SALVADOR
Oferendas ecológicas são lançadas para Iemanjá
O som dos atabaques e agogôs anunciava pelos becos da comunidade do Solar do Unhão que o cortejo com os presentes para Iemanjá tinha iniciado. Eram 11h deste sábado, quando pescadores, moradores locais e de outros bairros seguiam as Filhas de Gandhy pela comunidade que fica entre o solar de mesmo nome e a Gamboa.
À frente, uma imagem do orixá era carregada por pescadores. Os presentes eram ecológicos, uma preocupação da comunidade que, há quatro anos, organiza a festa, com o auxílio do Coletivo de Entidades Negras (CEN). A celebração costuma ocorrer antes do 2 de fevereiro – quando tradicionalmente as homenagens são feitas, no Rio Vermelho.
Ao final do trajeto, a imagem e os presentes são levados para um barco para que a oferta seja feita nas águas da Baía de Todos os Santos. Na oferenda, nada de plásticos ou material que não seja biodegradável ou não-poluente.
Coordenador-geral do CEN, o historiador Marcos Rezende contou que a ideia surgiu quando pescadores da comunidade se depararam com muitos objetos no mar, sobretudo os feitos de plástico, após as oferendas do 2 de fevereiro.
“Esse presente tem a ver com a responsabilidade que a comunidade tem com o meio ambiente”, disse.
Comunidade só jogou ao mar presentes que não prejudicam a natureza
Peixes
Nascido e criado na comunidade, o pescador Gerson Bonfim Filho, 53, cuida da imagem durante todo o ano para o “grande dia”. Um dia antes, os pescadores vão ao mar para trazer peixes e fazer um grande almoço para a comunidade, após a entrega dos presentes.
Gerson contou que conseguiram pescar 20 quilos de xaréu, vermelho e guaricema. “A gente se sente bem em fazer essa festa. Quem vive na maré tem que fazer o bem à natureza. Ela (Iemanjá) é quem cuida da gente o ano todo”, frisou.
Para o artista plástico e grafiteiro Júlio Costa a celebração teve um significado especial. Há 15 dias, ele e um amigo ficaram à deriva após um problema num veleiro. Dez horas depois, o barco chegou em Coroa, na Ilha de Itaparica. “Fiz um pequeno balaio para agradecer e por morar perto do mar”, afirmou.