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Novo filme 'O Riso e a Faca' chega aos cinemas com crítica social

Longa é dirigido pelo cineasta português Pedro Pinho

Rafael Carvalho  - Especial para A Tarde
Por Rafael Carvalho - Especial para A Tarde

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o longa O Riso e a Faca
o longa O Riso e a Faca - Foto: Divulgação

As veias abertas do colonialismo português estão espalhadas pelos países que sofreram com seu domínio, como acontece em toda trama imperialista. Na atualidade, essas cicatrizes podem aparecer escancaradamente, mas também podem ser reveladas apenas nas entrelinhas do cotidiano. E é isso que faz, de certa forma, o longa O Riso e a Faca, dirigido pelo cineasta português Pedro Pinho.

Na trama, acompanhamos Sérgio (Sérgio Coragem), um engenheiro português que chega à Guiné-Bissau, país da África Ocidental, para investigar e relatar sobre possíveis irregularidades e impactos ambientais causados pela construção de uma estrada. Ali, ele acaba se envolvendo com Diára (Cleo Diára) e com Gui (o ator brasileiro Jonathan Guilherme).

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O filme estreou na seção Um Certo Olhar, a mostra paralela mais importante do Festival de Cannes, e saiu de lá com o prêmio de melhor interpretação feminina para Cleo Diára. Junto com Gui, eles formam uma dupla que estabelece relações complexas com esse português forasteiro.

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O Jornal A TARDE conversou com os dois atores para falarem sobre o processo de construção de seus personagens. “O Pedro Pinho nunca nos deu o roteiro do filme porque ele não queria que nós ficássemos agarrados ao texto. Ele queria ter a possibilidade de reescrever o roteiro conosco”, pontuou Diára.

“Eu consegui decorar as cenas onde eu entrava. Então, fui construindo essa mulher. E dentro desse trabalho havia uma preocupação de que ela não fosse uma mulher negra estereotipada”, complementou a atriz.

Jonathan, por sua vez, conta que esse é seu primeiro papel para o cinema. Ele já morava na Espanha à época e foi escolhido para fazer o teste pelo próprio diretor. “Eu nunca tinha ido sequer a Portugal. E eu lembro que quando eu peguei o carro ali no aeroporto, a primeira pessoa que entrou depois foi a Cléo. 15 dias depois a gente já estava em Guiné-Bissau”, confessou o ator.

Imagem ilustrativa da imagem Novo filme 'O Riso e a Faca' chega aos cinemas com crítica social
| Foto: Divulgação

Os dois destacaram esse processo muito livre de construção, em alguma medida aberto aos improvisos, apesar de ter de seguir um roteiro prévio. “O Pedro sempre nos colocou nesse espaço de se sentir suficiente em cena e através disso ele ia criando junto comigo o Gui”, pontuou.

Fluidez do cotidiano

A cadência narrativa de O Riso e a Faca assemelha-se muito a um documentário de observação, embora estejamos vendo uma trama de ficção ali, apesar das coisas se imbricarem um pouco. Isso inclui a construção desses personagens que carregam parte dos nomes de seus intérpretes.

“O Pedro deu essa abertura pra gente escolher o nome dos personagens. E o meu nome Guilherme vem do meu avô, então eu quis homenageá-lo”, explicou Jonathan.

Imagem ilustrativa da imagem Novo filme 'O Riso e a Faca' chega aos cinemas com crítica social
| Foto: Divulgação

“Eu carrego uma história brasileira de ancestralidade, em diálogo com a África. Mas quando eu chego lá, as pessoas me chamam de branco. E eu me questiono: ‘Quem sou eu? Cadê o Gui nessa história toda?’. Eu encontro ele no processo de fazer o filme, crio essa pessoa que no final sou eu”, arrematou.

Gui é um personagem de fato brasileiro, enquanto Diára tem origens guineenses e cabo-verdianas. Representam, portanto, entrecruzamentos que se chocam com esse português que tem um lugar de privilégio social, mas se encontra meio perdido naquele ambiente inóspito.

Sergio quer se enturmar, mas também possui responsabilidades profissionais que lhe exigem certo distanciamento. Seu próprio envolvimento afetivo e sexual com Diára e Gui se dá de modo muito fluido, sem demarcações rígidas, cobranças, mas também sem travas.

Com isso, o filme consegue lidar com questões complexas como a imigração, o racismo, as hierarquias de poder, todas essas questões que surgem do passado colonial e das relações de dominação histórica de Portugal em relação ao norte da África e ao Brasil.

Imagem ilustrativa da imagem Novo filme 'O Riso e a Faca' chega aos cinemas com crítica social
| Foto: Divulgação

Para tanto, o cineasta costura uma espécie de épico do cotidiano, a partir dos encontros e desencontros desses três indivíduos que parecem coexistir em um mesmo espaço pelo simples acaso.

O filme possui 3h30 de duração, e isso impõe uma postura de maior contemplação, mas nunca soa cansativa pela pulsão dos personagens em tela – de Diára e de Gui, especialmente. É nessa distensão do tempo que as nuances sociais e políticas se revelam pelas brechas da trama.

Contradições

“Quero ser o riso e o dente / Quero ser o dente e a faca / Quero ser a faca e o corte Em um só beijo vermelho / Fiz meu berço na viração / Eu só descanso na tempestade / Só adormeço no furacão”.

Esses são versos da canção O Riso e a Faca, música de Tom Zé gravada no álbum Tom Zé (1970) e depois relida no icônico álbum Todos os Olhos (1973). É daí que o diretor português tirou o título do filme. Em certo momento, os três personagens cantarolam essa música, que possui uma cadência bem melódica, até mesmo lenta, a despeito da letra que versa sobre contradições e evoca imagens convulsivas (a tempestade, o furacão).

Esta é uma forma de traduzir muito bem o próprio filme de Pinho. Há muitos tormentos e virações perceptíveis ali nas entrelinhas, mas o filme lida com eles de modo aparentemente sereno, sem apelar para discursos didáticos ou mesmo acusatórios sobre as cicatrizes do colonialismo.

Imagem ilustrativa da imagem Novo filme 'O Riso e a Faca' chega aos cinemas com crítica social
| Foto: Divulgação

Isso está inclusive na postura dos personagens e na consciência de que nenhum deles vai resolver os problemas do outro. Diára, inclusive, defende que tanto a sua personagem quanto o Gui não são contrapontos a Sérgio, eles não estão a serviço do homem branco.

“O Gui e a Diária existem livremente sem o Sérgio. São, na sua essência, duas pessoas livres que não têm medo da sua existência, da sua verdade e não querem agradar. Porque já viveram muito, já viram muita gente chegar a Guiné-Bissau com sonhos e já viram muita gente ir embora. Então, não se deixam deslumbrar”, arrematou a atriz.

Imagem ilustrativa da imagem Novo filme 'O Riso e a Faca' chega aos cinemas com crítica social
| Foto: Divulgação

‘O Riso e a Faca’ / Dir.: Pedro Pinho / Com Sérgio Coragem, Cleo Diára, Jonathan Guilherme, Renato Sztutman, Jorge Biague, Nástio Mosquito, Bruno Zhu, Kody McCree, Everton Dalman/ Salas e horários: cinema.atarde.com.br

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