Busca interna do iBahia
HOME > CINEINSITE

CINEINSITE

Medicina ou revolução? A incrível história real do psiquiatra que desafiou um império

Filme expõe a faceta ativista e revolucionária do pensador Frantz Fanon

Rafael Carvalho | Especial para A TARDE
Por Rafael Carvalho | Especial para A TARDE
Jornada do psiquiatra Frantz Fanon chega aos cinema
Jornada do psiquiatra Frantz Fanon chega aos cinema -

Quando o médico psiquiatra Frantz Fanon chega à Argélia, em 1953, indo trabalhar em um hospital para doentes mentais, encontra no local boa parte dos pacientes acorrentados e vivendo sob condições degradantes. O movimento antimanicomial torna-se uma de suas bandeiras, juntando-se a outras preocupações que o tornaram um célebre pensador anticolonial.

A trajetória do ativista e um dos mais influentes pensadores negros da humanidade está em parte contada na cinebiografia Fanon, longa-metragem ficcional, dirigido por Jean-Claude Barny. O filme estreou ano passado no Festival Varilux e já está em cartaz nos cinemas comerciais.

Tudo sobre Cineinsite em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

Nascido na Martinica – ilha localizada no Caribe, na América Central, e uma das colônias mais antigas da França –, em 1925, Fanon virá a se tornar um dos intelectuais negros mais combatentes do colonialismo. Aos 27 anos, escreveu uma de suas obras mais celebradas, Pele Negra, Máscaras Brancas. Nesse período, ele já vivia na França, onde estudou medicina e psiquiatria.

Apenas um ano depois, ele vai morar na Argélia, no norte da África, para trabalhar no Hospital Psiquiátrico de Blida-Joinville. O longa de Barny inicia-se justamente a partir desse ponto.

Ali, Fanon vai dar conta não apenas do trabalho na área médica, mas desenvolve um pensamento anticolonial que destaca a violência imperialista como fator de adoecimento mental do povo.

Vivido pelo ator Alexandre Bouyer, Fanon é um homem idealista, intelectual um tanto já maduro, mas em busca de ampliar ainda mais suas reflexões sobre identidade negra e combate ao colonialismo, especialmente francês.

Conhece, no ambiente de trabalho, o aprendiz Jacques Azoulay (Arthur Dupont), que vai se tornar um grande aliado, na medida em que ele também serve narrativamente para que Fanon lhe explique (e também ao espectador) o seu ponto de vista sobre as arbitrariedades e violências coloniais que aquele povo enfrenta.

Outra figura importante nesse contexto é sua esposa, Josie Fanon (Déborah François), mulher branca e francesa, com quem ele discute questões importantes sobre raça e gênero – apesar de nascida na França, tinha ascendência cigana e era uma militante de esquerda.

Leia Também:

STREAMING

Justiça decide sobre cobrança da Netflix por senha compartilhada
Justiça decide sobre cobrança da Netflix por senha compartilhada imagem

SE LIGA NA DICA

A série esquecida da Netflix que vai salvar sua sexta com 6 episódios
A série esquecida da Netflix que vai salvar sua sexta com 6 episódios imagem

ENTENDA

Vorcaro pagou filme de Lula? Cineasta reage a suposto patrocínio
Vorcaro pagou filme de Lula? Cineasta reage a suposto patrocínio imagem

Argélia em luta

Imagem ilustrativa da imagem Medicina ou revolução? A incrível história real do psiquiatra que desafiou um império
| Foto: Divulgação

Não demora muito para que Fanon se envolva diretamente nas lutas pela independência da Argélia, também uma colônia da França à época.

Aproxima-se da Frente de Libertação Nacional (FLN), principal movimento da independência argelina, através do líder revolucionário Ramdane (Salem Kali). Apesar de ativamente estar ligado ao movimento, Fanon não deixa de ser visto também como um estrangeiro na Argélia. Negro retinto, ele possui as suas diferenças culturais em relação aos árabes que vivem sob jugo colonial, apesar dele também vir de um país e de um contexto histórico de dominação por parte da mesma França.

O filme enfoca, portanto, não apenas a evolução de uma pensamento revolucionário através do estudo daquela sociedade, com seus cruzamentos de raça, religião e hierarquias políticas, mas cede lugar também aos próprios questionamentos internos do personagem. Cada vez mais, ele chega ao entendimento do seu próprio papel nas lutas coloniais e, sobretudo, pan-africanistas, a partir da sua percepção de mundo.

Não é que ele vá pegar em armas propriamente, mas usa seu lugar de influência no hospital para ajudar os revolucionários que chegam ali por outros motivos que não a saúde mental. “Você está confundido medicina com revolução”, alerta o diretor do hospital psiquiátrico (vivido pelo ótimo Olivier Gourmet), com quem Fanon também vai criar alguma rivalidade.

Vemos no filme essa dimensão militante de Fanon para além das páginas dos livros que escreveu e da figura de intelectual que observa as coisas de longe. O longa faz ver o quanto aquela experiência profissional serviu para moldar o seu próprio pensamento, cruzando a prática médica com as marcas da insurgência.

Combate intelectual

Imagem ilustrativa da imagem Medicina ou revolução? A incrível história real do psiquiatra que desafiou um império
| Foto: Divulgação

Todos esses elementos serão fundamentais para que Fanon escreva outra de suas obras clássicas: Os Condenados da Terra, lançado em 1961, já refugiado na Tunísia. Ali, Fanon amplia as discussões sobre os impactos da violência revolucionária e a importância de uma libertação não apenas política, mas também psicológica como forma de emancipação do homem.

O filme de Barny, apesar de escolher um recorte específico para dar conta do pensamento fanoniano, não deixa de seguir por um verniz mais clássico e comportado, sem dotar o seu próprio filme de um viés militante.

O diretor, por sua vez, nascido da ilha de Guadalupe – também considerada como um dos departamentos ultramarinos da França, assim como a Martinica –, conhece muito bem a realidade e as idiossincrasias da trajetória de Fanon. Ainda assim, responde a isso com um filme mais interessado em encontrar as brechas por onde se vislumbre as ideias do pensador, e menos uma obra que encampe a luta revolucionária encabeçada pelo intelectual martinicano.

Talvez isso se explique porque essa luta se dá de modo muito mais teórico do que prático. Ainda assim, o filme não deixa de ser uma contribuição fundamental – e com pretensões de alcançar um público mais amplo – para expandir o conhecimento sobre as ações e as concessões que Fanon teve de assumir ao longo da vida como um bom combatente em prol das grandes causas da humanidade.

Fanon (Idem) / Dir.: Jean-Claude Barny / Com Alexandre Bouyer, Salomé Partouche, Déborah François, Olivier Gourmet, Arthur Dupont, Stanislas Merhar, Jamel Madani, Mehdi Senoussi, Nicolas Buchoux / Salas e horários: cinema.atarde.com.br

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Compartilhar no Whatsapp Clique aqui

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no X Compartilhar no Email

Tags

Festival Varilux

Relacionadas

Mais lidas