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ESTREIA

Documentário 'Aqui Não Entra Luz' expõe marcas da escravidão no Brasil

Filme chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 7

Manoela Santos*
Por Manoela Santos*

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Documentário aborda a vivência de empregadas domésticas
Documentário aborda a vivência de empregadas domésticas - Foto: Divulgação

“A voz de minha mãe ecoou baixinho / revolta no fundo das cozinhas alheias, debaixo das trouxas / roupagens sujas dos brancos”. O trecho é de Vozes-mulheres, um dos poemas mais conhecidos da escritora mineira Conceição Evaristo. Ao longo do texto, as vozes que atravessam gerações ajudam a compreender como experiências de apagamento, violência e resistência não pertencem apenas ao passado, mas seguem estruturando o presente.

O texto conversa bastante com Aqui Não Entra Luz, novo filme da diretora Karol Maia, que busca evidenciar como as heranças de um Brasil escravista permanecem presentes em muitos lares, inclusive na própria arquitetura das casas. Um dos exemplos mais emblemáticos é o chamado “quartinho de empregada”, espaço historicamente destinado às trabalhadoras domésticas que residem no local de trabalho.

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O título do filme, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (07 de maio) pela Embaúba Filmes, segundo a diretora, é justamente uma referência ao espaço destinado aos trabalhadores dentro das “casas de família”: apertado, isolado e mal iluminado, geralmente localizado junto às cozinhas e lavanderias.

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Entre memórias pessoais e pesquisa histórica, Maia, filha de uma trabalhadora doméstica, percorre os quatro estados brasileiros que mais receberam mão de obra escravizada e revela como os espaços de moradia foram projetados para segregar corpos e sustentar hierarquias. No caminho, encontra mulheres que enfrentam esse legado e lutam para que suas filhas possam imaginar outros destinos.

Luz na escuridão

O “quarto de empregada”, herança escravista ainda presente na arquitetura de muitas casas brasileiras, foi o ponto de partida de uma pesquisa iniciada em 2017 pela cineasta Karol Maia.

O estudo deu origem ao documentário Aqui Não Entra Luz. “Eu concebi o filme em 2017 e comecei a pesquisar em 2018”, explica.

Durante esse processo, a diretora buscou trabalhadoras domésticas que dormiram ou ainda dormem nos chamados “quartinhos de empregada”, com o objetivo de reunir relatos em primeira pessoa. “Eu procurava não só a trabalhadora doméstica, mas aquelas que já moraram no trabalho. E os sindicatos foram grandes parceiros nas cidades onde fizemos a pesquisa”, afirma.

Imagem ilustrativa da imagem Documentário 'Aqui Não Entra Luz' expõe marcas da escravidão no Brasil
| Foto: Divulgação

A investigação percorreu os estados que mais receberam mão de obra escravizada no país: Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais e Maranhão. “Nas capitais, a gente buscava os sindicatos para tentar a aproximação com algumas profissionais. Algumas vieram por esse caminho, outras por indicação”, conta.

Segundo a cineasta, o vínculo com as participantes começou ainda na fase de pesquisa. “Eu já conversava com elas, me apresentava, explicava a intenção do filme. Meses depois, a gente voltava para começar a gravar”. Para Maia, esse método foi fundamental para construir a relação de confiança que atravessa o documentário.

Em diversas cenas, a diretora aparece compartilhando momentos do cotidiano com as personagens. “Essa aproximação aconteceu porque eu me colocava como cúmplice. Isso foi importante para que tivéssemos relatos verdadeiros e abertos”.

Imagem ilustrativa da imagem Documentário 'Aqui Não Entra Luz' expõe marcas da escravidão no Brasil
| Foto: Divulgação

A diretora também destaca como sua própria trajetória atravessa o processo. “Eu assumi que ali eu era diretora, mas também filha de uma trabalhadora doméstica. Compartilhava muito da minha experiência e criava um ambiente seguro. Eu sabia do que elas estavam falando, ainda que a partir de outro ponto de vista”.

Diversidade de vozes

Ao reunir relatos de diferentes estados brasileiros, o documentário constrói um mosaico que revela como o trabalho doméstico no Brasil está profundamente ligado a questões estruturais de raça, gênero e classe. Sem hierarquizar histórias, o filme aposta na escuta como forma de construir presença e memória.

De Minas Gerais, Rosarinha relembra os sonhos interrompidos da infância. Quando criança, queria ser professora. Já no Rio de Janeiro, Cristiane compartilha experiências duras, mas também o momento em que decidiu romper limites impostos: “Eu quero conhecer o mundo, quero saber como o mundo é”.

Imagem ilustrativa da imagem Documentário 'Aqui Não Entra Luz' expõe marcas da escravidão no Brasil
| Foto: Divulgação

Do Maranhão, Mãe Flor imprime leveza e força à narrativa. Entre histórias e canções, afirma: “Minha bisavó foi escrava, mas eu nunca fui”, antes de celebrar sua trajetória com bom humor ao cantar: “Eu já rodei o mundo inteiro e não encontrei uma cabocla mais sabida do que eu”.

Na Bahia, Marcelina confronta uma das expressões mais comuns, e problemáticas, na relação com trabalhadoras domésticas. “Não gosto dessa frase ‘como se fosse da família’. Não sou da família. Me sinto desrespeitada”. Sua fala desmonta uma lógica que mascara desigualdades profundas sob a aparência de proximidade.

As histórias de Rosarinha, Cristiane, Mãe Flor, Marcelina e também da mãe da diretora Karol Maia ganham ainda mais força ao serem colocadas em conjunto. São trajetórias que iluminam realidades frequentemente invisibilizadas e que estão no centro de Aqui Não Entra Luz.

“Eu acredito que todos os encontros que eu tive mudaram alguma percepção minha. Na história de cada uma dessas mulheres existe uma capacidade de agência, de autoproteção, de coragem e de estratégia para sobreviver nessa profissão que eu não conhecia”, afirma a diretora.

Imagem ilustrativa da imagem Documentário 'Aqui Não Entra Luz' expõe marcas da escravidão no Brasil
| Foto: Divulgação

“Confirmar que essas trabalhadoras não estão rendidas ao próprio trabalho foi muito poderoso. Existe, na população negra deste país, uma força de criar formas de viver com dignidade, coragem e beleza. Sem dúvida, foi uma das coisas mais bonitas que aprendi com todas elas”, completa.

Desafios

A cineasta Karol Maia tem construído, em sua trajetória, um olhar voltado para narrativas negras e periféricas. Embora Aqui Não Entra Luz seja seu primeiro longa-metragem autoral, ela já assinou a direção de projetos como Helipa – Um autorretrato (Paramount), Mães do Brasil 2 (TV Globo) e Cartas Marcadas (Warner Bros. Discovery).

Se hoje celebra a conquista de dois prêmios no Festival de Brasília de 2025, incluindo o de melhor direção, houve um período em que temeu não conseguir concluir o filme. Essa inquietação aparece na própria obra, quando a diretora se pergunta sobre como traduzir, em linguagem cinematográfica, a permanência das desigualdades: como dizer que o passado ainda estrutura o presente e, ao mesmo tempo, afirmar o cinema como um espaço historicamente restrito, mas também de disputa.

Imagem ilustrativa da imagem Documentário 'Aqui Não Entra Luz' expõe marcas da escravidão no Brasil
| Foto: Divulgação

Karol explica que essa angústia é, em parte, comum a todo artista, ligada ao processo de criação e à exposição da obra ao público. No entanto, destaca uma camada mais específica dessa experiência. “Existe também uma angústia de ter que ser perfeito, de ter que dar muito certo, que é muito comum aos artistas negros”, afirma.

Segundo a diretora, para mulheres negras no cinema, as margens de erro são ainda mais estreitas. A realização do filme, que levou anos para se concretizar, esteve atravessada não apenas por questões criativas, mas também por desafios financeiros e pela necessidade de conciliar a produção artística com as demandas da vida cotidiana. “É difícil dedicar a vida à criação quando há contas para pagar, quando existe a necessidade de descanso, quando a vida segue acontecendo”, pontua.

Ela também relaciona esse sentimento a uma percepção compartilhada entre profissionais negros do audiovisual. “Essa ideia de um cinema quase permitido, como se eu fosse quase da família, faz parte de uma experiência coletiva. É um fragmento do que é ser um artista negro no Brasil”, reflete. Para Maia, sua trajetória representa uma ruptura importante, mas não definitiva. “Consegui sair do ciclo do trabalho doméstico, mas ainda existem outros ciclos a serem rompidos quando ouso sonhar e querer fazer parte do cinema brasileiro”.

Reflexão e ação

Apesar das barreiras, a diretora conseguiu levar sua narrativa às telas e, assim como no poema Vozes-mulheres, de Conceição Evaristo, transforma em expressão aquilo que por muito tempo foi silenciado. Como escreve a autora, “a voz de minha filha recolhe em si a fala e o ato. O ontem – o hoje – o agora. Na voz de minha filha se fará ouvir a ressonância. O eco da vida-liberdade”.

Maia deseja que o público se permita ser impactado pela obra não apenas no campo emocional, mas também como um convite à reflexão e à ação. “Porque a gente traz um filme e histórias que são muito comuns no Brasil”.

Imagem ilustrativa da imagem Documentário 'Aqui Não Entra Luz' expõe marcas da escravidão no Brasil
| Foto: Divulgação

“É importante lembrar que os locais de trabalho das trabalhadoras domésticas são as casas das pessoas. Cada patrão, patroa ou contratante é responsável por essa dinâmica. Eu espero que as pessoas se permitam um momento de autoavaliação e pensem como podem agir”, conclui.

AQUI NÃO ENTRA LUZ / Direção e Roteiro: Karol Maia / Com Miriam Mendes, Karol Maia, Cristiane Graciano, Marcelina Martins, Maria do Rosário Rodrigues de Jesus, Matildes Santos Pereira / Estreia nos cinemas brasileiros na quinta-feira (07 de maio)

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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