ÁUDIOS VAZADOS
Mosaico: líder do cacau é acusada de oferecer propina em Ilhéus
Em contato com o portal A TARDE, Vanuza Barroso negou as acusações


A presidente da Associação Nacional dos Produtores de Cacau (ANPC), Vanuza Barroso, está sendo acusada de oferecer propina a uma servidora da Biofábrica em Ilhéus, no sul da Bahia, para que ela confirmasse uma possível contaminação de mudas do fruto pelo vírus do mosaico.
O espaço em questão é uma organização social, vinculada ao governo da Bahia, que realiza a gestão do equipamento público, inaugurado em 1999.
O equipamento é destinado à produção contínua, em escala industrial, de genótipos (clones) de cacaueiros selecionados, resistentes a enfermidades e de alta produtividade.
O caso
O portal A TARDE teve acesso a um boletim de ocorrência feito por Railani Ribeiro Coutinho, que seria funcionária da Biofábrica. No documento, ela afirma que o primeiro contato por parte de Vanuza aconteceu no dia 8 de maio, por volta das 16h26.
Railani alega ter recebido uma mensagem em seu perfil no Instagram, por uma pessoa de prenome Jamile, que se identificou como sendo secretária de Vanusa. Após passar o seu contato telefônico para a suposta secretária, Railani foi acionada por Vanusa.
Na abordagem, Vanusa teria dito que tinha posse de um vídeo no qual Railani confirmava haver, nos pés de cacau da área da Biofábrica, o chamado Vírus do Mosaico, que deixa o fruto deformado.
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Em resposta, Railani, além de negar a declaração, afirmou que, se o vídeo fosse tornado público, poderia prejudicá-la profissionalmente.
Depois desta conversa, ainda houve outros contatos em que Vanusa, além de reforçar a ameaça de divulgação, ainda teria feito a Railani proposta de ganhos financeiros em troca do testemunho contra a Biofábrica. No entanto, Railani reiterou a negativa da proposta.
No boletim de ocorrência, a funcionária da Biofábrica afirmou ainda que o objetivo da proposta feita por Vanusa tinha fins eleitorais.
Mudança
O portal A TARDE também teve acesso a um áudio em que Vanusa e Railani dialogam. Nele, a presidente da associação cacaueira garante que não haveria prejuízo à funcionária da Biofábrica caso ela confirmasse as informações sobre a presença do vírus nos pés de cacau.
Há ainda uma promessa de que a funcionária seria levada para Minas Gerais e receberia uma quantia para que ela pudesse se estabelecer em outro estado.

"O que eu te propus [...] eu vou te pagar o valor que você me pediu por mês pra você ficar numa boa, tranquila, de cinco mil reais [...] porque você vai perder o seu serviço a hora que eu divulgar aquele vídeo", afirma Vanusa.
"Posso também te fazer isso se você tiver com medo, se você tiver com dúvida. Não quero lhe expor. Eu não quero te causar mal. Eu não quero fazer mal", acrescenta.
Em seguida, Railani reage: "Vanusa, mesmo que você poste meu vídeo sem meu rosto, minha voz, mas as pessoas que me conhecem vão saber que sou eu, entendeu?".
Biofábrica alega que houve "invasão"
Em nota publicada nas redes sociais há duas semanas, a Biofábrica acusou Vanuza de realizar uma "invasão" ao espaço no dia 5 de maio deste ano. Segundo a entidade, a entrada ocorreu durante o horário de trabalho dos funcionários e colocou em risco a segurança sanitária da área.
"Vanuza adentrou às áreas de jardins clonais e campos de multiplicação em pleno horário detrabalho dos colaboradores. (...) A ação da presidente coloca em risco a segurança fitossanitária da área, visto que a mesma não realizou nenhum dos protocolos de biossegurança aderidos e recomendados pela Biofábrica", diz a nota.
No comunicado, a Biofábrica também nega a presença do vírus mosaico na unidade e destacou que a doença causada pelo organismo "não integra a lista oficial de pragas quarentenárias do país".
"Tais acusações são infundadas, levianas e desprovidas de qualquer respaldo técnico-científico ou comprovaão oficial, gerando desinformação e insegurança no setor produtivo", rebateu.
Veja na íntegra:
Vanuza rebate acusações
Em contato com a reportagem, a presidente da Associação negou veementemente as acusações de tentativa de suborno contra a funcionária da Biofábrica. Além disso, Vanuza esclareceu que foi à unidade após receber uma denúncia de que o vírus estava circulando nas mudas de cacau da instituição.
Ao portal A TARDE, ela também afirmou que os áudios vazados se tratavam de uma oferta de trabalho, pois a funcionária temia a perda do emprego após relatar a presença do vírus. Vanuza também declarou que as gravações teriam sido "picotadas" tirando o contexto da conversa entre as duas.
"Conversei com uma funcionária, a funcionária de forma espontânea me disse que lá tinha a presença do vírus do mosaico, inclusive desde o ano passado. Eles picaram o áudio. Só tem a parte que eu proponho um trabalho. Ela chegou a me perguntar qual segurança eu daria e eu falei que, se ela quisesse, poderia pagar antecipadamente. Eu simplesmente não ia deixá-la à mercê de uma demissão. E quando ela disse que temia pela própria vida, eu até falei: 'eu te levo até para Minas Gerais'", rebateu Vanuza.
Nas redes sociais, a presidente da ANPC também publicou um pronunciamento e mostrou uma troca de mensagens que teria sido feita entre ela e a funcionária da Biofábrica. Em vídeo, Vanuza também mostra a suposta íntegra dos áudios da conversa.
Veja:
MPF abre investigação
O Ministério Público Federal (MPF) já determinou a abertura de uma investigação para apurar a denúncia de que mudas de cacau contaminadas estariam sendo distribuídas em Ilhéus. A decisão foi tomada pela procuradora da República Marcela Régis Fonseca, da Procuradoria de Ilhéus, no último dia 12 de maio.
O MPF determinou o envio dos autos à Polícia Federal para abertura de inquérito policial. Entre as diligências previstas estão oitivas de representantes da associação, funcionários da Biofábrica, produtores rurais e realização de perícia técnica no local.
A apuração começou a partir de uma representação apresentada pela ANPC com relação à Biofábrica.
As informações sobre a apuração do MPF foram publicadas primeiramente pela revista Veja.


