MEMÓRIA QUE HABITA
Ancestralidade no concreto: cultura negra influencia a arquitetura na Bahia
No Muncab, a história apresentada se conecta com o DNA do museu

Por Ana Cristina Pereira

Quem chega ao Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), no Centro Histórico, se impressiona com o gradil de 22 metros assinado pelo artista plástico e designer J. Cunha. Batizado de Histórias de Ogum e inaugurado em em 2014, no contexto das intervenções no casarão para receber o museu, ele oferece muito mais do que proteção: traz história, pertencimento e uma nova simbologia para o casarão neoclássico, que um dia abrigou o antigo Prédio do Tesouro.
Executado em ferro, metal associado ao orixá Ogum, o gradil conta a história da presença negra no Brasil. E na opinião do seu criador, deu uma identidade afro baiano ao prédio. J. Cunha explica que a peça conta uma narrativa visual, que vai da escravização à importância da presença negra na arte, religião e gastronomia, por exemplo.
Na execução, remete à própria questão do avanço tecnológico através do trabalho essencial dos ferreiros que vieram para o Brasil nos navios negreiros.
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J.Cunha já assinou outros gradis pela cidade, como para a Senzala do Barro Preto, sede do Ilê Aiyê no Curuzu, e para alguns terreiros de candomblé. Em cada um deles, conta, foi preciso muita pesquisa e um mergulho na cultura negra, para depois traduzir as informações em forma de pensamento gráfico.
No Muncab, a história apresentada se conecta com o DNA do museu voltado para a cultura de matriz africana e sua influência na diáspora brasileira.
“O designer, que sempre existiu, mesmo antes de ser chamado dessa forma, é muito importante na construção das identidades e da memória”, afirma o artista, que durante 25 anos assinou a identidade visual do Ilê Aiyê. Para ele, é preciso atenção, respeito e domínio dos códigos de cada cultura.
“Muita gente usa os símbolos adinkras na arquitetura, porque eles trazem formas simétricas, mas não tem ideia do que eles significam”, diz, referindo-se aos símbolos visuais originários de Gana e que representam conceitos, provérbios e aforismos negros. “Eu não teria coragem de usá-los sem saber o que significam”.

Reais e simbólicas
Resgatar essa presença negra e transformá-la em produtos e ações concretas é um desafio, na opinião do arquiteto e produtor cultural Zulu Araújo, para as novas gerações de arquitetos e designers negros.
“A arquitetura sempre foi a expressão do poder e da elite, e como viemos de 386 anos de escravização, a presença negra nessa área é ínfima”, localiza Zulu, deixando claro que não está falando da mão de obra e sim de quem idealiza as construções.
Não por acaso, afirma, o Brasil ainda é o único país do mundo onde o “quarto da empregada” segue existindo nos projetos de casas e apartamentos.
“E é o único cômodo que não tem normas estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), nem mesmo em relação ao tamanho. Ele segue como expressão atual do colonialismo”, pontua Zulu, que se formou em 1973 na Escola de Arquitetura da Ufba, com apenas duas pessoas negras na turma.
Naquele momento, recorda, a arquitetura individual era a expressão da elite baiana.
“Vindo da favela, eu não ia aceitar nem ser aceito por eles”, diz Zulu, que foi trabalhar no setor de obras públicas, em paralelo à sua atuação no movimento social negro. Atualmente, ele dirige o escritório da Conder no Centro Histórico e diz ter orgulho de atuar em frentes como a reforma do Conjunto Habitacional Vila Nova Esperança, a antiga comunidade da Rocinha, no Pelourinho.
“São famílias comandadas 99% por mulheres negras em um local muito importante para a negritude, então prefiro trabalhar nesses projetos”, afirma o ex-presidente da Fundação Palmares, lembrando que no dia 5 de dezembro o tombamento do Centro Histórico de Salvador como Patrimônio Cultural da Humanidade vai completar 40 anos.
“Hoje a Faculdade de Arquitetura tem 40% de alunos negros, e ainda assim é pouco, mas as novas gerações têm feito um esforço grande para mudar e academia para o mercado para mudar esse cenário”.

Academia x Mercado
Essa mudança apontada por Zulu Araújo tem a ver com uma série de fatores, como o sistema de cotas raciais nas universidades públicas e um círculo alimentado por alunos, professores, pesquisadores e futuros profissionais.
Os professores Maria Estela Ramos e Fábio Velame, respectivamente da Faculdades de Arquitetura e Urbanismo da Unime e da Ufba, são duas peças importantes na engrenagem. Ambos têm mestrado e doutorado e desenvolvem pesquisas com temas ligados às cidades afro-diaspóricas e orientam o caminho acadêmico de muitos alunos na pesquisa e na extensão.
Entre outros projetos, Fábio Velame está à frente do grupo EntiCidades, que existe há 15 anos e estuda as relações etnico-raciais na área de arquitetura e urbanismo. O grupo multidisciplinar tem aprofundado as pesquisas, por exemplo, sobre cidades negras, racismo e cidade e comunidades quilombolas e de terreiro.
“O grupo já é um reflexo da chegada dos primeiros cotistas na universidade, reúne estes pesquisadores negros e negras para tensionar e alargar a produção de conhecimento sobre os territórios negros”, explica o professor.
Em sua opinião, a mudança de perspectiva é visível nos últimos anos, com um conteúdo menos eurocentrado. “A universidade precisa ser mais plural”, resume o atual diretor da FAU-Ufba, chamando atenção que ele e a professora Juliana Nery formam a primeira direção negra da instituição em 65 anos de existência.

Impacto social
A professora Maria Estela, que estudou no Espírito Santo, se aproximou do EtniCidades quando mudou para Salvador. “Minha formação foi muito baseada em conhecimentos sobre a arquitetura americana e europeia”, recorda Estela, que percebeu sua falta de conhecimento sobre as comunidades negras e populares quando foi trabalhar na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. “Os quintais, por exemplo, tinham um significado muito especial, que tem a ver com a ancestralidade e a religiosidade”.
Aqui, Estela estudou os bairros da Liberdade e Engenho Velho da Federação, dois exemplos destes aquilombamentos negros de Salvador. Também desenvolveu projetos em comunidades rurais de origem quilombola. Tudo isso lhe deu mais fundamentos para orientar sua atuação na pesquisa, no ensino ou mesmo no mercado convencional da arquitetura.
Arquiteta e professora Maria Estela estudou aquilombamentos Salvador
No Escritório Modelo de Arquitetura e Interesse Social da Unime, a professora tem orientado projetos que buscam a utilização de materiais sustentáveis, de fácil acesso e que tragam mais conforto térmico às instalações. Em um trabalho recente, uma aluna projetou um conjunto habitacional usando tijolo sustentável.
“As bases para muitas destas soluções podem ser buscadas nas técnicas tradicionais de origem africana como a taipa de sopapo e o adobe”.
Afrocentrado
Com oito anos de formado, o arquiteto Éraldi Peterson, que comanda o Studio Arandela juntamente com Árley Samá, já é fruto destas transformações no cenário da arquitetura e urbanismo.
Com uma equipe jovem formada por seis arquitetos negros, eles se posicionam como uma marca afrocentrada. Um dos núcleos do escritório é voltado para projetos de impacto socioambiental, envolvendo diagnóstico e escuta.
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