Busca interna do iBahia
HOME > CADERNO 2

CADERNO 2

Cascadura celebra 30 anos e prepara apresentações de encerramento

Marcada na história do rock baiano, banda se apresentará em Salvador e outras cidades do país

Bruno Santana*
Por Bruno Santana*
| Atualizada em
Banda foi uma das mais importantes do movimento rocker que acontecia em Salvador na última década do século passado
Banda foi uma das mais importantes do movimento rocker que acontecia em Salvador na última década do século passado - Foto: Divulgação | Ricardo Ferro

Em 1992, o Brasil vivia sob forte crise econômica, era assombrado por uma inflação que alijava a cada dia o poder de compra das pessoas e via crescer um movimento de rejeição a um presidente impopular. Trinta anos depois, não dá para dizer que o cenário é muito diferente, mas uma coisa mudou: se há três décadas o Cascadura estava nascendo para deixar sua marca na história do rock baiano, agora é hora da banda se despedir “definitivamente” dos palcos com uma série de shows comemorativos.

A sequência, que começou na última semana em Feira de Santana, segue agora para Salvador com duas apresentações no Largo da Tieta, no Pelourinho, neste sábado, 13, e domingo, 14. Por fim, o grupo se apresenta em São Paulo — cidade na qual a banda se baseou por dois anos em meados da década de 2000 e criou fortes vínculos na cena rock local — na próxima quinta-feira, 18.

Tudo sobre Caderno 2 em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

Teoricamente, este não é o primeiro "último show" do Cascadura: a banda, que oficialmente se desfez em dezembro de 2015, se reuniu para fazer uma apresentação de despedida em janeiro de 2018, em Salvador. Posteriormente, o fundador e frontman Fábio Cascadura partiu com a família para o Canadá, onde embarcou em carreira acadêmica na área de história. Agora, com o arrefecimento da pandemia coincidindo com o aniversário de 30 anos da banda, Fábio considera o momento uma boa oportunidade para visitar o Brasil e fazer uma nova despedida, desta vez definitiva.

Segundo o músico, o retorno trouxe à tona muitas emoções e reaprendizados. "Primeiro, a emoção de reencontrar as pessoas, a cidade, os amigos, além da emoção de tocar esse repertório, já que eu não estou mais no ambiente da música profissionalmente. E também estou reaprendendo tudo, porque esse é um momento novo, diferente, e até a motivação de nos reencontrarmos vem disso".

Thiago Trad, baterista do Cascadura desde 2001, ressalta que o momento pós-pandêmico criou as condições oportunas para a reunião da banda. "Foi uma convergência, um momento muito especial porque a gente até pensou em fazer alguma coisa, mas calhou de ser nesses 30 anos e com a pandemia terminando. Então, nós pudemos fazer esses encontros. As pessoas estão mais preparadas para estar em um ambiente reunindo uma maior quantidade de gente. E o clima tá muito legal para o show", conta.

A Bahia é do rock

Além de Fábio e Thiago, a ‘versão 2022’ do Cascadura subirá ao palco com a formação estabelecida em 2013 - Du Txai na guitarra e Cadinho Almeida no baixo. Candido Martínez Sotto, guitarrista que integrou o grupo anteriormente, também marcará presença nas apresentações.

Ao longo dos últimos 30 anos, por outro lado, mais de 15 formações diferentes caracterizaram a banda, sempre com Fábio à frente dos trabalhos. Além de vocalista, ele também compôs todas as canções do grupo, sozinho ou em parceria com outros membros.

Essa metamorfose ambulante é notada também nas próprias influências e estilos abraçados pelo Cascadura. Em seus primórdios, a banda — que no início se chamava Dr. Cascadura, nome surgido de uma tentativa de traduzir o termo anglófono hardcore — claramente exibia uma predileção pelo rock de arena dos anos 1970, marcado por bandas como Lynyrd Skynyrd e Deep Purple. Na virada para o século XXI, entretanto, a chegada de novos membros, como o próprio Thiago, representou também uma evolução na sonoridade da banda.

O álbum Bogary, de 2006, é considerado o grande marco do Cascadura, com recepção extremamente positiva da crítica especializada e do público. Para Fábio, entretanto, o momento criativo de maior destaque da banda está no seu último álbum - Aleluia (2012). "Foi quando nós tivemos a capacidade de falarmos de nós mesmos. Esse momento marca, pra mim, a cristalização de um sonho, de falarmos da nossa realidade, com os instrumentos que a gente tinha, e fazer uma coisa que a gente sempre perseguiu enquanto criaturas atuantes no rock: viver na Bahia e naturalizar o rock também como uma expressão da Bahia".

Sobre a questão de viver e respirar o rock num estado que comumente é associado a outros gêneros musicais, Thiago considera este um conflito inexistente. "Pra mim, sempre foi muito natural tocar rock na Bahia. Sempre vi um pertencimento, porque sempre teve público. Então eu não acho que é uma coisa antagônica, até porque temos nomes como Raul Seixas, Camisa de Vênus… nomes do rock baiano que estão ali entre os principais do rock nacional. Não era pra se estranhar, porque se a gente olhar a matriz do rock, a matriz do afro-samba, do cabila, do batuque que vem do Recôncavo, o rock tá nisso tudo. Então, talvez por isso a Bahia é o estado que faz o rock que me soa mais autêntico", opina.

E o rock é de todos e todas

Questionado sobre um possível reacionarismo crescente na comunidade roqueira, Fábio repudia qualquer "sequestro" da cena por algum espectro ideológico. "A gente tem grandes idiotas, como aquele professor de guitarra que se diz comentarista político (referência ao Youtuber de extrema-direita Nando Moura), um grande imbecil que não conhece nada… ele diz 'eu sou do rock', mas qual a produção do rock dele? Eu tenho cinco discos, dois documentários musicais. Nós produzimos centenas de shows, tocamos no Lollapalooza… e o que falar do Rage Against The Machine, do The Clash, de Neil Young? A gente tem que parar de dar palco pra otário. Esses caras não sabem nada e se promovem através de polêmica...aí vai caber também à mídia querer valorizar isso ou aquilo".

A preocupação política de Fábio também se revela em sua carreira acadêmica: depois da temporada no Brasil, ele retorna ao Canadá para iniciar um doutorado em História da África, na Universidade York, em Toronto - e as duas aspirações, música e história, sempre andaram juntas. "Eu usei o rock em algum momento para dar vazão à minha paixão pela história, antropologia, pelas humanidades de modo geral", explica o músico, que pretende seguir na carreira acadêmica e começar a lecionar após a conclusão do doutorado. Até por isso, Fábio garante que, desta vez, a despedida do Cascadura é, de fato, definitiva.

Os shows em Salvador estão com ingressos à venda na plataforma Sympla. A apresentação de sábado, que tem disponibilidade de bilhetes já limitada, começará às 20h e o Cascadura receberá a participação especial da banda Meus Amigos Estão Velhos. Já no domingo, ainda com ingressos disponíveis, o show terá início às 18h com participação especial do grupo Vivendo do Ócio. Ambas as apresentações ocorrerão no Largo da Tieta, Pelourinho.

*Sob supervisão do editor Eugênio Afonso

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Google Noticias Siga o A TARDE no Google Noticias

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no Email

Relacionadas

Mais lidas