CRÍTICA
Vale o ingresso? Supergirl tem falhas, mas acerta no essencial
Sem reinventar o gênero, longa encontra força em sua heroína e em uma jornada mais íntima


Depois de décadas orbitando a sombra do primo mais famoso, Kara Zor-El finalmente ganha um filme disposto a tratá-la como algo além de uma variação feminina do Superman.
Em Supergirl, a DC aposta menos em construir uma “Superman de saia” e mais em apresentar uma personagem marcada por trauma, desalinhamento emocional e um senso de deslocamento que a afasta da imagem solar, idealista e quase sempre inabalável associada ao herói de Metrópolis. É justamente aí que o longa encontra sua melhor versão: quando entende que sua protagonista não precisa repetir o modelo do primo para funcionar.
Dirigido por Craig Gillespie e baseado em Supergirl: Woman of Tomorrow, de Tom King e Bilquis Evely, o filme acompanha uma Kara mais dura, cínica e errante, lançada numa jornada interplanetária que mistura faroeste espacial, filme de vingança e drama sobre luto.
A trama se estrutura a partir do encontro entre a heroína e Ruthye, uma jovem consumida pelo desejo de encontrar o homem responsável pela destruição de sua família. No caminho, o longa costura temas como perda, deslocamento, raiva, amadurecimento e pertencimento, sempre com um pé no entretenimento de aventura e outro numa melancolia que tenta diferenciar a personagem do restante do universo DC.
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Uma Supergirl moldada pela perda
A decisão mais inteligente do filme é partir daquilo que sempre diferenciou Kara de Clark, mas que raramente ganhou peso dramático suficiente nas adaptações live-action: ela não chegou à Terra como um bebê. Kara viveu em Krypton, testemunhou a destruição do planeta e carregou a memória da perda até a vida adulta.
Enquanto Clark cresceu cercado por afeto, valores estáveis e a chance de construir sua identidade em segurança, Kara foi moldada pelo colapso, pela sobrevivência e por uma sensação persistente de não pertencer a lugar nenhum.
Essa diferença reorganiza completamente a personagem. Supergirl entende que Kara não funciona apenas como uma versão mais indisciplinada ou menos polida do Superman, mas como alguém profundamente marcada pelo trauma. Ela bebe para anestesiar o que viveu, se isola, reage com sarcasmo, toma decisões por impulso e transforma a própria raiva em mecanismo de sobrevivência.
Em vez do senso de dever quase inabalável que costuma marcar Clark, Kara aparece aqui como uma jovem adulta emocionalmente esgotada, moldada mais pela perda e pelo deslocamento do que por qualquer ideal heroico. É um caminho interessante porque desloca o filme de uma origem convencional de super-herói para algo mais íntimo, ainda que embalado por batalhas, perseguições e planetas exóticos.
Há uma tentativa de contar uma história sobre uma mulher que não sabe exatamente o que fazer com a própria dor — e que, por isso, resiste ao papel de heroína clássica. Em vários momentos, Supergirl parece menos interessado em construir um mito e mais empenhado em acompanhar uma personagem em crise. Nem sempre o roteiro sabe o que fazer com essa proposta, mas o simples fato de ela existir já dá ao filme uma identidade mais particular do que a de muitos blockbusters recentes do gênero.
Milly Alcock carrega o filme nas costas
Se Supergirl funciona, funciona sobretudo porque Milly Alcock entende perfeitamente o que há de quebrado, irritadiço e afetuoso em Kara. Sua interpretação encontra um equilíbrio difícil entre a rebeldia da personagem, a dor mal processada e um carisma que impede que ela se torne apenas uma anti-heroína amarga.
Alcock faz Kara parecer cansada do mundo sem transformá-la em alguém insuportável; faz dela uma figura impulsiva, às vezes egoísta, mas ainda profundamente humana.
A atriz tem presença, timing e uma naturalidade que ajuda o longa mesmo quando o roteiro não está à altura. Ela convence tanto nas passagens mais vulneráveis — em que o peso do passado e o sentimento de inadequação emergem com mais clareza — quanto nas cenas em que o filme aposta numa Supergirl mais insolente, divertida e fisicamente imponente. Há algo muito espontâneo em sua performance: uma sensação de que a personagem existe para além do uniforme e da obrigação de liderar uma franquia.

Também ajuda o fato de Milly Alcock não tentar transformar Kara em uma versão feminina do Superman. Sua Supergirl é mais desajustada, impulsiva e difícil de decifrar, como alguém que ainda tenta entender o próprio lugar no mundo. Isso a torna mais interessante de acompanhar.
O filme aposta nessa ideia de uma heroína imperfeita, marcada por perdas e contradições, e Alcock sustenta essa proposta com tanta segurança que, em vários momentos, parece estar entregando um filme melhor do que aquele que a cerca.
Uma aventura espacial que busca personalidade
Narrativamente, Supergirl se apoia numa estrutura bastante simples: uma jornada de vingança e perseguição através do espaço, com Kara e Ruthye cruzando planetas, criaturas e figuras excêntricas enquanto tentam alcançar Krem.
Nesse sentido, a simplicidade joga bastante a favor de Supergirl. Em vez de inflar a narrativa com subtramas paralelas, ameaças apocalípticas e uma sucessão de ganchos pensados para alimentar os próximos capítulos da DC, o filme opta por um eixo mais direto, centrado na relação entre Kara e Ruthye e na forma como ambas são atravessadas pela violência e pela perda. É uma escolha acertada, porque dá ao longa uma unidade que falta a boa parte dos blockbusters recentes do gênero.
Há algo genuinamente refrescante em ver um filme de super-herói que tenta contar uma história com começo, meio e fim, sem a obrigação de funcionar o tempo inteiro como vitrine de um universo compartilhado. Ao reduzir a escala da ameaça e concentrar o interesse dramático em suas personagens, Supergirl ganha mais foco, mais identidade e até mais espaço para deixar sua protagonista respirar.
Craig Gillespie claramente tenta dar a Supergirl um ar de faroeste sideral, com inspirações tiradas de Bravura Indômita, Mad Max e Guardiões da Galáxia. A proposta faz sentido e, em boa parte do tempo, funciona: transformar a travessia de Kara em uma jornada por desertos cósmicos, sucatas, tavernas intergalácticas e paisagens hostis é uma maneira eficiente de afastar a personagem do molde mais limpo, solar e urbano associado ao Superman.
Ao tirá-la da Terra e lançá-la numa aventura espacial de tons mais ásperos, o filme encontra um caminho próprio dentro da nova DC e expande esse universo para além do herói central. Essa mudança de escala e de cenário também ajuda a reforçar a identidade de Kara, permitindo que sua história exista em chave própria, sem depender o tempo todo da sombra do primo mais famoso.
Ainda assim, existe um certo descompasso entre a ambição visual do projeto e a forma como ela se concretiza em cena. Supergirl reúne um conjunto de estéticas bastante reconhecível, misturando referências que passam pelo colorido e pelo humor mais irreverente associado a James Gunn, além de um futurismo desértico e enferrujado que remete a Mad Max.
Em vários momentos, essa combinação funciona e ajuda a dar ao filme uma atmosfera própria dentro da nova fase da DC. Ao mesmo tempo, o longa nem sempre consegue transformar esse mosaico de influências em uma identidade estética totalmente singular, como se ainda estivesse tateando o equilíbrio entre homenagear essas referências e consolidar uma linguagem visual mais particular para Kara.
Isso fica mais evidente na encenação. Supergirl tem boas ideias de mundo, planetas com personalidade, criaturas interessantes e um universo que, no papel, parece mais vivo do que o de muitos blockbusters recentes do gênero. O problema é que parte dessa riqueza acaba diluída por uma fotografia opaca e por efeitos visuais bastante irregulares.
Em vez de levar para a tela o vigor cromático e a beleza plástica da HQ de Bilquis Evely, o filme prefere uma paleta terrosa, esfumaçada e por vezes coberta de lama, que enfraquece parte do impacto visual do material de origem. Há cenas em que tudo parece coberto por uma camada de poeira digital: cenários sem profundidade, fundos artificiais e um excesso de névoa ou luz lavada que denuncia o caráter de estúdio de algumas sequências.
O problema pesa ainda mais no terceiro ato, justamente quando o longa precisa convencer como grande espetáculo. É nesse trecho que Supergirl parece perder um pouco o controle da própria linguagem visual: o clímax traz imagens que soam apressadas, cenários digitais pouco convincentes e uma artificialidade que enfraquece o impacto dramático da reta final.
É uma pena, porque o início sugere um resultado melhor. Algumas cenas de voo funcionam muito bem, a presença física da heroína é explorada com força e há momentos em que a direção consegue vender a imponência da Supergirl. Faltou, porém, manter essa mesma consistência até o fim.
Ruthye, Krem e Lobo
A presença de Ruthye é central para que Supergirl não se reduza a um desfile de traumas individuais. Como contraponto a Kara, a personagem ajuda a materializar um tema importante do filme: o que fazer com a dor quando ela se transforma em desejo de vingança.
A jovem não surge apenas como sidekick ou instrumento de exposição; ela representa um espelho incômodo para a protagonista, uma menina consumida por uma fúria que Kara entende até bem demais.
A relação entre as duas está entre os melhores elementos do longa. Mesmo quando o roteiro simplifica alguns conflitos, existe ali uma dinâmica interessante entre uma heroína emocionalmente desregulada e uma garota que enxerga na violência um caminho possível de reparação.
É em Krem que Supergirl encontra uma de suas contradições mais evidentes. O personagem está longe de ser um grande vilão e o roteiro claramente não se interessa em transformá-lo numa figura complexa ou ambígua. Matthias Schoenaerts até empresta certa presença ao papel, mas Krem é construído sobretudo como uma ameaça direta, um antagonista funcional que existe menos pela sofisticação psicológica e mais pelo tipo de violência que representa dentro da história. Ainda assim, essa opção não deixa de fazer sentido.
Ao transformar Krem em um homem ligado ao tráfico sexual e a uma violência predatória dirigida especificamente a mulheres, Supergirl dá ao conflito um peso muito mais incômodo e concreto do que o de um vilão genérico de aventura espacial. É uma escolha dura, pouco sutil e até desconfortável, mas que funciona justamente porque reposiciona a ameaça em um terreno muito específico: o de uma violência masculina que recai sobre corpos femininos e atravessa a jornada de Kara e Ruthye de forma mais direta.
Em um filme centrado em uma heroína e atravessado por temas como luto, raiva, vulnerabilidade e proteção, transformar Krem em uma figura que personifica esse tipo de brutalidade amplia a gravidade do embate e dá outra dimensão à revolta que move as duas personagens. Nesse contexto, ele deixa de ser apenas mais um pirata espacial cruel para encarnar um tipo de violência que torna a história mais pesada, mais urgente e, no desfecho, emocionalmente mais satisfatória.
Lobo entra em Supergirl como um fator de desordem bem-vindo. Jason Momoa abraça o exagero do personagem e faz dele uma presença divertida, barulhenta e caótica na medida certa, alguém que injeta humor e energia no filme sem tirar Kara do centro. Como performance, funciona; como peça de universo compartilhado, também serve para apresentar um personagem com potencial de render bons desdobramentos no futuro.
Ao mesmo tempo, sua presença sugere uma certa insegurança do filme em se sustentar apenas sobre a própria protagonista. Em alguns momentos, Lobo parece menos uma necessidade orgânica da trama e mais um reforço calculado de testosterona, uma figura masculina marcante e fisicamente imponente inserida para ampliar o apelo comercial de uma narrativa conduzida por uma mulher.
Isso não chega a comprometer o longa, até porque o roteiro preserva Kara como eixo emocional da história, mas deixa no ar a sensação de que Supergirl ainda teme, em alguma medida, ser “apenas” o filme da Supergirl.
Supergirl merecia um filme melhor, mas ainda ganha um bom primeiro voo
Talvez a forma mais justa de resumir Supergirl seja dizer que ele está o tempo todo entre duas condições: a de um filme apenas bom e a de um filme que poderia ter sido muito melhor.
Há material, personagem e atriz para algo mais marcante do que o resultado final entrega. Craig Gillespie não transforma essa aventura espacial em um desastre, longe disso, mas tampouco encontra a grandeza visual, emocional ou dramática que faria o longa decolar de vez.
Ainda assim, seria injusto reduzir Supergirl às suas limitações. O filme é mais interessante do que boa parte das adaptações de super-herói feitas no piloto automático, seja pela força de sua protagonista, pela presença de uma atriz excelente no centro da narrativa ou pela escolha de construir uma jornada mais íntima do que o habitual dentro do gênero.

Há também mérito na forma como o longa coloca uma mulher em primeiro plano sem transformá-la em objeto de aprovação masculina. Kara é bagunçada, amarga, impulsiva, cansada, engraçada e profundamente carismática, e é justamente essa combinação que dá ao filme um rosto mais particular do que o de muitas produções lideradas por heróis homens que passaram por Hollywood sem enfrentar o mesmo nível de crítica.
E vale dizer isso com todas as letras: Supergirl é melhor do que muitos filmes de super-herói protagonizados por homens que receberam uma recepção bem mais benevolente do que provavelmente o longa da DC receberá. Existe um peso diferente quando a narrativa é feminina, e esse peso costuma aparecer tanto na cobrança por perfeição quanto na menor tolerância a falhas que blockbusters masculinos exibem há anos sem sofrer o mesmo nível de críticas.
Não é um fenômeno novo. Algo parecido aconteceu, em escalas diferentes, com Capitã Marvel, As Marvels e Aves de Rapina: filmes com problemas, como tantos outros do gênero, mas que acabaram submetidos a um escrutínio desproporcional, muitas vezes atravessado por uma resistência extra ao simples fato de colocarem mulheres no centro da ação.
Isso não transforma Supergirl em obra-prima por decreto, nem apaga suas limitações, mas ajuda a recolocar a discussão em termos mais honestos.
Vale a ida ao cinema?
Sem atingir o mesmo impacto emocional de Superman, Supergirl entrega uma experiência divertida e competente para a tela grande, especialmente para quem gosta de filmes de super-herói e quer ver a DC apostando em algo um pouco menos protocolar do que a simples repetição da jornada do salvador perfeito.
O longa não reinventa o gênero, não traz grandes novidades e está longe de ser impecável. Mas o carisma de Kara, a força de Milly Alcock e o olhar mais feminino sobre essa aventura já fazem diferença.
Em um universo cinematográfico historicamente dominado por homens, é bom ver uma heroína ocupar o centro da narrativa sem pedir licença, com contradições, desejo, raiva, humor e humanidade.
Essa perspectiva também altera a experiência do filme e o tipo de identificação que ele oferece, abrindo espaço para que meninas se reconheçam nessa tela não como coadjuvantes da história de alguém, mas como protagonistas de uma aventura cósmica atravessada por dor, coragem e busca por identidade.
No fim, Supergirl talvez não seja o grande filme que Kara merecia, mas é um primeiro voo suficientemente sólido para justificar uma possível sequência. Para fãs de super-heróis, Supergirl é uma ótima pedida. E, para quem esperava apenas uma versão feminina de Superman, o filme acerta justamente por seguir outro caminho, construindo Kara a partir de suas próprias dores, contradições e personalidade.


