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CLIMA

Inverno na Bahia terá mais calor e risco de incêndios com El Niño

Fenômeno deve elevar temperaturas e intensificar estiagem no semiárido

Isabela Cardoso
Por
Fenômeno climático pode trazer ondas de calor extremo ao país
Fenômeno climático pode trazer ondas de calor extremo ao país - Foto: Rovena Rosa | Agência Brasil

O inverno começou na Bahia no dia 21 de junho e deve ser marcado por temperaturas acima da média histórica nos próximos meses por influência do El Niño, fenômeno climático que aquece as águas do Oceano Pacífico.

Segundo o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), os efeitos mais intensos devem ser sentidos na segunda metade da estação, com impacto direto sobre a
estiagem no semiárido, o risco de incêndios e o comportamento da vegetação nos diferentes biomas do estado.

Enquanto o interior enfrentará o período
mais seco do ano, o litoral seguirá sob influência das chuvas de inverno. A combinação entre o sistema de alta pressão subtropical do Atlântico Sul e os ventos de sudeste reforça esse contraste climático entre as regiões baianas.

“Há uma grande diferença entre o que acontece no semiárido e no litoral. Enquanto o semiárido passa por uma seca muito forte, o litoral, especialmente em Salvador e no Recôncavo, recebe as maiores chuvas do ano. Isso acontece porque o sistema de alta pressão subtropical do Atlântico Sul e os ventos de sudeste trabalham juntos. Esses ventos trazem umidade para a costa, mas ao mesmo tempo, fazem com que a seca no interior seja ainda mais forte”, explica o coordenador de Estudos de Clima e Projetos Especiais do Inema, Aldirio Almeida.

Calor acima da média e frio nas áreas mais altas

Mesmo com a tendência de aquecimento, o inverno ainda deve registrar episódios de frio nas regiões mais elevadas. Na Chapada Diamantina e no Sudoeste baiano, as temperaturas podem ficar abaixo de 10°C durante as madrugadas.

No
Oeste da Bahia, o destaque é a grande amplitude térmica, com manhãs frias e tardes quentes. Neblina e nevoeiro também devem ocorrer em áreas serranas e de vale, favorecidos pela combinação entre umidade e queda de temperatura.

“A atuação do El Niño neste ano tende a acentuar ainda mais esse contraste, com temperaturas mais altas que a média histórica e impacto direto sobre a intensidade da estiagem no semiárido. Ainda assim, esperamos a ocorrência de temperaturas baixas nestes primeiros dias da estação”, completa Aldirio.

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Caatinga entra no auge da estiagem

A Caatinga, bioma predominante no território baiano, vive no inverno seu período de maior estresse hídrico. Árvores e arbustos perdem as folhas para reduzir a perda de água, fenômeno conhecido como deciduidade, que dá origem ao aspecto esbranquiçado da paisagem.

Espécies como catingueira, juazeiro, aroeira-do-sertão, mandacaru e facheiro exibem diferentes estratégias de sobrevivência durante a seca.

“A perda das folhas pelas espécies de árvores e arbustos não é um sinal de degradação, mas uma estratégia evolutiva sofisticada para reduzir a perda de água em um ambiente de estresse hídrico extremo. As cactáceas, por exemplo, funcionam como reservatórios vivos, sustentando parte da fauna durante esses meses mais secos”, afirma a coordenadora de Gestão da Biodiversidade do Inema, Mara Angelica dos Santos.

Cerrado tem mais risco de incêndios

No Cerrado baiano, que ocupa áreas do Oeste e do Sudoeste, a baixa umidade relativa do ar aumenta a suscetibilidade a incêndios florestais. Muitas espécies entram em uma espécie de hibernação, mantendo vivas apenas as raízes subterrâneas.

Incêndio florestal
Incêndio florestal - Foto: CBMBA | Divulgação

Em contraste, os ipês-amarelos e roxos florescem justamente na estação seca. “A floração dos ipês durante a seca do Cerrado é um dos fenômenos mais bonitos e também mais estratégicos da nossa flora. Sem a competição visual das folhas, a árvore maximiza a atração de polinizadores justamente no período em que os recursos são mais escassos”, destaca Mara Angelica.

Litoral tem inverno mais úmido

Nos remanescentes de Mata Atlântica, restingas e manguezais, o inverno representa a estação de maior umidade. O aumento das chuvas estimula crescimento, frutificação e renovação foliar.

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Em Salvador, apesar dos maiores volumes médios de precipitação ocorrerem entre abril e maio, o inverno mantém elevada umidade e acumulados superiores aos observados em boa parte da primavera e do verão.

“Mesmo em fragmentos urbanos, como o Parque de Pituaçu, por exemplo, é possível observar os efeitos do inverno chuvoso sobre a vegetação remanescente de Mata Atlântica. A umidade favorece a rebrota, a germinação de sementes e a presença de grupos vegetais mais sensíveis, como briófitas e pteridófitas, que dependem de água para se reproduzir”, observa Mara Angelica.

Super El Niño preocupa cientistas

Especialistas apontam que o atual ciclo pode se transformar em um “Super El Niño”, com aquecimento médio de até 3°C no Pacífico Equatorial. Em alguns pontos monitorados pela agência americana NOAA, as anomalias já alcançaram 4°C.

Segundo o Instituto de Clima e Sociedade da Universidade Columbia, há 93% de probabilidade do fenômeno atingir intensidade classificada como muito forte.

“O El Niño, que acontecia a cada dez anos, encurtou o intervalo para cerca de dois anos e está cada vez mais intenso”, afirma Rubens Ferreira, coordenador do Programa de Compromisso com o Clima do Instituto Ekos.

El Niño de 2026
El Niño de 2026 - Foto: Reprodução internet

Além do aumento das temperaturas, o fortalecimento do El Niño pode provocar:

  • Intensificação da estiagem no semiárido;
  • Maior risco de incêndios no Cerrado;
  • Pressão sobre reservatórios e abastecimento de água;
  • Redução da produtividade agrícola em áreas dependentes de chuva;
  • Elevação no preço de alimentos sensíveis às condições climáticas.

O Inema mantém o monitoramento climático e de biodiversidade ao longo do ano para acompanhar os efeitos do fenômeno sobre os diferentes biomas baianos.

Desastres recentes mostram força das mudanças climáticas

Além da influência do El Niño, os cientistas destacam que o aumento das temperaturas observado em diferentes regiões do planeta está diretamente ligado ao aquecimento global provocado pela emissão de gases de efeito estufa.

Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), a temperatura média do planeta já está cerca de 1,4°C acima dos níveis da era pré-industrial do século XIX, em razão principalmente da queima de carvão, petróleo e gás.

Esse aquecimento de fundo faz com que eventos extremos alcancem patamares mais elevados. Em outras palavras, quando uma onda de calor ocorre, ela parte de um planeta que já está mais quente do que no passado.

“A relação entre ondas de calor e aquecimento global é tão direta quanto possível: em um planeta mais quente, haverá mais ondas de calor, e elas se tornarão mais intensas”, afirmou Joeri Rogelj.

Dados do Serviço Copernicus para Mudanças Climáticas (C3S) mostram que, em junho, a temperatura da superfície do mar atingiu um recorde para o período. Entre os fatores apontados estão o aquecimento global e o desenvolvimento de um forte El Niño no Oceano Pacífico.

Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que o fenômeno não foi o principal responsável pela onda de calor registrada na Europa em junho. Estudos científicos indicam que as mudanças climáticas tiveram um papel claro no agravamento das temperaturas extremas observadas no continente.

Onda de calor na Europa

A Alemanha registrou cerca de 5.120 mortes relacionadas ao calor em 2026, segundo o Instituto Robert Koch. Na Europa Ocidental, junho foi o mês mais quente da história da região, de acordo com o Serviço Copernicus para Mudanças Climáticas da União Europeia.

França, Bélgica, Espanha e Holanda somaram mais de 4.700 mortes em excesso durante a onda de calor entre 20 e 28 de junho.

Tempestades e tufões na Ásia

Na China, tempestades e tornados deixaram mortos e provocaram inundações. A tempestade tropical Maysak causou 39 mortes, deixou nove desaparecidos e obrigou cerca de 130 mil pessoas a abandonar suas casas.

As enchentes ainda espalharam cerca de 900 cobras de criadouros na região de Guangxi e levaram as autoridades a reforçar os estoques de soro antiofídico. O país também se prepara para a chegada do tufão Bavi.

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