ENTENDA
O que Hollywood viu em O Agente Secreto? O detalhe invisível que explica as 4 indicações
Saiba como o cinema brasileiro virou artigo de luxo no exterior

Com quatro indicações ao Oscar 2026, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator para Wagner Moura, 'O Agente Secreto' não é apenas um fenômeno de bilheteria; é o ápice de uma estética que transforma o regional em global. Mas o que faz a Academia de Hollywood e o júri de Cannes se renderem a histórias tão especificamente brasileiras?
Para a pesquisadora Midian Angélica Monteiro Garcia, doutoranda em Artes Cênicas pela UFBA e Pró-Reitora Acadêmica da Unijorge, a resposta está na "Lógica do Fantasma". Em entrevista ao Cineinsite A TARDE, ela revela como Kleber Mendonça Filho (KMF) usa o cinema como um antídoto contra o esquecimento.
O Nordeste que o mundo entende
Muitos se perguntam como o Recife de 1977 pode ser tão compreensível para um jurado em Los Angeles. Segundo Midian, o segredo é a humanidade crua. "Compreendo que todas as narrativas partem de alguma experiência pessoal ou local. Todas as narrativas são de alguma forma locais", afirma.
Ela explica que o diretor não apenas ambienta suas tramas, mas mobiliza memórias como matéria-prima. "O modo como o diretor trata as memórias acaba por construir a voz de um coletivo anônimo, embora trate de uma cidade ou de um país. Como ele mesmo afirma em seu livro ‘Três Roteiros’, seus filmes são sim ‘frutos inevitáveis do Brasil’, porém são também resultados de observações de ‘gente vivendo a vida’".
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Um filme de "fantasmas" contra a amnésia
Em sua pesquisa, Midian identifica que KMF produz "espaços de retorno para aqueles que tiveram suas histórias interrompidas". No caso de 'O Agente Secreto', o personagem Armando (Wagner Moura) vive essa busca por arquivos que não existem.
"O que funciona, portanto, para um país mergulhado, nas palavras do diretor, em amnésias conscientes é transformar suas impressões pessoais num filme de fantasmas, construindo assim uma coletividade que não se delineia em um dado momento histórico, mas que reflete muitas outras histórias", analisa a pesquisadora.
Ela vai além ao citar o impacto social da obra: "Kleber Mendonça propõe modos de sentir o Brasil, enquanto artista, mas também modos de despertar o espectador dessas amnésias. [...] O seu cinema talvez seja esse ‘antídoto’ contra os esquecimentos constantes na história do Brasil".
Prédios que falam e o "Cavalo de Troia"
A estética de Kleber também passa pela arquitetura. Para Midian, a cidade é um personagem vivo. "Desde 'O Som ao Redor', percebe-se que a cidade com os seus sons e arquiteturas são reflexos das relações sociais historicamente delineadas".
Além disso, o uso de gêneros como o suspense e o western (faroeste) funciona como uma isca para mensagens mais profundas. "Embora Juliano Dorneles e Kleber Mendonça pareçam repetir fórmulas do cinema comercial, há nesse filme uma crítica social profunda, principalmente no modo como os heróis comparecem à cena".
Chances no Oscar 2026
Ao "dissecar" os códigos visuais do diretor, Midian se surpreendeu com a capacidade de KMF de fazer "os fantasmas saltarem para a cena". Sobre a noite deste domingo, a aposta é otimista: "Acredito que tem chances, considerando a valorização internacional alcançada pelo filme", finaliza.
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