
O universo do jogo do bicho está entrelaçado com o audiovisual brasileiro há bastante tempo. De ‘Amei um Bicheiro’ (1952) a ‘Enforcados’ (2024) e ‘Donos do Jogo’ (2025), essa relação sempre resultou em obras que investem em temas como vício em apostas, corrupção e violência. A mais recente é ‘Corrida dos Bichos’, nova aposta do Prime Video que estreia nesta sexta-feira, 7.
Dessa vez, no entanto, a abordagem é diferente. O filme se passa em um futuro distópico em que a cidade do Rio de Janeiro vive em ruínas e se tornou palco de uma disputa mortal inspirada no jogo do bicho, que evoluiu para uma competição entre corredores em que cada um representa um animal. Em busca de um prêmio milionário que pode mudar suas vidas, cada participante precisa oferecer um ente querido como garantia, e apenas os vencedores os recuperam.
Dentro desse cenário violento, Mano (Matheus Abreu), um jovem idealista que sempre lutou contra tudo o que a corrida voraz representa, precisa vencer para salvar a vida de sua irmã Dalva (Thainá Duarte).

Roteiro tem boas ideias, mas peca pela superficialidade
Corrida dos Bichos tem uma premissa interessante, com bastante potencial e que funciona como uma alegoria assustadora do presente, mas falha ao ficar, boa parte do tempo, na superficialidade dos temas que se propõe a abordar. O roteiro semeia discussões pertinentes a respeito da desigualdade social e de gênero, espetacularização da violência, entre outros, e coloca a corrida dentro desse contexto como uma possibilidade de ascensão.
O longa, porém, perde a oportunidade de fazer algo diferente e mais aprofundado do que produções anteriores de sucesso já fizeram, como ‘Jogos Vorazes’, por exemplo. A comparação acaba sendo inevitável, apesar de a ideia inicial de Corrida dos Bichos ter sido criada há mais de 20 anos.
Além disso, o texto de Ernesto Solis, Eva Klaver, Marco Abujamra e Rodrigo Lages esbarra em uma tentativa frustrada de criar uma força de oposição ao sistema opressor no qual os personagens estão inseridos. Ainda nesse núcleo, o roteiro se torna repetitivo ao tentar evocar um senso de perigo no momento em que os corredores passam por dentro do perímetro da resistência. Ademais, faz falta uma imersão mais detalhada nas ações e motivações daquele grupo.
Elenco: os destaques de Matheus Abreu, Thainá Duarte e Isis Valverde
Por outro lado, o arco de alguns personagens se destacam. Mano e Dalva, interpretados por Matheus e Thainá, respectivamente, recebem a devida atenção do roteiro, assim como Nadine (Isis Valverde) e Abu (Rodrigo Santoro). O primeiro cumpre bem o papel do protagonista com ideais bem definidos e que arrisca a própria vida para salvar aqueles que ama. Ele é o tradicional herói da história, com bom coração e com potencial de fisgar o espectador que buscar o mocinho para torcer.
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Duarte dá vida a uma mulher que entende a dinâmica cruel daquele universo e enxerga na corrida uma possibilidade de mudança para a família. A atriz já provou ser capaz de se destacar em cenas que exigem uma entrega dramática intensa em ‘Cangaço Novo’, e em Corrida dos Bichos não é diferente — mas com menos intensidade. A ambiciosa Nadine é uma das que têm a trajetória mais interessante. Ela consegue ascender naquele mundo, mas paga um preço alto por isso, sofrendo abusos e, no fim, ajudando a perpetuar o sistema que fez dela uma vítima.

Rodrigo Santoro rouba a cena como o vilão Abu
Um dos melhores trabalhos de atuação é entregue por Santoro como Abu, o gerente da competição. A experiência de assistir o fluminense atuando é marcante no filme porque ele se diverte dando vida a um vilão que consegue ser asqueroso e intrigante. Já Bruno Gagliasso com o seu Leon, um dos Jogadores que controlam os Bichos e tem ambição de fazer parte da Cúpula, o grupo da elite que toma as decisões sobre as competições, faz o mesmo, mas com menos carisma. Seu Jorge também integra o elenco estrelado e, apesar do pouco tempo de tela, o seu personagem injeta no longa um debate sobre vício e sua consequências cruéis.

Fernando Meirelles (‘Cidade de Deus’), Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento (‘Sobre Amanhã’) assumem a direção. Solis foi o responsável pelo conceito e tinha a visão geral, Pesavento comandou as sequências de ação e Meirelles dirigiu as cenas mais focadas no drama. Esse é um tipo de divisão que é mais comum em séries — onde cada episódio pode ser dirigido por uma pessoa diferente —, e mesmo em projetos para TV, é uma escolha que pode não contribuir para uma unidade narrativa coesa.
No novo filme do Prime, porém, o trabalho em trio dá certo. É perceptível que existe um fio condutor guiando as decisões da equipe, seja na ação — filmada de maneira que o público entende a geografia das cenas e fica impressionado com o trabalho impecável dos dublês — ou nos momentos mais intimistas e de interação entre os personagens. No entanto, a ambientação no Rio de Janeiro distópico poderia ser mais abordada pelos diretores, assim como as possibilidades de tornar a corrida ainda mais desafiadora para os participantes.

Vale a pena assistir?
Corrida dos Bichos une tudo aquilo que pode torná-lo uma boa pedida para quem procura um filme de ação diferente, com bastante brasilidade e discussões sobre um futuro que é, assustadoramente, parecido com o Brasil do presente. Contudo, a superficialidade e a semelhança direta com outras obras podem afastar o público que busca por algo mais inovador.



