SALVADOR
População reclama de impactos do BRT em Salvador
Soteropolitanos divergem da prefeitura sobre necessidade da obra e os impactos econômicos e ambientais


O BRT de Salvador está previso para iniciar as suas operações, ainda em fase de teste, na próxima sexta-feira, 23. O prejuízo econômico, já que é um dos mais caros implementados no país, além do impacto ambiental, que alterou a paisagem de parte da cidade para a implementação do projeto, são motivos que levam o soteropolitano enxergarem com desconfiança a iniciativa, que teve início na gestão do ex-prefeito ACM Neto.
Prova disso, foi a reação dos leitores do A TARDE a respeito da reportagem publicada no domingo, 18, com o título “BRT chega com atraso e é o mais caro já construído no Brasil”. Foram centenas de comentários nas redes sociais do Grupo A TARDE falando a respeito não apenas dos impactos econômicos e ambientais, mas colocando em dúvida a necessidade de um investimento em uma obra dessa magnitude, quando os recursos empregados poderiam ser utilizados em outras áreas de necessidade da capital baiana.
No tocante aos impactos ambientais, houve quem citou a falta de compromisso da gestão municipal com a área verde da região, indo de encontro com o que se pratica em relação à busca por mobilidade sustentável em diversos países do mundo. Na área, mais de 300 árvores, dentre elas algumas centenárias, foram retiradas. Ao passo que os rios Lucaia e Camarajipe tiveram trechos simplesmente aterrados.
“Destruíram toda aquela área… virou tudo cimento! Tudo na contramão do que deveria ser pensando uma cidade neste século e não no século passado!”, escreveu uma leitora citando o caráter extemporâneo do BRT de Salvador.
“A Prefeitura (ex) não foi capaz nem mesmo de fazer estudo, o manejo de várias espécies de fauna, flora. Animais foram encontrados perdidos nas proximidades das obras desde o início dos cortes das árvores, até centenárias. Rios meteram areia p sumir.. era tão bonito o canteiro central apesar de faltar mais verde... tanto que pedimos p terem cuidado. Nossos pedidos foram ignorados. E os ambientalistas onde estão? E tome concreto na cidade, obra horrível! Só pensam nas eleições, o motivo da correria tá aí!”, lamentou uma leitora.
“Um BRT que não é BRT, só leva o nome mesmo. Obra construída para destruir as árvores centenárias da cidade, canalizar os rios, com discurso de desenvolvimento, não leva a nada para lugar nenhum, na verdade só foi para mostrar que também faz grandes obras em SSA”, apontou outro leitor em referência à necessidade de o ex-prefeito dar uma resposta à gestão estadual que colocou em funcionamento o metrô para os soteropolitanos.
Teve ainda quem reclamasse da estética da obra, que, além de ter destruído a área verde na região da sua implementação, não apostou em construções mais arrojadas. “Um absurdo e um escândalo que a sociedade baiana engole passivamente. E cá entre nós, as estações são horrendas, parecem um puxadinho de telhado de Eternit”, destacou um leitor a apontar a estética da obra.
“As estruturas de PVC dos terminais chegam a ser ridículos, poderiam colocar lâmpadas led também, com tanto dinheiro que foi aplicado poderia ser uma estrutura moderna e bonita, mas infelizmente uma porcaria superfaturada”, avaliou outro.
Houve morador da região que falou também dos transtornos das obras do BRT para quem vive nas proximidades. “Essa obra chega a ser uma piada. Moro na região e tem sido um verdadeiro transtorno. Barulhos até na madrugada, ruas destruídas e sem acesso para pedestres (temos que andarna entre os carros), retiraram faixas de pedestres, vários buracos sendo refeitos depois de ja ter sido asfaltado, retiraram os pés de jasmim que eram perfeitos e colocaram um monte de cimento no lugar. Uma vergonha!”, reclamou uma moradora da região.
Alguns outros comentários foram a respeito da avaliação que alguns soteropolitanos fizeram a respeito da escolha de projeto de mobilidade feita pela prefeitura, quando poderiam ter apostado em projetos mais modernos de transporte público.
Um levantamento realizado pela própria Prefeitura um ano depois do início das obras, em 2019, mostrou que, em horário de pico da manhã, a demanda pelo serviço que será oferecido pelo Trecho 1 do BRT era de menos de 15 mil passageiros, o que aponta uma subutilização do sistema.
O que mostra que onde está sendo construído o BRT, sequer era necessário e tende a ser deficitário. O parecer técnico do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-BA), incluído em uma Ação Civil Pública (ACP) movida pelo instituto contra a obra, foi claro: “(trata-se de) um gasto desproporcional de recursos públicos se comparado a outras alternativas mais econômicas e eficientes” (de transporte). “Há alguma demanda no sentido da região do Shopping da Bahia para a Pituba, mas do Parque da Cidade até a Lapa (Trecho 2) é uma demanda que não existe”, avaliou o arquiteto Carl Von Hauenschild, do IAB-BA. “Na verdade, mais de dois terços da demanda apontada por eles (Prefeitura) não chega realmente a ser necessária, mas esse cálculo foi feito por eles para justificar um empreendimento desse tamanho”.
Sobre esse aspecto, uma leitora lembrou. “E teve movimento contra a construção dessa obra faraônica, que não teve estudo e não vai trazer nenhuma melhoria a longo prazo no trânsito da capital. Os ônibus escolhidos são de tamanho comum, sequer são bi-articulados, o que poderia até justificar parte do gasto. Só que existem opções muito, muito mais eficientes, a exemplo do VLT, uma das principais escolhas nas médias e grandes cidades europeias. Mas acontece que o então prefeito [ACM Neto] bateu o pé, pois tinha porque tinha que realizar alguma obra do tamanho do metrô de [Jaque] Wagner e Rui [Costa]”.
“Um elefante branco, tipo o metrô na era Magalhães, que era motivo de chacota nacional. Umq obra desnecessária e que só levou o caos para uma via tão importante. Coisas de Netinho”, argumentou outra.
“Quem não sabia que essa obra teria um orçamento trilhonário? Afinal esse dinheiro todo sai dos bolsos de quem acorda cedo pra pagar tudo isso, ser mal servido em todos os aspectos públicos e ainda ver uma destruição tamanha de áreas que poderiam estar mais arborizadas, ou pelo menos que entendessem que o progresso precisa estar alinhado com as questões ambientais também. Enfim, infelizmente é Brasil é Bahia!”, lamentou o soteropolitano.
“Essa região caberia um VLT sobre trilhos, como vemos em várias cidades desenvolvidas. BRT é "tecnologia" de transporte de massa já ultrapassado. Ainda pra piorar enfiou um monte de elevados, outra técnica já ultrapassada. Várias cidades do mundo estão retirando os elevados, aqui os "especialista" criam vários como se fossem obras divinas”, indiciou outro.
“Falando sério, pessoal. Quem leu a Avaliação das alternativas técnico-econômicas elaborado pela empresa Prado Valadares vai concluir que o modal ideal para aquela região era o VLT. Se fosse de superfície como o BRT seria muito mais barato e com muito menos impacto visual naquela região tão sensível da cidade. Acredito que seriam necessários apenas os viadutos do Itaigara e do Rio Vermelho, lembrando que não houve projetos pq a licitação foi RDC (Regime Diferenciado de Contratação). O BRT é um modal em desuso no mundo inteiro, no RJ já está quebrado e cheio de problemas. O de Curitiba já está sendo pensado um VLT para substituir uma parte. O VLT é muito mais versátil, em que vc pode aumentar sua capacidade em número de trens e o intervalo entre viagens. Claramente havia um direcionamento para o BRT uma vez que, naquele momento, ainda havia uma demanda dos empresários de ônibus pela defasagem do contratado feito pela prefeitura em que se exigiu outorga onerosa para transporte público pelo MAIOR preço. Geralmente, se faz licitações de transporte pelo menor Ágio. É isso”, analisou o leitor.