CADERNO 2
Série documental baiana 'Hiper Praia' estreia na TV Educativa
Projeto retrata o cotidiano de vendedores ambulantes que trabalham nas diversas praias da capital e arredores


ão existe praia sem vendedor ambulante. A começar pelo aluguel de cadeiras e guarda-sóis que não podem faltar em um dia de sol, passando pela variedade de comidas e petiscos, até brinquedos, acessórios e roupas, tem de um tudo sendo vendido nas areias à beira-mar. A série documental baiana Hiper Praia propõe uma aproximação com os profissionais informais que fazem deste local o seu espaço de trabalho e fonte de renda.
“Esse é o comércio do maior mercado aberto do mundo, não existe mercado mais livre que a praia, principalmente na Bahia que tem o maior litoral do Brasil. Todos os dias esse mercado está aberto”, observa José Araripe Jr., idealizador, diretor e roteirista da série, em conversa com A TARDE. A série é exibida todas as segundas-feiras, às 20h, na programação da TVE Bahia.
Hiper Praia conta com cinco episódios, cada um filmado em uma praia diferente da capital baiana (Porto da Barra, Flamengo, São Tomé de Paripe, Boa Viagem e Imbassaí). A série já estreou na programação da TVE, na última segunda-feira. Hoje à noite ainda é possível ver o primeiro episódio (que são sempre reprisados às quartas e domingos, às 18h). Para quem preferir, é possível assistir virtualmente através do site oficial da TVE (tve.ba.gov.br).
Araripe conta que há muito tempo se interessa pelos vendedores ambulantes e sua dinâmica de trabalho informal. “Eu sempre fui um menino praieiro. Nasci em Ilhéus e, quando me mudei para Salvador, não perdi o hábito de ir à praia. Sempre observava a variedade incrível de vendedores que circulavam ali. E eu inventei uma brincadeira que era adivinhar qual seria o próximo vendedor a aparecer, e ninguém nunca acertava porque havia muitos vendedores diferentes”.
Essa brincadeira passou a ter ares mais sérios quando o diretor começou a fazer anotações sobre esses vendedores, uma espécie de catalogação de trabalhadores informais das praias, com o intuito de fazer um projeto futuro sobre isso. Hiper Praia ganhou forma a partir do edital Bahia na Tela, da própria TVE, em 2016, que possuía uma linha de financiamento sobre projetos voltados para o litoral baiano.
Seleção natural
Araripe pontua que o objetivo sempre foi o de valorizar esse tipo de trabalho informal. “Interessava-nos saber o que está por trás dessa rotina. Quem são essas pessoas? Muitas vezes, a gente fica muito impaciente com elas, mas o que faz uma pessoa ir para a praia vender? É só a necessidade e a falta de emprego ou é também um estilo de vida?”.
Ele conta que as duas respostas são válidas. Na rotina de filmagens (feita em pleno verão do final de 2019 para 2020) e também na pré-produção, em que a equipe visitou diversas praias e conheceu vários vendedores para eleger os mais interessantes, Araripe encontrou realidades distintas, bem como maneiras diferentes com que cada vendedor realiza seu trabalho.
“Acaba tendo uma espécie de seleção natural ali, porque ganha o que é mais criativo, o que tem o melhor produto (seja o que ele mesmo faz ou que revende), o que sabe chegar melhor, quem inventa uma prosódia, uma forma de abordar mais simpática ou sedutora, quem é mais inventivo com o produto”, detalha o diretor.
Já no primeiro episódio, por exemplo, encontramos Leandra Lea de Matos, que vende caldo de sururu, e Osni Sebastião dos Santos, que revende boias infantis. Ambos trabalham na praia de São Tomé de Paripe, e o episódio não apenas contextualiza o ambiente daquela praia, mas também acompanha o dia a dia dos vendedores, desde a preparação para o trabalho em casa e depois, a jornada na praia.
Outro destaque entre os episódios fica por conta de Luis Cláudio Cerqueira, mais conhecido como Cláudio Sucesso, que vende picolé na praia do Flamengo. Diferente dos demais, ele é também um compositor que criou uma espécie de personagem para vender seus picolés, pilotando um carrinho com caixa de som, tocando uma música que ele mesmo compôs para chamar a atenção de sua freguesia (é também muito conhecido nas redes sociais).
Observação direta
Araripe ressalta que filmar na praia não é uma tarefa fácil, ainda mais pela mobilidade natural do trabalho dos vendedores ambulantes. Nota também que ele e a equipe fizeram um esforço de parecerem sempre muito “invisíveis” naquele ambiente, buscando mesmo uma linguagem mais popular para falar de um espaço e de uma profissão também populares.
“Minha preocupação foi de trabalhar com o cinema direto, sem ter um discurso pronto por cima daquilo, deixando que as imagens, o ambiente e as falas dos próprios personagens contem a história. Também não queríamos cair na armadilha daquela manipulação, de certo ‘coitadismo’, sem aplicar uma visão paternalista ou sociológica sobre aquelas pessoas e seu modo de trabalho”, afirma o diretor.
Todos os episódios da série possuem uma estrutura similar. Além de contextualizar geograficamente cada praia e o trabalho dos vendedores, abre-se espaço para outros personagens – demais vendedores e os fregueses –, mas sempre tendo os dois trabalhadores principais como fio condutor.
E, no final de cada episódio, promove-se o encontro entre esses dois personagens que passam a desfrutar um pouco da praia em um momento “livre”. “Ali, nós invertemos os papéis e eles não são mais os vendedores e, sim, os consumidores. Eu provocava uma conversa entre os dois, para que falassem um pouco mais intimamente sobre a relação com a praia, não necessariamente com o trabalho”, complementa Araripe.
Hiper Praia faz parte de uma leva de projetos baianos contemplados pelo edital da TVE, em parceria com a Agência Nacional do Cinema (Ancine), através do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Muitos foram contemplados e alguns já estão finalizados, como a série documental Toda Menina Baiana, que aborda a formação da identidade feminina na juventude; e os filmes documentais Cosmovisões, sobre mulheres indígenas do sul da Bahia, e As Gravações de Turner na Bahia, sobre o trabalho do linguista afro-americano Lorenzo Turner que, nos anos 1940, realizou gravações dos cantos e celebrações nos terreiros de candomblé na Bahia. Logo, estes projetos ganharão as telas da TVE.