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CARNAVAL NO PELOURINHO

“Mudança radical”, diz Clarindo sobre as transformações do Carnaval

O Carnaval no Centro Histórico de Salvador começou oficialmente nesta quinta-feira, 27

Por Luan Julião

27/02/2025 - 18:10 h
Mudança radical no Carnaval do Circuito Batatinha.
Na foto: Clarindo Silva, jornalista e figura cultural do Pelourinho.
Mudança radical no Carnaval do Circuito Batatinha. Na foto: Clarindo Silva, jornalista e figura cultural do Pelourinho. -

O Carnaval no Centro Histórico de Salvador começou oficialmente nesta quinta-feira (27), dando início ao tradicional Circuito Batatinha. Diferente dos grandes desfiles de trios elétricos nos circuitos Dodô (Barra-Ondina) e Osmar (Campo Grande), o Batatinha se consolidou como uma alternativa para quem busca uma folia mais tranquila, com bloquinhos e fanfarras que ocupam as ruas históricas do Pelourinho.

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Uma das figuras mais emblemáticas do Centro Histórico, o empresário Clarindo Silva, dono da Cantina da Lua e morador da região há quase 70 anos, falou sobre a importância do Circuito Batatinha para a cidade e as mudanças que o Carnaval da área sofreu ao longo dos anos.

“O Carnaval da família baiana”

Para Clarindo, o Carnaval no Pelourinho evoluiu para se tornar um espaço de celebração para aqueles que buscam uma experiência diferente da agitação dos trios elétricos:

“Pra mim é algo extraordinário. Primeiro, eu convivi com o Carnaval aqui desde a década de setenta. E nós não tínhamos, digamos, um circuito Batatinha como temos hoje. Era o carnaval do Pelourinho, do Centro Histórico, mas naquela época, nos dias de quinta e sexta-feira, as famílias estavam colocando cadeiras de lona pelas ruas daqui, pela Avenida Sete, etc. De alguns anos pra cá, passou a ter o Carnaval de verdade. Eu acho que é muito importante porque isso dá oportunidade às pessoas que não gostam de trio elétrico, não gostam da muvuca propriamente dita, de estarem aqui. Você observa, você conhece o avô, a mãe, os filhos, os netos, criança no ombro das pessoas. Isso tudo quer dizer que, eu acho, é o Carnaval de quem não gosta da muvuca, quem não gosta do trio elétrico, e eu diria que é o Carnaval da família baiana.”

Mudanças e padronização no Carnaval do Pelourinho

O empresário também relembrou as transformações pelas quais a festa passou, destacando a padronização das barracas como uma mudança significativa:

“Mudança radical. Uma mudança radical. Primeiro, a questão das barracas. As barracas antigamente, cada uma tinha seu tema. Barraca do Vitória, barraca do Bahia, barraca de Juvenal, várias barracas, barraca do Ipiranga. Hoje, as barracas são padronizadas, e cada barraca dessas tinha, digamos, um tema, né? Aqueles mesas, as cadeiras. Hoje é quase tudo padronizado. Isso, pra mim, limita um pouco a nossa criatividade, porque, se você tem um estabelecimento ou tem uma barraca, você coloca ela do seu jeito, é diferente. Você tem tudo padronizado. Além disso, o trio elétrico, a Praça Castro Alves, os circuitos Dodô e Osmar, e os outros circuitos, têm um público específico, como nós aqui temos um totalmente diferenciado.”

A tragédia na Igreja São Francisco e o alerta para o Centro Histórico

O Carnaval no Pelourinho acontece em meio a debates sobre a preservação do patrimônio histórico da cidade. No início de fevereiro, um acidente trágico acendeu o alerta para a necessidade de mais investimentos na conservação dos prédios históricos. A jovem Giulia Panchoni Righetto, de 26 anos, morreu após o desabamento do teto da Igreja São Francisco de Assis, um dos monumentos mais importantes do Centro Histórico.

Clarindo Silva comentou sobre a tragédia e ressaltou a necessidade de cuidados para evitar novos incidentes:

“Eu acho que minha expectativa é, de maneira nenhuma, admitir que haja trio elétrico ou carro grande, primeiro, porque tivemos esse péssimo exemplo do que aconteceu na Igreja São Francisco, e som alto, altos decibéis têm influência na estrutura, e isso nós precisamos mudar. Estamos atentos, por quê? Estamos num momento, num ano, em que estamos travando uma grande luta para que a UNESCO, o governo federal, o governo estadual, e a sociedade organizada busquem concluir as obras de Santo Antônio. As obras principais já começaram, estão na sétima etapa, e há mais de vinte anos. O que queremos, na verdade, nesse momento, é fazer desse acontecimento com a menina um grande ponto de partida para que haja uma união de todos. Porque no dia 3 de dezembro, estamos comemorando 40 anos do tombamento do Centro Histórico. Eu tenho colocado de maneira muito clara: esse acidente na igreja é um grito de alerta. Essa menina foi predestinada, pois na véspera, mais de duzentas pessoas estiveram na igreja e têm tido eventos, concertos, casamentos, batizados, coisas grandiosas ali dentro, e aconteceu exatamente no dia 5 de fevereiro, um dia depois da bênção, o que significa dizer que ela foi predestinada, veio dar um grito. O defensor precisa valorizar. Se a vida não tem preço, o preço da vida dessa menina é exatamente o resgate e revitalização do Centro Histórico, e nós lançamos essa campanha ‘Centro Histórico Preservar para Perpetuar’.”

O episódio afetou a percepção das pessoas sobre a segurança dos prédios históricos, como observou Clarindo:

“Influência, com certeza. Na terça-feira seguinte, eu estava na Igreja do Rosário dos Pretos, da qual sou membro da irmandade. Noventa por cento das pessoas que entraram na igreja estavam com a cabeça pra cima, olhando pro forro. Então, o que está no subconsciente das pessoas? É a Igreja do Ouro, que deixa a impressão de que é uma igreja rica. E acontece um fato desses… o que poderá acontecer com as outras?”

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