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Longa com baiana Luciana Souza é destaque no Olhar de Cinema
Premiado no Festival de Berlim, filme debate feminicídio em Curitiba


Destaque da mostra Competitiva Nacional na 15ª edição do Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba, que encerrou sábado, 13, na capital paranaense, o tenro Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha trata do trauma de uma reconciliação tardia entre Rosa e Dalva, filha e mãe, após anos de ausência forçada.
Também trata da frustração dessa reconciliação acontecer somente no campo mental de Rosa, e do desejo de que o passado pudesse ter sido diferente. Do desejo de que, desse passado, um presente menos traumatizante pudesse surgir. Infelizmente, a realidade amarga se sobrepõe ao sonho e esse desejo de uma filha que busca nesse relacionamento materno e imaginário um lugar de conforto se torna algo fugaz. Mas tal fugacidade deixa na vida de Rosa uma fagulha de reconstrução.
Ao precisar passar por uma ressonância magnética em um exame, Rosa (vivida por Verônica Cavalcanti) é orientada pela enfermeira a buscar relaxar durante o confinamento dentro do aparelho médico. “Pense em uma lembrança feliz. Tente visualizar pelo máximo de tempo possível”. O olhar confuso de Rosa diante daquele pedido e todas as dúvidas que a necessidade daquele exame disparam em sua mente a levam para um estado de reencontro mental.
Nele, uma viagem (ou fuga) em uma estrada do interior do Ceará junto à sua mãe, Dalva (vivida por Luciana Souza), liberta uma enxurrada de sentimentos. A reconciliação surge de modo violento, mas não deixa de ser bem-vinda naquele turbilhão que a mente de Rosa vive.
Onírico redentor

Janaína Marques, diretora do filme, constrói em imagens um modo de simbolizar o onírico a partir de locais reais. “Acho que o cinema é o território perfeito para a gente trabalhar o campo da imaginação, o campo do desejo, dos sonhos, dos medos, dores e traumas. Toda essa escolha de fazer um filme inserido do código mental é muito consciente nesse sentido. E quando você escolhe fazer um filme que tem como cerne uma jornada interior, subconsciente de uma personagem, você pensa: como eu vou, de alguma maneira, trabalhar imagem e som e unir a isso?”, explana a cineasta em entrevista ao jornal A TARDE.
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Assim, a estrada percorrida por mãe e filha naquele carro decorado como ponto de venda de cachorro-quente (em uma tirada cômica brilhante), juntamente aos diversos locais que ilustram aquele trajeto, vão construindo essa lembrança imaginária de Rosa.
Um ponto de fuga em busca de um conforto mental para alguém cuja trajetória a faz merecer um respiro. “O início de todo o inferno na vida de Rosa é o fato da mãe ter sido presa porque defendeu uma mulher numa situação de feminicídio. A partir dali, ela perde a mãe e segue só. E ela só reencontra essa mãe nesse plano da imaginação com tudo que ela cria depois nessa viagem para elas duas”, explica a atriz Verônica Cavalcanti.
Discussão necessária

Sim, a violência doméstica, o feminicídio, assuntos tão em evidência na necessária denúncia, foi o fator que, lá atrás, trouxe o momento de virada negativa na vida da ainda criança Rosa. Durante uma discussão de vizinhos, Dalva, sua mãe, resolve intervir antes que um marido violento mate sua esposa durante uma briga.
Acusada de homicídio, Dalva é presa e, assim, Rosa cresce sem a presença de sua progenitora e principal protetora. A discussão acerca de um tema urgente como o feminicídio se tornou central no filme. “Foi uma questão que me emocionou muito”, diz Verônica.
“Acho super importante ter isso no filme. Uma questão que necessita de um olhar e de leis. Que necessita tão absurdamente de uma consciência masculina sobre várias coisas a respeito da mulher. Acho lindo que o filme tenha todas essas mulheres. Um elenco feminino enorme. E cada mulher que aparece no filme, para mim, é uma potência no sentido de mostrar: ‘Olha a minha luta!’ É a caminhoneira, é a mulher que administra a pousada, a cantora da pousada. A própria companheira da mãe dela, também. Eu queria muito que o filme dialogasse com esse olhar de sensibilidade para a mulher, para o ser feminino”, exorta Verônica.
Para Luciana Souza, sua trajetória como atriz em trabalhos que tiveram como base aspectos de discussão social, a ajudaram a entender ainda mais esse ponto de construção do roteiro de Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha. “Sou uma atriz também de teatro. E sempre me envolvi, na maioria das minhas participações em teatro, em trabalhos voltados para questões que dizem respeito à cidadania, emancipação, à libertação, à compreensão de coisas que impede a gente avançar para uma melhoria coletiva, mas também pessoal e individual”, destaca Luciana.
“Fiz trabalhos na minha vida que seguiram uma militância e que passam por essas questões. Em 2008, fiz uma peça com Edvana Carvalho, Gal Sarkis e Waldélia Diaz, que se chama Quem é ela? E era um momento em que a sociedade não estava, ainda, discutindo tanto essas questões da violência contra a mulher, da violência doméstica, como hoje. E ali nós já trazíamos essas questões, em depoimentos de nossas próprias experiências”, pontua a atriz.
Reconstruir sem julgamento
Janaína Marques comenta, também, a importância desse aspecto no roteiro escrito por Taís Monteiro, Pedro Candido, Pablo Arellano e Xenia Rivery. “A questão do feminicídio está inserida no roteiro de um forma muito inteligente, no meu ponto de vista. Porque acho que fala muito da personagem de Dalva. E acho que ajuda muito a compreender esse processo de desconstrução da protagonista, a Rosa”, destaca a diretora.
“Primeiro, porque Dalva revela no filme que foi um acidente. Que ao tentar defender a vizinha, ela matou o vizinho. E nesse processo de defender a mulher, ela acabou presa. Então, ao ser presa, ela acabou não se livrando dos julgamentos, né? Dos julgamentos dos vizinhos, dos julgamentos do próprio marido, que faz com Rosa escute por toda vida que a mãe foi criminosa, que a mãe não prestava”, complementa Janaína.
Naquele momento em que, durante um exame médico que poderá fadar o seu futuro, Rosa acessa uma lembrança de sua mãe em um modo de buscá-la não como uma prisioneira, mas como alguém livre, contribui muito para essa reflexão que o longa traz.
Janaína Marques explica que a proposta do filme buscava essa outra maneira de enxergar Dalva. “É justamente a desconstrução dessa camada que o filme, de alguma maneira, aborda. A desconstrução que nós temos e de todo o julgamento que recebemos. Não só de nós mesmas, mas de outras pessoas. Então, acabamos por criar ideias de outras pessoas. E de nós mesmos, também. E em algum momento, precisamos nos libertar desses julgamentos, dessas ideias e temos que buscar a essência dessas pessoas. Porque, basicamente, o que Rosa acessa é que a mãe dela é muito mais do que qualquer julgamento. Ela é uma mulher cheia de desejos. É uma mulher com defeitos, também. Mas é uma mulher cheia de vida. E essa vida é o que a Rosa precisa”, finaliza a diretora.
*O jornalista viajou para Curitiba a convite do Olhar de Cinema


