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ORDEM DOS BLOCOS

Ex-diretor do Olodum chama Daniela de “traidora” e pede punição

Daniela Mercury conseguiu na Justiça o direito de sair primeiro no circuito, e a decisão foi revogada

Luan Julião e Marina Branco
Por Luan Julião e Marina Branco
Euzébio Cardoso, ex-diretor executivo de artes do Olodum
Euzébio Cardoso, ex-diretor executivo de artes do Olodum - Foto: Luan Julião I Ag. A TARDE

Já faz alguns dias que a movimentação do Bloco Crocodilo permeia as notícias de Carnaval. Depois de conseguir na Justiça o direito de ser a primeira a sair no circuito Barra-Ondina e ter essa decisão revogada, Daniela Mercury tem sido alvo de críticas inclusive de outros blocos - dentre eles, o Olodum.

Euzébio Cardoso, ex-diretor executivo de artes do bloco afro, classificou a atitude de Daniela Mercury como "traição" e defendeu que o Conselho Municipal do Carnaval (Comcar) avalie uma possível punição ao Bloco Crocodilo, ligado à artista.

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Segundo Euzébio, o impasse começou após uma ação judicial movida por Daniela e pelo Crocodilo, na véspera da festa, para alterar o horário histórico do Olodum no domingo de Carnaval.

"O Olodum sempre foi o primeiro trio que saiu no domingo. No dia 3 de fevereiro, Daniela foi convidada pelo Olodum para fazer a última terça-feira da bênção e ela entrou com ação, ela e o Crocodilo entraram com ação agora, basicamente na borda do Carnaval", afirmou.

"Uma traição"

Euzébio relembrou a relação histórica entre a cantora e o bloco, se incomodando com a disputa em curso. "O Olodum sempre teve uma relação muito próxima com Daniela. Eu fui o diretor executivo de arte do Olodum, fui a pessoa que abria as portas, que estive no lançamento do primeiro LP dela. Para nós, uma traição", desabafou.

Hoje advogado, ele também analisou o caso sob o ponto de vista jurídico. "Do ponto de vista jurídico, estava muito claro que não tinha embasamento no mandado de segurança. Essa é uma ação que pressupõe prova pré-constituída", disse.

Ele citou ainda a decisão do desembargador que negou o pedido. "Eu analisei os autos e notei que essa ação não passaria. O desembargador foi muito feliz na colocação dele", completou.

Tradição desde 1988

O ex-dirigente reforçou que o Olodum desfila na Barra desde 1988, quando inaugurou o circuito no formato atual, e portanto deveria manter o direito de ser o primeiro a sair nos dias clássicos.

"O Olodum foi o primeiro bloco a desfilar na Barra. Nós fazíamos o circuito contrário, saíamos de Ondina, descíamos, fazíamos o Carnaval da Barra e depois subíamos para a Avenida", relembrou.

Para ele, mesmo que houvesse eventual direito discutido, o instrumento jurídico escolhido não seria o adequado. "Se Daniela tem um direito desde 96, 20 anos depois o mandado de segurança não é a peça fundamental para buscar esse direito", opinou.

Impacto na festa

Entre as críticas, a principal foi em relação ao timing da ação judicial, às vésperas do Carnaval. "Tentar fazer isso já durante o Carnaval, com todas as vendas de abadás, com toda a ordem de desfiles organizada, fica ainda pior. Ia causar um transtorno gigantesco", contestou.

"Prejuízo ao Carnaval, aos foliões, a quem comprou, ao patrocinador, às televisões que fazem planejamento... existe toda uma organização. Se você mexe em um horário tradicional, você mexe em toda a cadeia. Muda trio, muda transmissão, muda patrocínio, muda contrato. É uma engrenagem", completou.

Pedido de punição ao Comcar

O ex-diretor também destacou que Daniela e o Crocodilo integram o Conselho do Carnaval, o que, segundo ele, agrava o episódio. "Você não está falando de uma pessoa que não é membro do conselho", disse.

"O Crocodilo e Daniela são membros do Conselho do Carnaval. Eu acredito que o conselho deve, de alguma forma, abrir uma possibilidade de punição, porque isso repercutiu mal para o Carnaval da Bahia", criticou.

"Daniela, sendo a 'rainha do Carnaval', atraiu seus súditos. Mas quem gosta do artista sai em qualquer bloco e não deixa de gostar. Para mim, foi uma traição e um desserviço ao Carnaval de Salvador. Em mais de 40 carnavais, nunca vi uma decisão sem precedentes como essa", finalizou Euzébio.

Ele também criticou a decisão em primeira instância que chegou a acolher o pedido antes da reversão. "Eu acho que o juiz de piso foi muito infeliz. Porque, como eu estou te dizendo, quando se trata de mandado de segurança, pressupõe que as provas sejam robustas. Só o fato de ela pleitear esse direito 26 anos depois já derroga o mandado de segurança", reclamou.

"Questão de respeito à história"

Para o ex-dirigente do Olodum, o episódio expôs uma tensão desnecessária em um momento considerado histórico para o Carnaval de Salvador. "Num momento tão bonito, de tanto investimento, de tanta organização, trazer uma ação dessa magnitude na boca do Carnaval é algo que repercute mal. Não é só uma disputa de horário. É uma questão de respeito à história", afirmou.

"Daniela construiu parte da carreira dela ao lado do Olodum. A gente sempre teve uma relação de parceria, de portas abertas. Por isso que, para mim, o sentimento é de traição", finalizou.

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Carnaval de Salvador Conselho do Carnaval daniela mercury Olodum Polêmica no Carnaval Tradição e inovação

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