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CINEMA NACIONAL

Mostra destaca filmes restaurados e estreias de diretoras brasileiras

Mostra reúne filmes restaurados e dedica programação às estreias de diretoras brasileiras

Rafael Carvalho | Especial para A TARDE
Por Rafael Carvalho | Especial para A TARDE
Clássico de Ana Carolina, Mar de Rosas é um dos destaques entre as estreias de pioneiras
Clássico de Ana Carolina, Mar de Rosas é um dos destaques entre as estreias de pioneiras - Foto: Divulgação

Com o tema “Um país existe nas imagens que preserva”, começou na noite de ontem a 21ª edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto, que segue até 30 de junho. A tradicional CineOP é um dos principais eventos da área dedicado à memória do cinema brasileiro, a partir de três eixos principais: História, Preservação e Educação.

“O tema geral alinhava os três eixos da Mostra, mas sempre vão abordar a necessidade de um cultivo da memória. Buscamos discutir investimento em estratégias concretas para se preservar a memória do cinema brasileiro”, afirmou Cléber Eduardo, curador do evento, em conversa com A TARDE.

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A homenageada desta edição é a cineasta carioca Helena Solberg, que teve dois de seus filmes exibidos na noite de abertura: A Entrevista (1966) e Meio-Dia (1969). São ambos curtas impactantes com que ela iniciou sua carreira nos anos 1960, sendo uma das mais importantes entre as diretoras mulheres no Brasil.

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Essa homenagem abre caminho para um outro viés histórico que será central na programação deste ano da CineOP: a exibição e o debate sobre longas-metragens de estreia de cineastas brasileiras.

“Desde muito cedo, me interessava por primeiros filmes, talvez imaginando que eram territórios de invenção, de erro. Até descobrir com o tempo que primeiros filmes também podem já nascer maduros”, pontuou o curador. “Como a nossa grade de programação é muito curta, achei que seria mais aprofundado se focássemos apenas nas mulheres”.

Dentre esses marcos, destacam-se filmes como Mar de Rosas (1977), de Ana Carolina; Que Bom Te Ver Viva (1989), de Lúcia Murat; O Ébrio (1946), de Gilda de Abreu; Amor Maldito (1984), de Adélia Sampaio; Um Céu de Estrelas (1996), de Tata Amaral; e Feminino Plural (1976), de Vera de Figueiredo.

Destaque importante é preciso dar a uma cineasta dos anos 2000, como a diretora baiana Viviane Ferreira, que lançou Um Dia com Jerusa (2020), e também para Luna Alkalay, cineasta ítalo-brasileira que filmou Cristais de Sangue (1975) na Chapada Diamantina, mas só teve seu filme reencontrado e restaurado há poucos anos.

“As estreias mais interessantes de mulheres tendem a ser mais fortes do que as estreias masculinas. É uma quantidade grande de primeiros filmes que têm uma força de impacto. O primeiro filme de um homem é o caminho para o segundo. E no primeiro filme de uma mulher, o mundo está sendo decidido ali”, notou Eduardo.

Aceno contemporâneo

A CineOP sempre teve uma espaço dedicado às obras atuais, mas que acabavam soando deslocadas em um evento ligado à memória e à preservação.

A saída encontrada foi criar uma mostra competitiva de longas-metragens contemporâneos com um recorte específico: filmes que trabalhassem com imagens de arquivo, uma recorrência muito grande no cinema brasileiro das últimas décadas, especialmente no campo do documentário.

“Mais do que o filme em si, nos interessa pensar o uso dos arquivos nesses filmes, o modo como eles entram na narrativa. Essa é a questão central que move tanto o processo de seleção como o trabalho do júri”, destacou Eduardo, pontuando que eles receberam 73 inscrições de filme com esse recorte específico.

“Não importa muito qual é a origem desses arquivos, se eles são pessoais ou de outros filmes. Importa que eles não foram gerados para integrar especificamente aquela obra, numa espécie de tráfico de imagens que tinham um outro destino, mas estão ali compondo aquele outro filme. Isso é o que na verdade define o arquivo para nós”, concluiu.

Cinco filmes compõem esta competição. Obras como Apopcalipse Segundo Baby, de Rafael Saar, que gira em torno da figura de Baby do Brasil, ela que fez parte da irreverente banda Novos Baianos; e Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas, que investiga a poética do moderno escritor francês, pelas mãos de um dos diretores mais incansáveis e prolíficos do cinema experimental brasileiro, Carlos Adriano.

Completam a seleção Irritante Prodígio, de Luiza Lindner, em que a diretora se desdobra em sua própria biografia e árduas memórias da juventude; Universo Circular – Jocy de Oliveira, sobre uma das pioneiras da música eletrônica no Brasil, dirigido por Dácio Pinheiro; e Notas Sobre um Desterro, de Gustavo Castro, que resgata filmagens do encontro com uma família brasileira-palestina na Cisjordânia em 2018.

Clássicos e atuais

Algumas obras clássicas, fora da temática dos primeiros filmes das cineastas pioneiras, também ganham destaque na CineOP. Um dos resgates mais importantes é do longa gaúcho Vento Norte (1951), de Salomão Scliar, considerado o primeiro filme sonoro feito no Rio Grande do Sul. A iniciativa da restauração recente é da Cinemateca Capitólio.

Outros clássicos serão exibidos em cópias restauradas, como Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues, que completa agora 50 anos; e Carmen Miranda: Banana is My Business (1995), de Helena Solberg.

A CineOP conta ainda com uma série de atividades formativas, masterclasses, oficinas, lançamentos de livros, encontros com cineastas, exposições.

E principalmente sedia os debates e encontros das instituições e pesquisadores de cada um dos três eixos para discutir os rumos da preservação, educação e da memória do cinema brasileiro.

Fora isso, há uma programação paralela que pode ser acessada virtualmente em todo o Brasil através do site oficial do evento. Filmes como Mar de Rosas, Feminino Plural, um apanhado de obras da homenageada Helena Solberg e curtas, como a produção baiana A Cachoeira, de Rayssa Coelho e Filipe Gama, ficam disponíveis de hoje até o dia 5 de julho.

O repórter viajou a Ouro Preto a convite da produção do evento.

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