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O novo filme de Almodóvar é um labirinto psicológico que vai 'bugar' a sua mente

Em ‘Natal Amargo’, diretor volta a abordar as angústias do bloqueio criativo

João Paulo Barreto  | Especial A TARDE
Por João Paulo Barreto | Especial A TARDE
Pedro Almodóvar volta a abordar as agruras da criação em seu novo filme
Pedro Almodóvar volta a abordar as agruras da criação em seu novo filme - Foto: Divulgação

Sete anos após sua incursão semi autobiográfica com o belo Dor e Glória, quando parte da agonia de um cineasta advinha da angústia atrelada à escrita, Pedro Almodóvar volta a abordar as agruras da criação em seu novo filme.

Apesar de semelhante ao trabalho de 2019, cujo roteiro abordava não somente as dores físicas de um diretor de cinema que usava heroína de modo a suavizar seu excruciante latejar nas costas, mas, também, o modo como seus tormentos com o passado funcionavam como uma forma de influência direta em suas expressões artísticas, Natal Amargo, no entanto, vai além por permitir ao cineasta espanhol desafiar seu espectador com sua intrincada narrativa.

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Na história de Elsa, uma diretora e roteirista de cinema que, em 2004, por conta de uma enxaqueca crônica e agonizante, é internada coincidentemente no mesmo hospital onde gravou um dos seus filmes, Almodóvar encontra a liberdade criativa para brincar com a escrita de seu roteiro inserindo camadas sobre camadas de existências fictícias e reais. Desta maneira, através de Elsa, diretora que desde a morte de sua mãe, tenta voltar à labuta escriba de um novo roteiro, o filme trabalha uma análise dos bloqueios mentais que impedem a roteirista de continuar.

Na companhia de seu dedicado e apaixonado namorado, o bombeiro/stripper Bonifácio, que a acompanha não somente no hospital, mas em sua rotina criativa, a escritora busca em seu entorno formas de superar seu luto e de voltar à escrita de um novo longa.

Pedro Almodóvar, em seu roteiro, coloca a própria Elsa escrevendo um texto com potencial para um novo filme e a dramatização dessas novas linhas (para nós, espectadores) acontece em paralelo à sua escrita. Inspirada pela vida conjugal desastrosa de uma amiga, bem como pelo trauma sofrido por outra amiga que perdeu um filho, Elsa começa a construir uma nova narrativa baseada nos acontecimentos em seu entorno e os utilizando, assim, como catalisadores para superar seus bloqueios.

Uma das amigas, porém, ao se perceber como personagem daquele texto, se revolta e veementemente a proíbe de utilizar qualquer fato de sua vida em sua história.

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Imagem ilustrativa da imagem O novo filme de Almodóvar é um labirinto psicológico que vai 'bugar' a sua mente
Foto: Divulgação

O que já pareceria uma trama vigorosa para os dramas femininos que Pedro Almodóvar costuma destrinchar com maestria, se torna algo ainda mais aprofundado ao descobrirmos que tanto a vida de Elsa naquele natal de 2004, quanto suas criações que surgem em tela a representar seu novo roteiro, não são desenvolvimentos mentais seus.

Tratam-se de imaginações oriundas da mente de Raúl Rossetti, cineasta que, na época atual, conta a história de Elsa em uma tentativa de criação, também, de um novo texto para um filme.

Deste modo, a partir desse esforço metalinguístico, o diretor de clássicos como Tudo Sobre Minha Mãe (1999) e Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988) faz valer a proposta de um labirinto narrativo, criando para o público um exercício mental desafiador ao inserir diversas camadas em suas histórias que encontram reflexos tanto no "mundo real" de Raúl, quanto na fantasiosa existência oriunda de sua mente e refletida na mente de sua própria criação, Elsa.

Inserindo personagens que se espelham na sua vida afetiva e profissional, Raúl encontra na vida de Elsa um reflexo para a sua própria.

Tal reflexo, no entanto, possui repercussões negativas que, curiosamente, ele já previa em seu próprio mundo imaginário antes das mesmas se evidenciarem no real. Confuso? Nem tanto.

Bloqueios e fagulhas

Imagem ilustrativa da imagem O novo filme de Almodóvar é um labirinto psicológico que vai 'bugar' a sua mente
Foto: Divulgação

Gradativamente, Almodóvar vai trazendo para seu espectador uma percepção clara de que são os dramas pessoais de Raúl em sua escrita que norteiam os de seus personagens. E ao se valer de diversos símbolos para representar esse doloroso processo de criação, o diretor cria uma válida reflexão sobre esse mesmo criar. São momentos em que o cursor do programa de texto do computador aparece quase como um metrônomo a balizar o tempo de bloqueio de Raúl em frente à tela.

Ou quando Elsa, em uma fagulha de criatividade durante uma leitura noturna, começa a escrever nos espaços em branco das bordas de um livro. Ou, ainda, quando confrontado em seu mundo real quanto ao dilemas éticos que vão de encontro ao seu texto, Raúl parece entender qual caminho deve seguir e em um lampejo de criatividade, utiliza o verso de seu roteiro impresso para fazer rápidas anotações em um manuscrito no sentido de não perder aquele momento de inspiração.

Assim, a construção dramática que Pedro Almodóvar propõe para Natal Amargo consegue unir as situações fictícias criadas por Raúl, cujos ecos no mundo real se evidenciam de modo a desestabilizar relações (do mesmo modo como acontece nas existentes em sua imaginação), bem como demonstra para o espectador toda a dificuldade advinda desse processo criativo.

Na união desses dois mundos, o imaginário e o real, com os acontecimentos em um encontrando paralelos no outro (além de repercussões e instabilidades emocionais), Almodóvar desenha para seu espectador um mosaico narrativo admirável e instigante.

Encontrando brechas para inserir sua belas metáforas visuais, o diretor complementa essa riqueza narrativa. São imagens como aquela em que, através de um enquadramento em plongée, vemos Elsa e uma amiga tomando sol em uma praia cujas areias pretas vulcânicas são lambidas por ondas de espuma branca, em uma tomada a referenciar a instabilidade daquela relação; ou quando a mesma Elsa e outra amiga caminham pelos famosos zocos que protegem videiras na ilha de Lanzarote e a imagem aérea remete a um cérebro humano.

Desvendar cada camada desse mosaico torna Natal Amargo uma experiência cinematográfica imperdível.

Natal Amargo (Amarga Navidad) / Dir.: Pedro Almodóvar / Com Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Aitana Sánchez-Gijón, Victoria Luengo, Patrick Criado, Milena Smit, Quim Gutiérrez, María Rojo, Samuel López, Belén Riquelme / Salas e horários: cinema.atarde.com.br

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