CARNAVAL
Folião pipoca volta a ter destaque no Carnaval de Salvador
O folião pipoca foi relegado durante muitos anos no Carnaval de Salvador, tanto pelo poder público quanto privado. Fora das cordas e dos camarotes, até hoje disputa espaço para fazer parte da maior festa popular do mundo. Nos últimos anos, no entanto, artistas, governo e prefeitura têm dirigido as atenções para ele. E, se ainda não dá para falar que o folião pipoca voltou a ser protagonista do Carnaval, é possível afirmar, pelo menos, que a cada ano ganha mais destaque.
Prova disso é que o investimento e, consequentemente, o número de artistas voltados para este público só aumentam. Este ano, por exemplo, a prefeitura contratou mais de 300 atrações sem cordas para os circuitos oficiais e 250 para os bairros. No ano passado, foram 197 sem cordas e 212 em palcos e bairros.
De acordo com a Empresa Salvador Turismo (Saltur), o investimento empregado pela prefeitura em atrações neste Carnaval foi de R$ 6 milhões, mais de R$ 2 milhões são destinados a entidades culturais e de matrizes africanas, afro, afoxé, reggae, hip-hop e samba. No ano passado, foram gastos R$ 4 milhões em atrações.
Democrático
Já o governo do estado levará às ruas 110 opções gratuitas, incluindo trios sem cordas e shows nos palcos, embora não tenha informado, até o fechamento desta edição, o valor investido na contratação das atrações. O governo da Bahia, por meio da Superintendência de Fomento ao Turismo (Bahiatursa), também está apoiando a realização da festa em mais de 20 cidades.
São esperados 2,5 milhões de pessoas no Carnaval deste ano. Não há informações, no entanto, do percentual de foliões pipoca.
Atrações
Entre os principais grupos e artistas destinados a este tipo de folião estão a “Pipoca do Moraes” no domingo, 26, no Circuito Dodô; o Pôr do Sol na Castro Alves, com o grupo BaianaSystem, na segunda-feira, 27.
A cantora Daniela Mercury desfila na sexta-feira (24), no Circuito Dodô, e terça-feira (28), no Circuito Osmar, também sem cordas. O encontro entre o cantor Gilberto Gil e o poeta e músico Capinam, em homenagem aos 50 anos da Tropicália, também é um dos pontos altos da festa. A apresentação acontece no dia 24, no largo do Pelourinho.
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Já o Carnaval nos bairros acontece em dez locais diferentes da cidade: Cajazeiras, Periperi, Itapuã, Liberdade, Boca do Rio, Plataforma, Centro Histórico e nas ilhas de Maré, Bom Jesus dos Passos e dos Frades. A programação completa está no site www.curtacarnaval.com.br.
Já era tempo de o Carnaval voltar a ser a festa do povo, e de o folião pipoca voltar a protagonizá-la
Retomada de espaço na festa de rua é festejada
Frequentador assíduo do Carnaval, o administrador Cid Menezes, 42 anos, comemora o que chama de ‘retomada do folião pipoca’. “Já era tempo de o Carnaval voltar a ser a festa do povo, e de o folião pipoca voltar a protagonizá-la. É lindo ver as pessoas nas ruas, livres de cordas. Só espero que não seja algo passageiro”, diz.
Jornalista e pesquisador, Nelson Cadena acredita que voltar a dar espaço para o folião pipoca é uma tendência: “Vejo como algo positivo essa coisa de o povo estar revivendo o espírito do Carnaval como festa de rua. É para essa mudança que a festa está caminhado”.
Cordas
A disputa em si não é novidade, o Carnaval sempre foi território de conflitos, faz parte da dinâmica da festa
Apesar disso, o pesquisador acredita que as cordas devem permanecer. “É possível aliar os blocos ao respeito e valorização do folião pipoca. As cordas são necessárias. A questão não é a corda – e nunca foi – e, sim, o espaço que ela ocupa. Elas sempre existiram no Carnaval da Bahia. Mesmo os afoxés tradicionais se valeram das cordas para preservar o próprio desfile”, pontua Cadena em um dos seus artigos sobre o tema.
Professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Paulo Miguez afirma que a disputa por espaço no Carnaval de Salvador sempre existiu: “A disputa em si não é novidade, o Carnaval sempre foi território de conflitos, faz parte da dinâmica da festa. O problema não são os blocos, mas a direção puramente mercantilista que eles passaram a ter”.
Miguez acredita estar havendo uma mudança importante. “Essa visão mercantilista está diminuindo bastante. Há blocos que não estão mais desfilando todos os dias, inclusive porque não há a demanda de antes. As coisas estão mudando, é um processo inevitável e necessário”, conclui.