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Zilda Arns: Maior mal do Brasil é a baixa educação

Miriam Hermes | A Tarde
Por Miriam Hermes | A Tarde

Médica pediatra e sanitarista, Zilda Arns Neumann, 75 anos, é fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança, criada em 1982 pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Hoje a experiência, iniciada no Brasil, alcança outros 17 países e mobiliza cerca de 300 mil voluntários. Em entrevista concedida a repórter Miriam Hermes, em sua visita a Barra(BA) na semana passada, Zilda Arns fala um pouco sobre os fundamentos deste trabalho que ajudou a reduzir a mortalidade e a desnutrição infantil no país.



A Tarde - Sendo a criança um ser que necessita de um núcleo de apoio, como avalia a família brasileira?
Zilda Arns -
A família brasileira ainda ama as crianças, que geralmente são o centro das atenções. Só que muitas vezes pela situação de pobreza, miséria, ignorância, a família solta as crianças nas ruas e perde o controle sobre elas. Muitas das que recebem maus tratos e se deviam pelo caminho da violência.



A Tarde - Na sua opinião, qual a influência negativa de maior impacto nas relações familiares?
Zilda Arns -
Eu diria que o maior mal do Brasil é a baixa educação, não tanto a pobreza. Porque a pobreza a gente supera com mais facilidade. Então falta educação de qualidade, porque o potencial humano das pessoas no Brasil é muito grande. Quanto mais são alfabetizados e educados os componentes das famílias, maiores as chances das crianças terem um desenvolvimento adequado.



A Tarde - Como trabalhar a autoestima de uma criança ou adolescente, numa família onde por vezes não tem uma referência positiva?
Zilda Arns -
Muito mais fácil e barato é prevenir. Se começar já no ventre a cuidar da criança com acompanhamento preventivo e depois promover o aleitamento materno, que desenvolve as suas emoções, ela tem mais capacidade de amar e mais equilíbrio afetivo e emocional para o resto da vida. O primeiro ano de vida é o mais importante de formação de caráter e de valores. Segundo pesquisa da OMS em 1994, crianças que foram maltratadas antes de um ano, tiveram uma tendência significativa para a violência e muitas se tornaram criminosas. Provavelmente muitas das crianças e adolescentes que andam nas ruas e se tornaram criminosas, têm marcas muito profundas da primeira infância. Por isso que é importante prevenir. Isso deve ser uma atividade inserida na proteção da criança e do adolescente, oferecendo também atividades nas escolas o dia todo. Agora eu digo, para isso ter resultado precisa de profissionais amorosos para trabalhar com eles, que dêem mais esperança. A educação de qualidade, com arte, esporte e educação para o trabalho ajudam a recuperar as crianças que perderam a autoestima. Porque, com certeza, todos eles têm talentos.



A Tarde - Como é o trabalho de aproximação da Pastoral com as famílias, para melhorar a vida das crianças?
Zilda Arns -
Temos três instrumentos. Em primeiro a educação individual, quando a líder vai visitar a família individualmente, uma vez por mês. Nesta oportunidade conhece a realidade e procura trocar idéias, ensinando aquilo que é importante para que a criança tenha futuro. O segundo instrumento de educação é grupal, no dia do peso, dia da celebração da vida na comunidade, em que mais mães e responsáveis participam, ouvem, trocam experiências, identificam crianças que não estão indo bem e precisam ser acompanhadas com mais concentração pelas líderes. Como terceiro recurso, usamos os meios de comunicação de massa. Temos o Jornal da Pastoral com 280 mil exemplares mensais e o programa semanal de rádio da criança que chama Viva a Vida, de 15 minutos semanais, retransmitido gratuitamente em cerca de 2.400 emissoras.



A Tarde – A senhora, que diz ter despertado a vocação para cuidar de crianças ainda na sua infância, o que diria para as pessoas que reclamam de solidão com tanto ainda por se fazer para melhorar a vida no Planeta?
Zilda Arns -
Se a vida está vazia, que procurem preenche-la com o mandamento do amor. Quanto mais a gente ama, mais o coração da gente sente-se feliz. Nosso princípio na Pastoral é: amar significa realmente ser feliz. Amando a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo, somos instrumentos objetivos de transformação.

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