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CADERNO 2

Penna resgata com humor figuras históricas nas margens do Rio Ipiranga

Autor do livro "Os Sete da Independência" extrapola D. Pedro I e traz figuras históricas da independência

Bruno Santana*
Por Bruno Santana*
Gustavo Penna: “Que bronca é essa com as mulinhas?”
Gustavo Penna: “Que bronca é essa com as mulinhas?” - Foto: Divulgação

É provável que você já tenha visto – seja nos livros de história, na internet ou mesmo ao vivo, no Museu do Ipiranga, em São Paulo — o quadro Independência ou Morte, produzido ao longo de dois anos pelo artista e acadêmico Pedro Américo e concluído em 1888. Considerada a principal obra a retratar o grito de independência bradado por D. Pedro I em 7 de setembro de 1822, a formidável pintura a óleo de quase oito metros de largura tem boa parte das suas atenções voltadas, compreensivelmente, à figura do primeiro Imperador do Brasil. Mas ele, claro, não é o único presente na cena.

Foi com isso em mente que o escritor e roteirista paulistano Gustavo Penna desenvolveu a ideia principal de Os Sete da Independência, livro de ficção histórica que tem a proposta de resgatar sete entre as demais pessoas presentes no quadro de Pedro Américo.

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Por meio de um minucioso trabalho de pesquisa, o livro recria passagens e diálogos da vida de figuras como o Major Antônio Ramos Cordeiro, o político Francisco Gomes da Silva, mais conhecido como "Chalaça", e o Brigadeiro Manuel Rodrigues Jordão.

A ideia, segundo Gustavo, é povoar, fornecer contexto e enriquecer uma das passagens mais discutidas — e contestadas — da história do Brasil. “Esse quadro, por muitas razões, representa a relação do brasileiro com o Brasil, porque a gente adora falar mal dessa pintura, assim como a gente adora falar mal de si mesmo”, constata o autor.

“Por exemplo, o comentário mais comum que se escuta sobre o desenho é 'mas eles não estavam de cavalo, estavam de mula!', como se isso diminuísse aquele dia e, portanto, diminuísse a nossa história. Em primeiro lugar, as mulas não eram economia de orçamento, e sim uma decisão técnica, porque elas aguentam mais as viagens longas e pesadas. Em segundo lugar... que bronca é essa com as mulinhas? Veja bem, não estou dizendo que a gente não precisa ser constantemente crítico e constantemente atento. Ainda mais com o governo que temos!”, diz.

O que Gustavo quer dizer é que, em arte, não se deve levar as coisas tão ao pé da letra, e sim, entender o que elas representam.

“O quadro é uma alegoria, um exagero, como qualquer foto com filtro no Instagram. Mas não é uma mentira. É a representação de um sentimento. Milhares de pessoas morreram na Guerra da Independência para esse país poder ser fundado, e isso não deveria ser esquecido, como normalmente é. Escrever sobre esses ‘figurantes’, de certa forma, foi um jeito de dizer para o leitor: todo mundo tem uma história”, detalha.

Criando lembranças

Com uma narrativa desenvolvida em dezenas de pequenas histórias e passagens, sempre com uma dose de bom humor, o livro dá cor à vida e aos ideais das sete figuras que pretende analisar. Em um determinado ponto, por exemplo, traz aos holofotes o diplomata Luís Saldanha de Brito, posteriormente agraciado com o título de Marquês de Taubaté, em divertido diálogo com D. Pedro numa balsa que passava pelo Rio Paraíba. O conflito em questão: se o Imperador, plenamente enfatiotado, deveria se jogar nas águas do rio para se aproximar mais rapidamente do povo que saudava a chegada da comitiva em Jacareí (SP).

De acordo com Gustavo, a decisão de seguir pelo caminho da ficção histórica, reimaginando momentos nas vidas dos homens pesquisados, foi tomada para humanizar os personagens e guiar a história. “Imagina a sua história contada pelo cartório. Como ia ser? Tem sua certidão de nascimento, de compra do imóvel, de casamento e de morte. O que acontece nos ‘buracos’ é, basicamente, o resto da sua vida”!, compara o escritor.

“As documentações guiam a gente, claro. Elas mostram a verdade das coisas. A ficção veio para preencher os espaços vazios e garantir que uma história fosse contada”, segue.

Gustavo levou mais de dois anos imerso em documentos e registros históricos para traçar o perfil dos personagens e, a partir disso, desenvolver a narrativa. “É incrível que a maior guerra de Independência da América Latina tenha sido praticamente esquecida por grande parte do seu próprio povo. O livro é uma ficção histórica porque foi desenhado para que essa história possa chegar nas pessoas, com a força que ela realmente tem”. Diz mais: “Esses detalhes importam porque nos fazem lembrar que são pessoas reais, com sentimentos de verdade”.

Um coração despedaçado

Sobre as comemorações dos 200 anos da Independência, e notavelmente a “viagem” do coração de D. Pedro I empreendida pelo governo brasileiro, Gustavo lamenta que a data tenha sido capturada por uma facção ideológica extremista, em vez de rememorar a história do país.

“O coração deixou de ser um órgão para virar um símbolo. Tanto é que podiam pegar o coração de qualquer um e colocar no mesmo copinho, ninguém ia notar a diferença. Ninguém está interessado na aorta de Dom Pedro, e sim no que ela pode inspirar”, observa.

“E esse símbolo, por si só, não é ruim. Ele fala de identidade, fala de pertencimento e, em algum nível, fala de revolução. O problema se dá com a apropriação do símbolo! O que não deveria acontecer é a apropriação da história para defender uma ideologia fascista”.

Para o autor, seria errado abandonar a festa da Independência por causa do equivocado marketing governamental. “É momento de separar o trigo do joio e tomar nossa história de volta, com todos os meandros e complicações, até porque ela é a única que temos. É irônico e humano que, 200 anos depois, estamos mais uma vez lutando para que esse país volte, de fato, a ser das pessoas que vivem nele", conclui.

Os Sete da Independência está disponível para compra nas principais livrarias e no site da Editora do Brasil (editoradobrasil.net.br).

*Sob a supervisão do editor Chico Castro Jr.

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