca de 200 delas, acompanhadas por uma charanga de 300 homens, toma as ruas da cidade para louvar São Bartolomeu, padroeiro do local há mais de 300 anos. O cortejo é acompanhado por milhares de pessoas, entre crianças e adultos, e embalado pela canção de versos ousados.
O refrão é cantarolado com entusiasmo por quem segue atrás do cortejo, que percorre mais de 10 quilômetros. Não importa a religião ou a idade, a música é cantarolada por maragojipanos e visitantes. Na cidade, todo mundo sabe a letra de cor e é possível escutá-la em qualquer lugar durante a festa de São Bartolomeu, maior manifestação religiosa e popular do Recôncavo, que tem duração de um mês.
A musica de Seu Tiburcio é a singularidade da festa. Em nenhum outro lugar há esse tipo de coisa, afirma o antropólogo Manoel Santos, ex-morador do local. Embora seja o diferencial da Lavagem, a música não agrada a todos e muitos atribuem a ela a vulgarização da caminhada. De tão ousado, o refrão chegou a ser proibido por volta de 1970, pelo delegado da época.
Para impedir a execução, as autoridades chamaram um batalhão de Feira de Santana, que cercou todo o cortejo. O esforço foi em vão. A cidade sabia da proibição, no entanto, a marca do festejo não poderia passar em branco. Diante da postura da polícia, fizemos um apelo : Seu delegado, por nossa Senhora, deixa eu cantar Seu Tibúrcio senão eu vou embora., lembra o ex-morador de Margojipe, João França, de 50 anos. Algumas pessoas chegaram a ser presas, mas a música não deixou de animar a multidão naquele ano.
A Lavagem de Rua é uma herança dos escravos que eram impedidos de frequentar o interior da igreja na por volta do século XVII. Eles faziam a festa do lado de fora, há mais de 300 anos. É única lavagem que existe no sentido de lavar com sabão. Porque os escravos eram obrigados pelos seus senhores a limpar tudo. Então eles aproveitaram e começaram a fazer o festejo deles também, afirma o historiador Bibito Souza, de 65 anos, tesoureiro da festa em 1972.
Origem - Há duas versões para explicar o surgimento da musica. Uma delas esta relacionada à vida de uma operária que casou-se com o dono da Fábrica de Charutos Suerdieck. Os maragojipanos ficaram descontentes pela forma como Tiburcia passou a lidar com os outros trabalhadores da fábrica após mudar o padrão de vida e usaram o nome dela para rimar com os palavrões.
Quando foram ao Cais buscar a imagem do patrono - levado para Salvador para ser restaurado começaram a entoar: São Bartolmeu chegou da Bahia, coberto de flores e cheio de alegria. Quando eu vim da Bahia, êta, encontrei Tibúrcia, êta. O final do verso ganhou sentido duplo repetido várias vezes e foi divulgado para avacalhar a operária.
No entanto, os mais velhos dizem que o hino já embalava as ruas de Maragojipe antes mesmo de a operária conhecer o dono da empresa. Prestes a completar 100 anos e bastante lúcida, dona Maria Carneiro Vieira confirma: A música já existia antes dela, lembro-me muito bem disso.
Segundo o relato de moradores, Seu Tibúrcio foi o homem responsável pelo transporte da imagem do santo da capital até Maragojipe. Como havia levado o padroeiro para dos devotos, ele foi homenageado com a canção. Mais tarde, a letra ganhou versos devassos por conta da influência dos escravos que eram maltratados pelos senhores de engenho e os xingavam em iorubá, língua africana que os portugueses não entendiam.
Como não há registro escrito e toda a história sobre o surgimento da canção é oral, a versão verdadeira fica por conta do imaginário de cada um. O certo é que, proibida ou liberada, a música caiu no gosto dos maragojipanos e é a marca do cortejo, conhecido popularmente como Lavagem da Bu ou da Cêta.