ALÉM DAS FANTASIAS E ALEGORIAS
"Salvador é território indígena", afirma Caboclo Cobre no Bloco Apache
O artista contestou o apagamento indígena na cidade e reforçou a tradição no Carnaval

Mais do que fantasia ou alegoria, a presença indígena no Carnaval de Salvador é, para o Caboclo Cobre, um ato político, histórico e espiritual. Construindo a temática do Bloco Apache na folia, ele traz consigo uma necessidade de ressignificar a forma como a sociedade enxerga os povos originários, e vê o Carnaval como um bom palco para isso.
"Eu sou um corpo indígena em retomada, assim como todo corpo indígena desse Nordeste, que foi tirado do seu próprio território, dado como extinto, mas resistimos dentro da mata", afirmou.
Natural da zona rural de Itajuípe, no sul da Bahia, ele conta que foi criado pelos avós indígenas. "Fui criado por avós indígenas de três etnias, três troncos: Tupinambá, Pataxó e Xukuru. Resido em Salvador, vim estudar, saí da zona rural de Itajuípe para Salvador para estudar e fazer arte", contou.
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Salvador é território indígena
Ao chegar à capital baiana, Caboclo Cobre se deparou com uma contradição. "Salvador é território indígena, mas tem poucas referências validadas e difundidas", contestou.
Segundo ele, essa invisibilização motivou sua atuação artística. "Estou há 18 anos nesse mercado de Salvador falando sobre cultura indígena", contou. Neste ano, ele apresentou uma proposta ao tradicional Bloco Apache para ampliar esse debate dentro da maior festa popular do país.
"A gente fez uma proposta para o Bloco Apache de entrar nesse processo de reavivamento e também de trabalhar esse reentendimento, essa recolocação do corpo indígena dentro da nossa urbanidade, do nosso cotidiano", explicou.
Lugar de fala
Para ele, o convite do bloco representa uma abertura simbólica importante. "O Apache abre as portas para que a comunidade indígena possa vir, ser vista, se posicionar, ter lugar de fala e que isso possa refletir na sociedade", disse.
No entanto, Caboclo Cobre reconhece que o próprio bloco ainda enfrenta desafios internos. "Assim como a sociedade, o Bloco Apache ainda tem suas questões. Mas com essa inserção é o processo que a gente quer estimular na sociedade", afirmou.
Uma das questões a serem revisitadas é a revisão de termos historicamente utilizados de forma equivocada. "É uma ressignificação das palavras. Tribo é aldeia. Índio é indígena. Para que a gente possa compreender o corpo indígena e as comunidades indígenas cada vez com mais respeito", detalhou.

Ancestralidade que pisa na avenida
Nos circuitos de Salvador, o artista reforça que a presença indígena no Carnaval não é folclore, mas sim memória viva, presente em todos os indígenas que curtem a folia nas ruas.
"A mensagem que o Apache traz para a avenida é poder enxergar para sentir perto e sentir na gente, não para enxergar com distância. Porque essa distância é um fator colonizador", afirmou.
"A comunidade indígena sempre esteve presente às margens dos rios que cortavam Salvador. O Apache é filho desse povo que morava na beira do rio, nas periferias que são negros, caboclos", relembrou.
Desde a década de 1960, afirma, o bloco traz essa necessidade de "respirar e ressignificar a presença indígena", e neste Carnaval, dez comunidades dos territórios da Bahia e Alagoas participam do desfile."É para que a gente possa pisar nesse chão e fazer Salvador tremer e se enxergar indígena", celebrou.
Ao final, Caboclo Cobre resume a mensagem que deseja levar para além da folia: "Salvador é território indígena. É Kirimurê. É território Tupinambá. A gente precisa acordar nossa ancestralidade indígena, que é dona desse chão".
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