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“Oro por ela. Peço perdão a Deus e à Irmã Lindalva”

Márcia Gomes, do A Tarde
Por Márcia Gomes, do A Tarde

Assassino de Irmã Lindalva, que será beatificada em cerimônia católica marcada para o próximo sábado, Augusto da Silva Peixoto vive em uma instituição para recuperação de drogados em Simões Filho, a Comunidade Terapêutica Desafio Jovem Renascer. Ele conta ter ficado preso apenas por dois meses na Casa de Detenção e, depois, ter sido transferido para o Hospital de Custódia, na Baixa do Fiscal, em Salvador, onde permaneceu por 12 anos e quatro meses, até 2 de janeiro de 2006. Ele goza da liberdade de ir e vir e, com a porta da instituição aberta, conversou com a repórter Marcia Gomes. No final da entrevista, ele afirmou que, se fosse necessário retornar para fazer fotos, com certeza estaria lá: “Não vou a lugar algum”.

A TARDE Por que o senhor matou irmã Lindalva?
Augusto Peixoto | Eu admirava muito ela. O problema aconteceu por causa de outro interno que tinha lá no Abrigo D. Pedro II, o Maurício. O apelido dele era Coração, porque tinha problema de coração. Mas ela chamava ele de “meu coração”. Eu era viciado em droga, fumava muita maconha. Se eu não estivesse muito doido, não tinha matado ela.

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AT | Como ela tratava o senhor?
AP Tratava muito bem. Do mesmo jeito que tratava todo mundo. Só que ela tratava o Coração de maneira especial.

AT | Por que o senhor estava internado num abrigo para idosos, se na época só tinha 45 anos? Como chegou lá?
AP Eu vou fazer 60 anos no próximo dia 1º de janeiro. Fiquei lá uns cinco meses. Quando eu ainda morava em Alagoas, em Penedo, minha terra natal, trabalhava de carregador. Quando Collor (Fernando Collor, ex-presidente da República) foi eleito, prendeu o dinheiro de todo mundo e eu fiquei desempregado e fui parar em Salvador. Cheguei a dormir na rua e foi aí que conheci um grupo de espíritas. Eles me ajudaram e, com ajuda de um político, conseguiram uma vaga pra mim lá no abrigo, mesmo eu tendo menos de 60 anos na época.

AT | O senhor foi preso em flagrante quando tudo aconteceu?
AP Fui, sim, estava muito chapado, cheio de maconha, não tinha condições de fugir. Fui preso por um sargento, que me levou para a 3ª CP, no Bonfim, e depois fui levado para a Casa de Detenção, onde fiquei dois meses. Depois, acharam que eu era maluco e me puseram no manicômio (Hospital de Custódia e Tratamento), onde fiquei durante 12 anos e 4 meses.

AT | Cumpriu sentença?
AP Não! Nunca fui sentenciado. No dia 2 de janeiro de 2006, o pessoal do manicômio me deixou aqui nesta instituição, um dia depois do meu aniversário.

AT | O que o senhor faz hoje aqui nesta instituição? Se sente bem neste lugar?
AP Eu me sinto bem. Ajudo a fazer a limpeza.

AT | O senhor tem uma família, tem filhos?
AP Tenho parentes em Penedo, mas não tenho filhos. Tive quatro mulheres, mas os médicos disseram que eu sou estéril.

AT | O senhor tem noção do que fez? Tem noção da comoção que o seu ato causou?
AP Eu fui hostilizado na detenção. Cheguei a sair na mão com uns dois lá de dentro.

AT | O senhor se arrepende do crime que cometeu?
AP E muito. Na Casa de Detenção, entrei para a igreja, e aqui tem uma igreja da Assembléia de Deus e todo dia eu oro.

AT | Ora por ela? O que pede em suas orações?
AP Oro por ela, sim. Digo que tenho arrependimento e peço perdão a Deus, a ela e à família dela.

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