PROBLEMAS DE SAÚDE
Baianas de acarajé sofrem com a fumaça do dendê
Fumaça da fritura pode gerar problemas respiratórios


As baianas de acarajé vêm se queixando do desenvolvimento de problemas respiratórios e outros problemas de saúde entre a classe, os quais acreditam ser causados pela fumaça gerada na fritura do dendê. A Associação das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivo e Similares do Estado da Bahia (ABAM) lista uma série de casos de baianas com relatos em comum e demandam políticas públicas voltadas ao trabalho da categoria.
“Há mais ou menos quatro anos nós estamos questionando algumas doenças que estão acontecendo com as baianas”, explica a coordenadora nacional da ABAM, Rita Santos. “A gente sabe que essas doenças são antigas, só que nunca foram postas às claras”.
Além dos problemas respiratórios, as baianas também registram casos de problemas no rim, tendão, pressão alta, visão, entre outras mazelas atribuídas a situações impostas pelo trabalho, como o excesso de tempo sentadas, esforço braçal e impossibilidade de ir ao banheiro.
Rita conta que os questionamentos e a apuração se intensificaram depois da morte da baiana Tânia Nery, que trabalhava na região do Farol da Barra, devido a câncer de pulmão, em 2018. A coordenadora relata que a baiana tinha hábitos saudáveis e que mesmo assim desenvolveu a doença, o que reviveu os questionamentos. Na época, Rita alega que os médicos atribuíram a morte de Tânia à exposição à fumaça.
Sintomas
Os efeitos também são percebidos por Joane Silva, uma das associadas da ABAM. Vinda de uma família de baianas, ela e sua irmã cresceram ajudando a mãe desde cedo no preparo dos acarajés e seguem no ofício até hoje.
Há alguns anos, a irmã de Joane desenvolveu câncer de bexiga, considerado raro em mulheres, o que levantou o questionamento do médico de se a paciente convivia com poluição química. “Hoje eu vejo que o que estava realmente degradando a situação dela era a fumaça do dendê”, acredita ela. A partir daí, Joane passou a observar mais atentamente os possíveis efeitos da fumaça e levou a situação para a ABAM.
O pneumologista Álvaro Cruz aponta que, apesar de não haver ainda um estudo direcionado aos impactos específicos do dendê, qualquer fumaça já é capaz de agredir o aparelho respiratório. “A depender do combustível que se usa, especialmente se for carvão e não gás”, explica ele, que também ressalta o efeito do óleo em suspensão.
“Se a pessoa respira especialmente as partículas muito pequenas, isso pode determinar uma inflamação dos aparelhos respiratórios.” De acordo com o médico, a situação ainda é menos grave, pelo fato de que o processo de fritura do acarajé é comumente feito ao ar livre, reduzindo os danos.
O debate sobre a questão foi retomado no evento Bote Fé na Cultura, organizado pelo deputado estadual Rosemberg Pinto na última segunda-feira (8). O encontro contou com a presença de integrantes de grupos culturais, como filarmônica, blocos afros, além da coordenadora da ABAM, que aproveitou a oportunidade para expor a necessidade de políticas públicas voltadas aos trabalhos das baianas.
A nutricionista Deudélia Almeida, professora titular aposentada da Escola de Nutrição da UFBA, alerta que a origem dos problemas de saúde relatados hpelas baianas começa bem antes da fumaça. “O problema tem que ser solucionado desde a hora que se produz o dendê para que se produza um dendê com a menor acidez possível”, explica ela. “Se você tiver um azeite melhor, ele vai ter uma durabilidade melhor e vai produzir menos substâncias tóxicas”. A nutricionista ainda acrescenta que a reutilização repetida do azeite é um hábito que pode piorar a situação.
*Sob a supervisão do editor Rafael Tiago Nunes