BRASIL
Historiadora e cineasta falam à Comissão da Verdade no Rio


Especial para A TARDE - Escrevo na dupla qualidade de jornalista e militante na luta contra o regime autoritário. Nesta quarta-feira, 28, estive na plateia da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, com muitos amigos e antigos companheiros, assistindo aos primeiros depoimentos à Comissão da Verdade do Rio de Janeiro: da historiadora nascida em Pernambuco Dulce Pandolphi e da cineasta Lúcia Murat, que em breve lança nas telas do Rio e Salvador seu mais recente filme, A Memória que me Contam.
Ambas ressaltam que foram presas e torturadas em 1971 em dependências do Estado brasileiro: o quartel da polícia do Exército situado na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca. Assim, a tortura no período deve ser vista como política pública e como tal deve ser combatida.
O primeiro depoimento foi da historiadora Dulce Pandolphi. Relatou que durante três meses ficou presa de maneira clandestina, sem que sua família ou advogados fossem oficialmente contatados.
Sofreu sevícias que hoje temos dificuldade de acreditar, como socos e pontapés, choques elétricos complementando as dores do pau de arara e requintes de crueldade, como passeios de um jacaré sobre seu corpo nu.
A historiadora contou que serviu de "objeto" num treinamento para torturadores, ministrado por oficiais do Exército Brasileiro. Segundo ela, ao apontar o pau de arara, o professor disse que "esta seria a técnica mais eficaz". O médico psicanalista Amilcar Lôbo foi chamado algumas vezes para atestar que Dulce Pandolphi ainda poderia suportar mais dores. "Ela ainda aguenta", teria dito.
No final de um ano e meio, Dulce foi liberada da prisão. O instrumento jurídico utilizado foi "relaxamento de prisão preventiva".
O segundo depoimento ouvido foi o da cineasta Lúcia Murat. Contou que foi presa a primeira vez no Congresso Estudantil de Ibiúna (1968) e ressaltou que, à época, antes do AI-5, os estudantes não eram torturados, mas os operários, sim.
Sua segunda prisão se deu em 31 de marco de 1971, depois de dois anos de vida clandestina. Entre suas duas prisões, seu pai, médico e diretor do Hospital Pedro Ernesto, e sua irmã mais velha, Regina Murat Vasconcellos, foram presos e intimados a dizer onde Lúcia Murat se escondia, o que ambos ignoravam.
A cineasta começou a apanhar dentro do carro e foi levada para o tristemente famoso quartel da Barão de Mesquita. Relatou que mal chegou tiraram as suas roupas e a colocaram nua no pau de arara, os choques elétricos com o teor aumentado pela água fria que jogavam para aumentar-lhes a força.
Ao sair do pau de arara, não caminhava: estava muito machucada e com febre. Depois foi diagnosticada uma flebite.
Os torturadores estavam alucinados: sabiam que precisavam obter informações sobre os contatos de Lúcia Murat antes que a notícia de sua prisão se espalhasse para sua família e para a sua organização política, a Dissidência Comunista da Guanabara.
"Gritavam, me xingavam e me puseram de novo no pau de arara. Mais porrada, mais choque, mais água. E dessa vez entraram as baratas. Puseram baratas passeando pelo meu corpo(…)".
"Hoje parece loucura. Mas um dos torturadores de nome de guerra Gugu tinha uma caixa onde guardava as baratas amarradas por um barbante. E através do barbante ele conseguia manipular as baratas no meu corpo".
Passados esses primeiros dias, foi largada num corredor, até que foi levada à enfermaria e começou a tomar antibióticos.
Médicos mais tarde disseram que se não tivesse começado a ser medicada, teria morrido. Lúcia Murat destacou a importância das circunstâncias: foi salva pelas circunstâncias, não pela vontade deles.
Ela disse que, na enfermaria, os médicos que a trataram foram os mesmos que a assistiam na sala de tortura: Amilcar Lôbo e Ricardo Fayal.
Depois começou a ser interrogada por "dois representantes do poder militar na Bahia (Lúcia havia vivido clandestinamente um ano em Salvador), o major Cinelli, do Ciex, e um representante da Aeronáutica.
Foi levada de avião da FAB para Salvador, para o Quartel do Barbalho. Segundo seu relato, lá o médico se apavorou e dizia: "Você vai morrer em minhas mãos, e eu não tenho nada com isso". Ele fez vir um neurologista da Aeronáutica, que a tratou. Graças ao tratamento, sua perna não foi amputada, embora até hoje vez por outra dê problema.
Ao melhorar, Lúcia foi transferida para a Base Aérea de Salvador e de lá para o Rio. Voltou ao DOI-Codi, o quartel da Polícia do Exército. A cineasta disse que em 1971 o aparelho de repressão conhecia bem o funcionamento das organizações clandestinas e a tortura era utilizada para seu aniquilamento. Era uma tortura de idas e vindas, que visava a "conhecimentos mais estruturais".
O objetivo era "anular os militantes como pessoas". Poupo os leitores de A TARDE sobre o que os torturadores chamavam de "tortura sexual científica".
Lúcia Murat conta que não sabe precisar o tempo que ficou incomunicável. Quase três meses depois de sua prisão, foi transferida para a Vila Militar, quando passou a ser "oficialmente presa", com direito a visitas da família e do advogado.
Relata que, além do horror sofrido no quartel da Barão de Mesquita, viveu momentos de esperança. Contou a história de dois soldados cujos nomes ignora e quer lembrá-los "porque o que estamos fazendo é um exercício de humanidade". Um se ofereceu para levar um bilhete para sua família, e levou. Outro passou a noite colocando panos quentes para amenizar a dor de sua perna.
"O mais aterrorizador é descobrir que por trás da tortura havia uma ideologia, uma defesa de um Estado autoritário. (…) Era um método de manutenção de um poder autoritário".
E fecha seu depoimento: "Restaram em mim pequenas cicatrizes no corpo, um problema de sensibilidade na minha perna e essa história. Uma história que compartilho com vocês não por desejo de vingança ou masoquismo, mas porque acredito que a única maneira de fortalecermos a democracia em nosso país é conhecendo o nosso passado. A única maneira de combater aqueles que ainda torturam por esse país afora é mostrar que esse é, e sempre foi, um crime de lesa-humanidade".
As depoentes foram aplaudidas e o plenário se esvaziou. Muitos dos presentes correram para as redações para fechar suas reportagens. As TVs aproveitaram para fazer as chamadas do dia. Lá fora da Alerj, o sol brilhava como se fosse verão no Rio de Janeiro.
*Helena Bocayuva é jornalista e pesquisadora em Saúde Coletiva do IMS-UERJ