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COMÉDIA ROMÂNTICA

Novo filme Traga Seu Amor mistura magia e romance em tom brasileiro

Com protagonismo sáfico, fantasia cotidiana e humor leve, filme aposta na comédia para falar de amor

Beatriz Santos
Por
Cena de Trago Seu Amor
Cena de Trago Seu Amor - Foto: Divulgação

Em cartaz nos cinemas, Traga Seu Amor transforma feitiçaria em linguagem afetiva para contar uma história de amor atravessada por desejo, medo, liberdade e descoberta.

Dirigido por Cláudia Castro, o longa acompanha Mia (Giovanna Grigio), uma bruxa que usa um feitiço incomum para ajudar clientes a reconquistar antigas paixões: basta um beijo para tentar fazer com que a última pessoa amada se apaixone de volta.

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Se algo sai do controle, no entanto, o efeito colateral é outro, o cliente se apaixona pela própria bruxa.

Ao lado do melhor amigo Ariel (Diego Martins), Mia transforma o dom em um negócio esotérico bem-sucedido, cercado de admiradores, clientes frustrados e situações cômicas.

O impasse ganha outra dimensão quando ela tenta ajudar Yuri (João Manoel) e acaba se envolvendo com Renê (Jê Soares), outra bruxa, embaralhando o feitiço, os sentimentos e a própria lógica com que sempre conduziu a vida.

Entre uma premissa fantástica e um enredo ancorado nas hesitações do afeto, o filme faz da magia menos um espetáculo visual e mais uma metáfora para os riscos de amar.

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Feitiçaria a serviço do romance

A proposta do longa parte de um ponto de vista que inverte a lógica de muitas produções do gênero. Em vez de usar o romance como subtrama de uma fantasia, Traga Seu Amor coloca o amor no centro e deixa a magia circular ao redor da vida comum.

“Existem muitas formas de falar sobre amor, inclusive de um jeito romântico e fantasioso. Em muitos filmes, a fantasia aparece como pano de fundo para uma história de romance. No nosso caso, é quase o contrário: é uma história de amor em que a fantasia passa ao redor de uma vida comum”, resume a diretora Cláudia Castro ao Cineinsite A TARDE.

Para a cineasta, a proposta nunca foi fazer um filme de fantasia no sentido tradicional. “Na verdade, esses personagens são bruxos como eu, você ou o João. Não é exatamente um filme de fantasia. É um filme de amor, com pitadas de feitiçaria”, afirma. A diferença, segundo ela, está também na própria protagonista.

“O que torna essa história diferente também é a trajetória da protagonista. Ela não espera amar, não acredita muito no amor e nem deseja viver isso, o que foge um pouco do que normalmente se espera de alguém nessa faixa etária”, completa.

A mesma percepção aparece na fala de Giovanna Grigio, intérprete de Mia. Para a atriz, a ambientação do filme opera em uma chave de realismo afetivo atravessado por fantasia.

“A nossa realidade no filme é um pouquinho distorcida, mas para melhor. É um mundo em que a magia acontece, em que tudo é possível e em que as pessoas podem ser quem são com naturalidade”, diz. “Essa magia funciona muito como metáfora. Os feitiços falam das trocas humanas, dos sentimentos e das coisas que acontecem com a gente. Quando você olha com mais atenção, percebe que essa realidade mágica também é bastante possível.”

É justamente nessa combinação que o filme encontra sua identidade. Traga Seu Amor não está interessado em explicar minuciosamente as regras de seu universo sobrenatural, mas em usar esse dispositivo como motor para dilemas íntimos.

O encantamento, aqui, serve menos para expandir o mundo e mais para expor vulnerabilidades. A fantasia se converte em ferramenta para falar de insegurança, recusa, desejo e medo de entrega, e nesse terreno que o longa se sustenta com mais força.

Um universo pop, brasileiro e reconhecível

Mesmo partindo de um imaginário mágico, o filme aposta em referências visuais e comportamentais bastante próximas do cotidiano. Jê Soares destacou ao Cineinsite A TARDE que esse é um dos aspectos que tornam o longa singular.

“'Trago Seu Amor' ocupa um lugar muito especial, primeiro por todo o universo em que a história se passa e pela trajetória da Mia ao longo do filme. Todos os personagens têm histórias muito interessantes, com começo, meio e fim, e é bonito ver como essas trajetórias se cruzam”, afirma.

A atriz também chama atenção para a maneira como a ambientação se ancora em uma estética local. “Esse universo é muito atual e muito brasileiro. Isso aparece até na estética do filme, nos cartazes que vemos no trabalho da Mia, como cartazes de cartomante e de tarô. É uma linguagem muito nossa, muito presente, e isso me chama muito a atenção dentro da trama.”

João Manoel, que interpreta Yuri, associa essa atmosfera à construção coletiva do set e ao tom leve que atravessa o longa.

“Nosso filme se diferencia porque tem um astral maravilhoso. A Claudinha trabalhou muito com a gente nessa construção, e tudo era muito divertido, com muita música. Isso ajudou a criar um universo muito interessante, muito gostoso e muito vivo”, conta. “Também existe uma forma muito inteligente de falar sobre amor e magia. A gente buscou contar essa história para os jovens, que são atentos, questionadores, têm acesso à informação e estão muito conectados com o mundo.”

Essa energia mais solar ajuda a sustentar uma narrativa que se aproxima da comédia romântica pop, mas com um repertório visual e afetivo mais brasileiro do que o padrão frequentemente importado pelo gênero.

O longa flerta com o improviso em alguns momentos, sobretudo no humor gerado pelos pretendentes apaixonados por Mia, e nem sempre encontra o mesmo fôlego cômico do romance. Ainda assim, quando aposta menos no excesso de graça e mais no jogo emocional entre os personagens, a história cresce e flui da melhor forma.

Um romance sáfico sem transformar o afeto em obstáculo

No mês do orgulho LGBTQIA+, Traga Seu Amor também se destaca por colocar uma história entre duas mulheres no centro de uma comédia romântica sem transformar a sexualidade em entrave dramático.

Em vez de estruturar a narrativa a partir da rejeição, do trauma ou da interdição, o filme escolhe falar de afeto, desencontro e desejo dentro das convenções do gênero.

Jê Soares avalia que esse cuidado pode ampliar a identificação do público. “As pessoas se conectam com algumas identidades dentro do filme, e se ver na tela do cinema é muito importante. Não é uma obra construída em cima de uma pauta específica. São histórias de amor, seja num relacionamento entre duas mulheres ou entre um homem e uma mulher também”, diz.

“O mais bonito, para mim, é a forma carinhosa e cuidadosa com que isso foi conduzido. Acho que isso pode fazer muita gente olhar e pensar: ‘sou eu ali’”, completou.

A atriz reforça ainda a importância do desfecho oferecido à relação central. “'Trago Seu Amor' teve um cuidado muito especial ao abordar essas relações sem transformar tudo necessariamente em pauta. No fim, são duas mulheres que têm um final feliz, e isso ainda faz falta. A gente precisa ver mais finais felizes em filmes, séries e obras LGBT.”

Giovanna Grigio segue na mesma linha ao lembrar que a comédia romântica sempre foi um espaço de elaboração do amor, mas nem sempre acolheu diferentes experiências afetivas com a mesma naturalidade.

“Histórias de amor são contadas há muitos anos, desde o teatro e depois no cinema. Então, por que não contar uma história de amor entre duas mulheres?”, questiona. “E sem ficar centrando a narrativa nos impedimentos que quase sempre aparecem quando se fala de relações homoafetivas. A gente está contando uma história de amor que merece ser contada como qualquer outra.”

Cena de Trago Seu Amor
Cena de Trago Seu Amor - Foto: Divulgação

Cláudia Castro diz que o longa não nasceu de uma tentativa de levantar uma bandeira específica, mas reconhece o peso político da escolha. “A gente até comentava com o elenco que nunca levantou exatamente a bandeira de fazer um filme LGBT. E isso passa também pelo fato de estarmos falando com jovens, para quem muitas dessas questões já aparecem de forma mais natural”, afirma.

Ainda assim, completa: “Eu acredito, sim, que é muito importante que a gente possa ser o que quiser, porque o corpo é nosso e a gente faz dele o que quiser.” Em uma frase, ela resume a perspectiva do filme: “O amor não tem gênero.”

Sem regra para amar

Se a premissa fantástica movimenta a trama, o coração do filme está nas diferentes formas de viver o afeto. A própria Mia funciona como síntese desse deslocamento: é alguém que domina o amor como técnica, mas não sabe lidar com ele como experiência.

Ao longo do filme, o roteiro transforma essa contradição em eixo dramático e usa a protagonista para falar de uma geração acostumada a controlar tudo, inclusive os sentimentos.

“Muitas vezes, a gente cria na cabeça regras e caminhos que seriam os ‘certos’ para seguir, inclusive nas histórias de amor”, diz Giovanna Grigio ao Cineinsite A TARDE.“O filme fala justamente sobre diferentes tipos de relacionamento e diferentes formas de amar”, completa a atriz.

Para ela, Mia traduz um impasse geracional. “Eu sinto que a nossa geração, às vezes, é muito travada nesse sentido, e a Mia representa um pouco isso. Ela não se permite amar, nem ser amada. Existe sempre muito controle. E acho que isso vem do medo: medo de se machucar, de se apaixonar, de levar um fora, até medo de encontrar um grande amor.”

A atriz vê no filme uma defesa da abertura ao inesperado. “Mostrar vários tipos de relação também ajuda a lembrar que existem muitos caminhos possíveis para a felicidade. A gente não precisa ficar tentando seguir um único caminho certo; precisamos seguir o caminho que faz sentido para o nosso coração.”

Jê Soares amplia essa leitura ao observar que Traga Seu Amor recusa uma cronologia única para o amor. “Em 'Traga o Seu Amor' fica claro que não existe um tempo certo para as coisas acontecerem. Entre os clientes da Mia, por exemplo, há pessoas mais velhas e mais jovens, vivendo experiências muito diferentes”, afirma.

“A própria Mia descobre a sua forma de amar mais tarde. É uma personagem que nunca tinha se apaixonado e vive essa primeira paixão já adulta. Isso quebra uma ideia muito comum de que tudo precisa acontecer na adolescência ou no começo da vida. O filme mostra justamente que não existe regra para amar”, declara a atriz.

Cena de Trago Seu Amor
Cena de Trago Seu Amor - Foto: Divulgação

Na avaliação de Cláudia Castro, essa multiplicidade também responde ao próprio país retratado na tela. “A gente é brasileiro, e o Brasil é muito plural. É um país enorme, com uma diversidade imensa de culturas, corpos, aparências, identidades e formas de viver”, diz. “Não dá para fazer um filme no Brasil sem que essa diversidade apareça em todas as camadas da história, na tela e no roteiro. Isso faz parte de quem a gente é.”

João Manoel segue a mesma direção. “O Brasil é muito grande, então faz sentido fazer um filme grande, com gente diferente, interessante à sua maneira, e com diferentes visões sobre o que é o amor”, afirma. “A gente não pode tentar ser menor do que é, porque o Brasil é um país gigante, cheio de gente interessante, com muitas formas de amar e também com muita magia.”

Amor, vulnerabilidade e liberdade no centro da história

Ao acompanhar Mia entre feitiços, clientes e sentimentos inesperados, Traga Seu Amor usa a fantasia como caminho para discutir afetos, inseguranças e novas possibilidades de vínculo.

A relação entre Mia e Renê, por exemplo, desloca a protagonista de um lugar de controle para outro, mais vulnerável, em que o amor deixa de ser apenas algo que ela manipula para os outros e passa a atravessá-la também.

É nesse movimento que o longa concentra boa parte de sua mensagem. Para Giovanna Grigio, a principal delas é um convite à entrega. “A principal mensagem é sobre se permitir amar. Se permitir amar, ser vulnerável e deixar que o outro realmente nos afete”, afirma. “A gente vive um tempo em que as pessoas estão muito distantes umas das outras. E a magia acontece justamente quando existe encontro, quando a gente se aproxima e vive o que a vida está propondo.”

A construção da protagonista também passa por essa descoberta. Ao longo da trama, Mia precisa lidar com a possibilidade de amar fora dos próprios cálculos, enquanto o filme amplia esse olhar para outros personagens e outras experiências afetivas.

João Manoel também vê no filme uma reflexão sobre reciprocidade e escuta. “Para mim, o filme fala sobre saber a hora de se retirar, saber ouvir um ‘não’. As relações não são feitas só dos nossos próprios sentimentos; elas também dependem do outro”, afirma. “Existem dois lados que precisam ser considerados, e isso é importante para qualquer relação acontecer, ou até para ela não acontecer.”

No fim, a feitiçaria proposta por Traga Seu Amor funciona menos como fuga da realidade e mais como linguagem para falar do que há de mais concreto nas relações: o medo de se machucar, a dificuldade de se abrir e a possibilidade de viver o amor de forma mais livre. “Amor e liberdade andam de mãos dadas”, resume Giovanna. “O filme fala disso de um jeito muito bonito e muito poético.”

Convite ao público e defesa do cinema brasileiro

Além da história em si, a equipe também aproveita o lançamento para reforçar a importância da presença do público nas salas, especialmente na semana de estreia. “O amor vale a pena. Independentemente das circunstâncias, vale a pena mergulhar nele de verdade”, resume Cláudia Castro sobre a mensagem do filme.

João Manoel responde na mesma chave: “Eu diria: permita-se amar. Observando os personagens, acho que essa é uma das mensagens mais bonitas do filme. Mesmo quando o amor não acontece exatamente do jeito que a gente espera, como no caso do Yuri, ele ainda pode trazer um aprendizado muito importante.”

Já Cláudia faz um apelo direto ao público baiano. “Vamos para o cinema. É muito importante que o público esteja presente, tanto por nós quanto pelo cinema brasileiro”, afirma. “O importante é estar lá e fortalecer o nosso cinema, para que a cultura brasileira continue viva e possa prosperar.”

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