Biden entregou ao Brasil provas de torturas e mortes na ditadura, que Bolsonaro nega

Publicado sexta-feira, 09 de outubro de 2020 às 14:12 h | Atualizado em 09/10/2020, 14:14 | Autor: Da Redação

Favorito para vencer o pleito de 3 de novembro, de acordo com as atuais pesquisas, o candidato à presidência dos Estados Unidos Joe Biden criticou a devastação da Amazônia e está no centro da apuração, pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), de crimes e violações cometidos por agentes públicos durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985.

De acordo com informações do UOL, Biden, então vice-presidente na gestão Barack Obama, desembarcou em Brasília em junho de 2014 com um HD com 43 documentos produzidos por autoridades americanas entre 1967 e 1977, a partir de informações passadas por vítimas e por informações dentro das Forças Armadas e dos serviços de repressão. Os documentos detalhavam informações sobre censura, tortura e assassinatos cometidos pelo regime militar no Brasil.

Segundo o veículo, até então, a maior parte dos documentos era considerada secreta pelo governo estadunidense, que chegou a apoiar e colaborar com a ditadura, durante um grande período em que os militares estiveram no poder.

"Estou feliz de anunciar que os Estados Unidos iniciaram um projeto especial para desclassificar e compartilhar com a Comissão Nacional da Verdade documentos que podem lançar luz sobre essa ditadura de 21 anos, o que é, obviamente, de grande interesse da presidente", afirmou Biden, sorridente, ao lado da ex-presidenta Dilma Rousseff.

"Espero que olhando documentos do nosso passado possamos focar na imensa promessa do futuro", concluiu Biden.

Após o encontro entre Dilma e Biden, o presidente Jair Bolsonaro desqualificou as revelações feitas pela CNV, das quais os documentos trazidos pelo ex-vice-presidente dos EUA são peça fundamental.

"A questão de 64 não existem documentos se matou ou não matou, isso aí é balela, está certo?", disse Bolsonaro.

"Comissão da Verdade? Você acredita em Comissão da Verdade? Você quer documento para isso, meu Deus do céu? Documento é quando você casa, quando você se divorcia. Eles têm documento dizendo o contrário?", acrescentou o presidente.

Trechos do documento de sete páginas enviado pelo consulado americano do Rio de Janeiro ao Departamento de Estado, em 1973, trazido por Biden, descrevem algumas situações de tortura que ocorriam durante o período.

"O suspeito é deixado nu, sentado e sozinho em uma cela completamente escura ou refrigerada por várias horas. Na cela há alto-falantes, que emitem gritos, sirenes e apitos em altos decibéis. Então, o detido é interrogado por um ou mais agentes, que o informam qual crime acreditam que a pessoa tenha cometido e que medidas serão tomadas caso não coopere. Nesse ponto, se o indivíduo não confessa, e se os agentes consideram que ele possui informações valiosas, ele é submetido a um crescente sofrimento físico e mental até confessar."

"Ele é colocado nu, em uma pequena sala escura com um chão metálico, que conduz correntes elétricas. Os choques elétricos, embora alegadamente de baixa intensidade, são constantes e eventualmente se tornam insuportáveis. O suspeito é mantido nessa sala por muitas horas. O resultado é extrema exaustão mental e física, especialmente se a pessoa é mantida nesse tratamento por dois ou três dias. Em todo esse período, ele não recebe comida nem água."

Conforme o UOL, a comunicação diplomática informa que pelo menos 126 pessoas teriam passado por tratamento parecido ao relatado, além de outros métodos de tortura, como o “pau de arara”. A informação foi dada não só pelas vítimas em depoimento, mas também por informantes militares, que tiveram identidade ocultada em trechos apagados do documento.

Nem sempre o presidente Jair Bolsonaro nega as violações aos direitos humanos cometidas pela ditadura. Em julho de 2016, ele afirmou que “o erro da ditadura foi torturar e não matar”.

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