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Fake news sobre ator em A Odisseia gera onda de ataques na internet

Rumor de que o Elliot Page, ator transgênero, interpretaria Aquiles ganhou força nas redes sociais

Beatriz Santos
Por
| Atualizada em
Elliot Page em A Odisseia
Elliot Page em A Odisseia - Foto: Reprodução | YouTube

Mesmo antes de chegar aos cinemas, A Odisseia, novo épico de Christopher Nolan inspirado no clássico poema de Homero, já havia se transformado em um dos filmes mais comentados de 2026.

No entanto, parte da repercussão pouco tinha relação com a história ou com a ambiciosa produção filmada inteiramente em câmeras IMAX 70 mm. O centro das discussões passou a ser um rumor que rapidamente ganhou força nas redes sociais: a falsa informação de que o ator Elliot Page interpretaria Aquiles, um dos guerreiros mais conhecidos da mitologia grega.

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A especulação surgiu após a divulgação dos primeiros materiais promocionais e de um breve trecho em que o personagem de Page aparecia ao lado de Odisseu, vivido por Matt Damon. Sem qualquer confirmação oficial por parte do estúdio, usuários passaram a afirmar que o ator daria vida ao lendário herói da Guerra de Troia.

A teoria se espalhou rapidamente, foi reproduzida por perfis de grande alcance e acabou sendo tratada como verdadeira por parte do público.

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A narrativa ganhou ainda mais força porque os papéis de diversos integrantes do elenco, como Robert Pattinson, Charlize Theron, Zendaya e o próprio Elliot Page, permaneciam em sigilo durante boa parte da campanha de divulgação do longa.

A repercussão, porém, tomou proporções muito maiores do que uma simples discussão entre fãs.

Filme desmonta a principal fake news sobre o elenco

Com a exibição do longa para a imprensa e o vazamento de alguns trechos do filme, a teoria foi completamente desmentida.

Ao contrário do que circulou durante meses na internet, Elliot Page não interpreta Aquiles. No filme de Christopher Nolan, o ator vive Sinon, personagem ligado ao episódio do Cavalo de Troia e responsável por desempenhar um papel decisivo na estratégia utilizada pelos gregos para conquistar a cidade inimiga.

Na tradição clássica, Sinon convence os troianos de que o enorme cavalo de madeira é uma oferenda dedicada à deusa Atena, fazendo com que ele seja levado para dentro das muralhas da cidade. A partir daí, soldados escondidos em seu interior iniciam o ataque que coloca fim à guerra.

Nolan, entretanto, promove alterações nessa passagem. Em sua adaptação, Sinon assume uma relação mais próxima com Odisseu e tem um destino diferente daquele apresentado nas versões mais conhecidas do mito, reforçando que o diretor optou por uma leitura própria da obra em vez de reproduzir integralmente o texto clássico.

A confirmação do personagem mostrou que toda a principal polêmica envolvendo Elliot Page havia sido construída sobre uma informação falsa. Mesmo assim, a correção recebeu muito menos atenção do que a informação falsa que havia viralizado anteriormente, fenômeno comum em campanhas de desinformação nas redes sociais.

Além disso, boa parte das críticas também demonstrou desconhecimento sobre o próprio material adaptado por Christopher Nolan. Aquiles sequer participa da maior parte dos acontecimentos narrados em A Odisseia, já que sua história pertence principalmente à Ilíada, outro poema atribuído a Homero.

Fake news que alimentou ataques transfóbicos

O rumor rapidamente ultrapassou o campo das especulações sobre elenco e passou a ser utilizado como combustível para ataques transfóbicos nas redes sociais.

Diversos comentaristas conservadores e influenciadores passaram a utilizar a falsa informação para afirmar que Hollywood estaria "reescrevendo" a mitologia grega ou promovendo uma suposta agenda ideológica por meio do elenco do filme.

Entre os casos de maior repercussão esteve o do apresentador norte-americano Rob Finnerty, da emissora Newsmax. Durante um programa ao vivo, ele afirmou que "o maior guerreiro da história" seria interpretado por "uma mulher trans", acumulando erros em sequência. Além de repetir uma informação falsa sobre o personagem, Finnerty ignorou que Elliot Page é um homem trans e tratou Aquiles como uma figura histórica, quando se trata de um personagem pertencente à mitologia grega.

A declaração repercutiu amplamente nas redes sociais e foi compartilhada por perfis alinhados ao discurso da guerra cultural, reforçando uma narrativa que nunca correspondeu ao conteúdo real do filme. Até mesmo Elon Musk comentou a polêmica nas redes sociais antes que qualquer confirmação oficial sobre o personagem fosse divulgada, alimentando ainda mais a repercussão.

Ataques nas redes sociais

A falsa informação sobre o suposto papel de Elliot Page rapidamente deixou de ser apenas uma teoria entre fãs para se transformar em uma das principais armas utilizadas por perfis conservadores e influenciadores contra a "cultura woke". Sem qualquer confirmação, milhares de publicações passaram a tratar como fato consumado que o ator interpretaria Aquiles, transformando a especulação em uma campanha de desinformação que antecedeu a estreia do filme.

No X, antigo Twitter, comentários com teor transfóbico se multiplicaram e passaram a ser compartilhados por perfis com grande alcance. Muitos sequer questionavam a veracidade da informação e utilizavam a suposta escalação como argumento para atacar tanto o ator quanto o próprio Christopher Nolan.

Entre as mensagens mais compartilhadas estavam publicações como "Elliot Page, um homem transexual, interpreta Aquiles", enquanto outro usuário escreveu: "Sério, Elliot Page vai interpretar Aquiles? Em 2004 Brad Pitt fez o papel... e agora Elliot Page?"

No Brasil, a desinformação também ganhou força. Um usuário ironizou a produção afirmando: "Nolan veio trazer realismo para A Odisseia. A primeira coisa é colocar Elliot Page de Aquiles kkkkkkk." Outro publicou: "Nada contra o Elliot Page, mas ele não tem NADA que lembre minimamente Aquiles. Se isso não for por pura lacração, eu não sei o que é."

Outras postagens chegaram a comparar o suposto elenco de A Odisseia com adaptações recentes que também foram alvo de ataques nas redes. "Pior é o Elliot Page fazer Aquiles. Vem aí outro sucesso igual ao filme da atriz careteira fazendo Branca de Neve", escreveu um usuário.

Em espanhol, a repercussão seguiu o mesmo caminho. Uma publicação perguntava: "Seja sincero... A Odisseia de Christopher Nolan terá Lupita Nyong'o como Helena de Troia e Elliot Page como Aquiles. De 1 a 10, quanto você quer assistir ao filme?" Outra afirmava que "Hollywood volta a colocar a agenda ideológica acima do rigor histórico e da fidelidade literária", acusando a produção de atender a supostas cotas de diversidade.

Ataques também tiveram componente racista contra Lupita Nyong'o

A desinformação envolvendo Elliot Page não foi a única controvérsia que marcou a divulgação de A Odisseia. Outra frente de ataques se concentrou na escalação da atriz vencedora do Oscar Lupita Nyong'o para interpretar Helena de Troia, personagem tradicionalmente retratada pelo cinema como uma mulher branca e loira.

A escolha de Christopher Nolan passou a ser alvo de críticas antes mesmo do lançamento do filme. Nas redes sociais, usuários afirmavam que a produção estaria promovendo uma releitura "ideológica" da mitologia grega, enquanto figuras públicas como Elon Musk e o comentarista conservador Matt Walsh questionaram a decisão do diretor, sugerindo que ela teria sido motivada apenas por políticas de diversidade.

O argumento, porém, ignora que Homero nunca descreve Helena de Troia como uma mulher branca e loira da forma como o imaginário popular passou a representá-la ao longo dos séculos. É importante ressaltar que essa imagem foi consolidada principalmente por adaptações posteriores e por representações produzidas pelo cinema e pela arte ocidental, não necessariamente pelo texto original.

A própria Lupita Nyong'o respondeu às críticas de forma direta durante uma entrevista. Sem entrar em discussões sobre os ataques, a atriz lembrou que "esta é uma história mitológica" e afirmou que o elenco representa a diversidade do mundo contemporâneo.

Veja o trailer de A Odisseia!

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