CRÍTICA
A Odisseia é bom? Filme entrega épico mais ambicioso de Nolan
Em uma adaptação do clássico de Homero, diretor entrega um dos filmes mais ambiciosos da carreira


Poucos diretores contemporâneos construíram uma identidade cinematográfica tão reconhecível quanto Christopher Nolan. Desde Amnésia, passando por Batman: O Cavaleiro das Trevas, A Origem, Interestelar e, mais recentemente, Oppenheimer, o cineasta consolidou uma filmografia marcada por narrativas fragmentadas, protagonistas atormentados e uma busca constante por traduzir conceitos abstratos por meio de uma linguagem audiovisual de enorme escala.
Em A Odisseia, no entanto, essa trajetória parece atingir um ponto de maturidade raramente visto em sua carreira. Ao adaptar o poema épico atribuído a Homero, Nolan não apenas realiza sua produção mais ambiciosa em termos técnicos, como também encontra uma forma mais equilibrada de unir o gigantismo que sempre caracterizou seu cinema a uma dimensão dramática que, durante muitos anos, esteve entre suas maiores limitações.
A história acompanha Odisseu (Matt Damon) em seu retorno para Ítaca após o fim da Guerra da Tróia. Ao longo da viagem, o rei enfrenta criaturas mitológicas, divindades, tempestades e uma sucessão de desafios que transformam o caminho de volta para casa em uma longa travessia física e emocional.
Enquanto isso, Penélope (Anne Hathaway) resiste à pressão dos inúmeros pretendentes que disputam o trono de Ítaca, enquanto Telêmaco (Tom Holland), que praticamente cresceu sem a presença do pai, inicia sua própria jornada em busca de respostas sobre o paradeiro daquele homem cuja imagem conhece apenas pelas histórias contadas por terceiros.
Embora respeite a estrutura do poema clássico, Nolan utiliza esse material como ponto de partida para discutir temas que acompanham sua filmografia há décadas. Assim como em Oppenheimer, a guerra deixa de ser apenas um evento histórico e passa a funcionar como uma marca permanente na identidade de quem sobrevive a ela.
O retorno de Odisseu não representa simplesmente a conclusão de uma aventura, mas a tentativa de um homem de reencontrar um lar do qual emocionalmente talvez nunca mais faça parte. É justamente essa leitura que faz a adaptação se distanciar de um épico convencional de ação e aventura para assumir contornos de um drama sobre culpa, trauma e memória.
A grande força do roteiro está em compreender que o verdadeiro conflito não acontece apenas contra monstros, deuses ou tempestades, mas principalmente dentro do próprio protagonista. Cada obstáculo encontrado durante a viagem funciona como uma manifestação das consequências da Guerra de Tróia, fazendo com que o percurso de Odisseu seja um enfrentamento constante de suas próprias escolhas.
Nolan transforma um dos maiores mitos da literatura ocidental em um estudo sobre o peso psicológico da violência, sem jamais perder de vista o caráter aventuresco que tornou a obra original um dos textos fundadores da cultura ocidental.
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A fantasia finalmente deixa de ser um problema para Christopher Nolan
Se existe um aspecto em que A Odisseia representa uma evolução evidente dentro da filmografia de Christopher Nolan, é a maneira como o diretor lida com os elementos fantásticos da narrativa. Durante anos, seus filmes demonstraram certo receio em abraçar completamente o extraordinário. Mesmo quando trabalhava com sonhos, viagens temporais ou super-heróis, havia uma tendência de racionalizar aquilo que naturalmente pertencia ao campo da fantasia, como se fosse necessário justificar constantemente o impossível.
Em A Odisseia, essa preocupação praticamente desaparece. Nolan entende que o universo criado por Homero exige um compromisso absoluto com o imaginário e, em vez de suavizar seus aspectos mais fantásticos, decide incorporá-los à sua própria linguagem cinematográfica. O resultado é um filme que respeita a dimensão mitológica do texto original sem abrir mão da identidade autoral construída pelo cineasta ao longo de sua carreira.
O encontro com o Ciclope, as passagens envolvendo Circe, as sereias, as manifestações divinas e os momentos em que realidade, sonho e delírio parecem coexistir demonstram um diretor muito mais confortável em explorar o fantástico como experiência sensorial. Não há qualquer tentativa de transformar essas figuras em explicações científicas ou metáforas excessivamente racionalizadas. Pelo contrário, Nolan entende que a magia faz parte daquele universo e permite que ela exista diante da câmera com naturalidade, preservando tanto sua estranheza quanto seu fascínio.
Essa decisão beneficia diretamente a atmosfera do filme. Em vez de funcionar apenas como obstáculos para a progressão da narrativa, essas figuras ajudam a construir uma sensação constante de incerteza, como se Odisseu atravessasse um mundo onde realidade, memória e superstição se confundem a todo momento.
É justamente nesse equilíbrio entre o épico clássico e uma abordagem psicológica contemporânea que o longa encontra uma personalidade própria, evitando tanto a reverência excessiva ao material original quanto uma modernização artificial de seus elementos mais característicos.
Um espetáculo técnico que coloca Nolan em um novo patamar
Se a construção dramática representa um amadurecimento evidente em relação aos trabalhos anteriores de Christopher Nolan, o aspecto técnico confirma por que A Odisseia se consolida como um dos maiores espetáculos cinematográficos dos últimos anos. O diretor sempre demonstrou um domínio absoluto da linguagem audiovisual quando o assunto era transformar escala em experiência sensorial, mas aqui essa capacidade atinge um refinamento raro. Cada decisão de fotografia, montagem, desenho de som e composição visual contribui para reforçar o estado psicológico do protagonista e a sensação de que sua jornada é tão física quanto espiritual.
Filmado inteiramente com câmeras IMAX de 70 mm, o longa utiliza o formato não apenas como um recurso de exibição premium, mas como uma ferramenta narrativa. A imensidão do mar, os paredões rochosos, as cavernas e os palácios deixam de ser simples cenários para adquirir uma presença quase opressiva, reduzindo constantemente a figura humana diante da força da natureza e dos deuses.
Nolan entende que Odisseu é um herói, mas jamais permite que ele pareça maior do que o mundo que o cerca. Pelo contrário, a câmera frequentemente evidencia sua fragilidade diante de paisagens monumentais, criando uma sensação permanente de isolamento.
Grande parte desse impacto visual passa pelo trabalho de Hoyte van Hoytema, colaborador habitual do diretor desde Interestelar. Sua fotografia mantém a sobriedade que caracteriza a parceria entre os dois, mas encontra um equilíbrio muito mais interessante entre realismo e fantasia. A paleta de cores continua discreta e marcada por tons frios, característica que pode causar estranhamento em quem esperava uma representação mais vibrante da Grécia Antiga, mas a opção estética faz sentido dentro da leitura proposta por Nolan.
O filme é menos interessado em reconstruir um passado histórico do que em mergulhar o espectador na mente de um homem devastado pela guerra. As sombras constantes, a luz natural refletida sobre o mar e a iluminação produzida por tochas e velas ajudam a construir uma atmosfera melancólica que acompanha praticamente toda a narrativa.

Mais do que os grandes planos abertos, impressiona a forma como Nolan finalmente demonstra maior domínio sobre cenas intimistas. Durante muitos anos, uma das principais críticas direcionadas ao cineasta dizia respeito à dificuldade de transformar diálogos e interações humanas em momentos cinematograficamente expressivos. Em boa parte de sua filmografia, as conversas existiam apenas para transmitir informações ou movimentar a trama, enquanto a força de sua direção aparecia sobretudo nas sequências de ação e nos grandes conceitos visuais.
Em A Odisseia, essa percepção começa a mudar. Há um cuidado muito maior com enquadramentos, profundidade de campo, posicionamento dos atores e movimentos discretos de câmera que revelam emoções sem depender exclusivamente do texto.
Uma das melhores demonstrações dessa evolução acontece na conversa entre Penélope e Antínoo, interpretado por Robert Pattinson. A sequência transforma um simples diálogo em um exercício de encenação refinada, utilizando a distância entre os personagens, a composição do quadro e a movimentação quase imperceptível da câmera para ampliar a tensão emocional. É um momento que evidencia um Christopher Nolan mais interessado em observar pessoas do que apenas ideias.
A montagem de Jennifer Lame também desempenha um papel fundamental nesse amadurecimento. Desde que iniciou sua parceria com o diretor em Tenet, a montadora trouxe uma fluidez que por vezes fazia falta às construções narrativas de Nolan.
Em A Odisseia, a narrativa fragmentada jamais parece um quebra-cabeça criado apenas para desafiar o espectador. Os constantes retornos ao passado surgem como lembranças incompletas, relatos de diferentes personagens ou manifestações do trauma carregado por Odisseu, permitindo que cada revelação encontre seu momento dramático adequado. Mesmo com quase três horas de duração, o filme raramente perde ritmo, pois cada novo fragmento amplia a compreensão do protagonista sem interromper o fluxo da narrativa.
Outro aspecto impressionante é o desenho de som. Muito além da trilha composta por Ludwig Göransson, o trabalho sonoro constrói uma experiência extremamente imersiva. O rugido das criaturas mitológicas, o impacto das batalhas, o barulho das ondas contra as embarcações e o silêncio que antecede alguns dos momentos mais tensos demonstram um nível de detalhamento poucas vezes visto em uma superprodução contemporânea. Em diversas sequências, o som se torna tão importante quanto a imagem para transmitir o medo, o desconforto e a sensação de vulnerabilidade enfrentados pelos personagens.
Göransson alterna momentos grandiosos com passagens muito mais contidas, evitando transformar a experiência em um espetáculo puramente operístico. O resultado é uma composição que reforça tanto a dimensão épica da aventura quanto o caráter melancólico da jornada de Odisseu.
As sequências de batalha seguem a mesma lógica. Nolan abandona parte da estilização excessiva vista em produções anteriores e opta por confrontos mais diretos, violentos e objetivos. A ação não busca coreografias excessivamente elaboradas, mas sim transmitir brutalidade, urgência e desorientação. Quando o filme visita a Guerra de Tróia ou acompanha os confrontos enfrentados durante a viagem de Odisseu, a violência nunca parece glamourizada.
Esse equilíbrio entre gigantismo técnico e intenção dramática faz com que A Odisseia represente um momento singular dentro da carreira de Christopher Nolan. Pela primeira vez, a sensação é de que toda a impressionante engenharia cinematográfica construída pelo diretor ao longo dos últimos vinte anos finalmente encontra um propósito emocional igualmente forte.
Um elenco de peso sustenta o drama, mas nem todos brilham da mesma forma
Embora A Odisseia seja um filme em que a direção e o aparato técnico frequentemente assumam o protagonismo, o elenco tem papel decisivo para que a dimensão humana da história nunca seja engolida pelo espetáculo. Christopher Nolan sempre demonstrou habilidade para reunir grandes nomes em seus projetos, mas aqui encontra um grupo de atores que compreende exatamente o tom da obra e contribui para tornar o universo mitológico mais próximo do espectador.
Matt Damon é, sem dúvida, o coração do filme. Sua interpretação encontra um equilíbrio admirável entre o líder respeitado, o estrategista frio e o homem profundamente marcado pelas consequências da guerra.
O ator evita transformar Odisseu em um herói inalcançável ou em uma figura excessivamente trágica. Sua atuação transmite autoridade sem abrir mão da vulnerabilidade, fazendo com que cada decisão carregue o peso de alguém que entende que sobreviver não significa necessariamente vencer. Damon sustenta praticamente todas as camadas dramáticas da narrativa e demonstra, mais uma vez, por que continua sendo um dos atores mais consistentes de Hollywood.

Robert Pattinson também merece destaque ao construir um Antínoo que foge do antagonista convencional. Em vez de apostar apenas na ameaça física, o ator cria um personagem manipulador, calculista e permanentemente desconfortável, cuja presença provoca tensão mesmo nos momentos mais silenciosos.
Sua interpretação evita exageros e transforma o pretendente de Penélope em uma figura que cresce justamente pela maneira como utiliza a inteligência, a ironia e a intimidação psicológica para exercer poder. É uma atuação precisa e facilmente uma das melhores do elenco.

Mesmo aparecendo menos do que poderiam, Anne Hathaway e Charlize Theron conseguem transformar cada sequência em que surgem em alguns dos momentos mais memoráveis do filme. Hathaway confere enorme dignidade a Penélope, transmitindo a exaustão de uma mulher obrigada a sustentar sozinha um reino enquanto aguarda o retorno de um homem cuja sobrevivência sequer é uma certeza.
Charlize, por sua vez, imprime magnetismo e mistério à personagem, fazendo com que sua presença permaneça na memória muito depois de deixar a tela. São interpretações que demonstram a qualidade do elenco reunido por Nolan e que, justamente por isso, fazem o espectador desejar que ambas tivessem recebido ainda mais espaço dentro da narrativa.
Outro nome que merece reconhecimento é Samantha Morton, cuja breve participação se torna uma das mais inquietantes do longa. Sua composição transmite estranheza e imponência na medida certa, reforçando o aspecto sombrio da fantasia construída pelo filme. John Leguizamo também entrega um trabalho sólido ao oferecer humanidade e lealdade a um personagem que funciona como importante contraponto moral para Odisseu.

No entanto, o desempenho que mais destoa do restante do elenco é justamente o deTom Holland. Seu Telêmaco nunca consegue se desprender completamente do arquétipo que o ator consolidou nos últimos anos e acaba lembrando, em diversos momentos, uma espécie de Peter Parker transportado para a Grécia Antiga. Holland repete praticamente o mesmo registro do jovem inseguro, impulsivo e excessivamente dependente da aprovação de uma figura masculina para amadurecer, limitando a construção de um personagem que poderia carregar muito mais complexidade dramática.
O problema não está apenas na repetição de um tipo de papel que o ator parece confortável em interpretar, mas também na falta de variações ao longo da narrativa. Sua expressão permanece praticamente inalterada durante boa parte do filme, tornando difícil perceber transformações emocionais significativas conforme a história avança. Essa limitação fica ainda mais evidente quando divide cena com Matt Damon, Anne Hathaway e Robert Pattinson. Nesses momentos, a diferença de intensidade e refinamento interpretativo torna-se perceptível, criando um desequilíbrio que enfraquece algumas das relações centrais da trama.
Nolan ainda encontra dificuldades ao escrever suas personagens femininas
Apesar de representar um evidente amadurecimento artístico, A Odisseia também evidencia que alguns dos problemas recorrentes da filmografia de Christopher Nolan continuam presentes. O principal deles diz respeito à forma como o diretor escreve e desenvolve suas personagens femininas.
É verdade que Penélope recebe mais espaço dramático do que muitas protagonistas femininas de obras anteriores do cineasta e que algumas cenas demonstram um cuidado maior na construção de suas emoções. Ainda assim, o filme jamais consegue romper completamente com uma lógica já bastante conhecida em sua carreira. As mulheres continuam existindo prioritariamente em função da jornada emocional do protagonista masculino.
Penélope, Calipso, Circe e até mesmo Atena possuem momentos de enorme força dramática, impulsionados principalmente pela qualidade das atrizes que as interpretam. Contudo, suas histórias raramente ultrapassam o papel de impulsionar, desafiar ou complementar a trajetória de Odisseu. São personagens interessantes, mas que permanecem limitadas pelo roteiro, funcionando mais como extensões do conflito masculino do que como indivíduos plenamente desenvolvidos.

Essa sensação torna-se ainda mais evidente justamente porque Anne Hathaway, Charlize Theron e Samantha Morton demonstram talento suficiente para sustentar arcos muito mais ricos do que aqueles oferecidos pelo filme. Sempre que aparecem, elevam imediatamente o nível das sequências, reforçando a impressão de que Nolan continua cercando seus protagonistas de excelentes atrizes sem lhes conceder o mesmo grau de complexidade reservado aos homens.
Também existem pequenos excessos no texto, sobretudo em alguns momentos expositivos que ainda carregam o didatismo característico do diretor. Embora o tom teatral da adaptação torne esse recurso menos artificial do que em trabalhos anteriores, algumas falas ainda soam excessivamente preocupadas em explicar conceitos ou reforçar ideias que a própria encenação já comunica com eficiência.
Nenhuma dessas limitações, entretanto, compromete a força do conjunto. Elas apenas impedem que A Odisseia alcance um nível de excelência ainda maior.
Vale a pena assistir?
Christopher Nolan encontrou em A Odisseia uma obra capaz de reunir praticamente todas as marcas que definiram sua carreira. A culpa que atravessa Oppenheimer, a fragmentação narrativa de Amnésia, o fascínio pelo tempo de A Origem, a grandiosidade visual de Interestelar e o interesse por protagonistas consumidos por suas próprias escolhas convergem aqui de maneira muito mais equilibrada do que em qualquer outro momento de sua filmografia.
O resultado é um blockbuster que não trata o público como incapaz de acompanhar uma narrativa complexa, mas que também não sacrifica emoção em nome da engenharia narrativa. A aventura, a fantasia, a reflexão sobre guerra, memória e pertencimento convivem de forma surpreendentemente harmoniosa, sustentadas por um trabalho técnico praticamente irretocável.
Mesmo mantendo algumas limitações já conhecidas, especialmente na construção de suas personagens femininas e na escalação de um Tom Holland que nunca encontra o tom exigido pela narrativa, o saldo é amplamente positivo. Trata-se de um épico que respeita a grandiosidade do texto de Homero sem se tornar refém dele, encontrando uma identidade própria e demonstrando um cineasta muito mais maduro do que aquele que, durante anos, foi frequentemente acusado de privilegiar conceitos em detrimento de pessoas.
Tecnicamente, é um filme impressionante em todos os aspectos e um espetáculo pensado para ser vivido na maior tela possível. Narrativamente, entrega uma aventura envolvente que consegue transformar um dos textos mais antigos da literatura ocidental em uma experiência contemporânea sem perder sua essência.
Para quem aprecia grandes narrativas de época, produções épicas e o cinema autoral de Christopher Nolan, A Odisseia não apenas corresponde à enorme expectativa criada ao seu redor, como se consolida entre os trabalhos mais ambiciosos e bem realizados de sua carreira.


