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ENTREVISTA

Pola Ribeiro detalha impacto da nova Bahia Filmes no cinema

"O audiovisual vai estar presente em qualquer dos mundos possíveis", diz cineasta

Ana Cláudia Cavalcante | Especial para A TARDE
Por Ana Cláudia Cavalcante | Especial para A TARDE
De olho no mercado e na cultura: Pola Ribeiro assume a Bahia Filmes e projeta novos cenários
De olho no mercado e na cultura: Pola Ribeiro assume a Bahia Filmes e projeta novos cenários - Foto: Divulgação

Cineasta, gestor público, produtor, roteirista e militante da arte e da cultura, Pola Ribeiro é o diretor-presidente da Bahia Filmes, primeira empresa pública estadual de audiovisual do país, que está iniciando suas atividades externas neste domingo, 28, às 18h, em inauguração com o governador Jerônimo Rodrigues, na sede da empresa (no Edifício Oscar Cordeiro, à Rua Conselheiro Saraiva, 29, Comércio).

Mestre em Gestão Social e graduado em Comunicação Social pela UFBA, Pola dirigiu o Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia – IRDEB (2007-2014), foi Secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura (2015-2016), Governo Federal, na gestão de Juca Ferreira. Além disso, administrou o Museu de Arte Moderna da Bahia – MAM (2021-2023) e o Museu de Arte da Bahia - MAB, entre 2024 e os primeiros meses de 2026.

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Dirigiu, co-dirigiu e produziu filmes, como Por exemplo: Caxundé; A Lenda do Pai Inácio; Jardim das Folhas Sagradas, Na Bahia ninguém fica em pé e filme-antologia Três Histórias da Bahia (produção executiva), além de atuar como produtor e diretor de documentários e séries para a televisão aberta e fechada.

Durante a sua atuação na TVE-Bahia (integrante do Irdeb), fortaleceu iniciativas voltadas à democratização da comunicação e em prol do fortalecimento da televisão pública. Além disso, participou da fundação da TV Anísio Teixeira, projeto desenvolvido pelo Instituto Anísio Teixeira - IAT, Secretaria da Educação (2010), com o objetivo de produzir conteúdo televisivo com a atuação sistemática de educadores e com uma perspectiva arte-educativa.

A Bahia Filmes, novo desafio da sua trajetória como gestor da Cultura, é uma sociedade de economia mista que foi instituída pela Lei Estadual nº 14.877/2025 e sancionada pelo governo estadual.

A empresa, vinculada à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, tem a missão de estimular a cadeia produtiva do setor audiovisual – como estratégia de dinamização da economia. Comovido pelo falecimento do cineasta Orlando Senna, contribuidor e entusiasta do projeto da Bahia Filmes, Pola Ribeiro concedeu esta entrevista em que fala sobre esta conquista para o campo das artes e da cultura brasileira e sobre questões contemporâneas correlacionadas.

Você costuma dizer que cinema não é um investimento “caro”. O que você quer dizer com isso?

O valor é uma coisa muito relativa. O cinema tem múltiplas qualidades, e potencialidades que passam pela memória, pela documentação de determinado fator, pela produção de registros históricos. É um produto que você investe inicialmente, mas a possibilidade de ser visto por muitas e muitas pessoas é muito grande. Lembrei de um filme ícone do cinema brasileiro, Dona Flor e seus dois maridos [Bruno Barreto, 1976], ele foi considerado caro. Mas foi o filme que mais público deu ao cinema nacional, um caro que se tornou barato pela quantidade de pessoas que foram e são alcançadas. Adquiriu relevância que barateou o seu custo inicial.

Além disso, o cinema é uma atividade que tem grande impacto na economia, envolve muitos profissionais, de diversas áreas. Uma produção engloba também setores, que não são diretamente da área da arte ou da comunicação, como transporte, hotelaria, gastronomia, dentre outros. Quando o Estado ou uma empresa privada investe no audiovisual, a sua marca será difundida, agregada ao conteúdo. Este investimento preliminar será diluído pela escala, pelo alcance, capacidade de transmissão, visibilidade e relevância.

Inteligência artificial, plataformização, Big Techs… Como fica o cinema e seus processos criativos neste contexto contemporâneo?

O cinema surge já mediado pela tecnologia. A linguagem vai se modificando a partir das próprias tecnologias, que vão viabilizando essa linguagem… Os desafios não param. O cinema é um jogo de sombra e luz, com mais mil mediações tecnológicas. Não se pensava em câmera na mão, quando a câmera pesava cinquenta quilos. Hoje, todos nós temos um aparelho de celular, com capacidade de captação, de registro, de edição, de transmissão, arquivamento de imagens. E com recursos ainda mais recentes, como a IA. Desafios que às vezes nos assustam porque eles vêm como desafios mesmo.

O mundo ainda está em guerra! Temos uma comunicação que ultrapassa fronteiras e, ao mesmo tempo, um processo colonialista contemporâneo, imperialista, armamentista. A barra é pesada, a tecnologia é leve. O controle, o poder que está por trás dessas tecnologias nos assusta. A gente não sabe qual vai ser o futuro. Só que o audiovisual vai estar presente em qualquer dos mundos possíveis.

Os distribuidores e as grandes produtoras do audiovisual, seja para exibição nas salas de cinema, televisão ou plataformas de streaming, devem interferir no processo de criação?

O Cinema Novo trouxe para nós a tradição do cinema autoral. O mercado do cinema, o setor audiovisual, por sua vez, pode ser entendido como uma conjuntura internacional e isso pode fortalecer a compreensão de um sistema. Um sistema de produção de conteúdos em larga escala, onde todos os setores interagem de forma interdependente. Então, qual é a hora que a comunicação entra no filme? O filme vai se vinculando com a equipe, com o público-alvo, com o assunto, com a temática… Vai se vinculando com a produtora. O dono da produtora não é um cineasta, é um empresário, mas ele quer acompanhar. Da mesma forma, a distribuidora também quer participar.

Quando as distribuidoras vão para grandes mercados mundiais, como o de Cannes, Toronto, Londres, e tecem discussões, elas sabem quem são os compradores. Alguns eventos estão sendo desenvolvidos neste sentido; na Bahia, temos o Nordeste Lab, que coloca na mesma mesa criadores, roteiristas, exibidores, distribuidores, dirigentes, CEOs de plataformas. Se temos uma interdependência, é normal que os mercados, os distribuidores, os players, que as plataformas busquem projetos que tenham mais a sua cara também. Por outro lado, a popularização da tecnologia permite que você faça filmes mais autorais ainda do que os cineastas do Cinema Novo. Temos a possibilidade de fortalecer um cinema autoral e um cinema industrializado, que possa atender mercados internacionais.

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O número de festivais tem aumentado. Mas a maior parte dos filmes acabam restritos a esse circuito, distante da população. O que fazer?

A exibição é uma das questões que está mais afligindo a gente, neste momento. Fizemos recentemente entrevistas com agentes da cadeia produtiva sobre exibição e distribuição, porque é importante investigar e chegar a um diagnóstico e, assim, identificar o que está faltando para a gente ganhar o mercado. O mercado para o produto brasileiro é pífio. Temos índices, números, indicadores que são comprometedores da nossa atividade.

Precisamos ampliar o público nas salas de cinema. Na Bahia, temos que interiorizar as salas de cinema, pois é consenso mundial que a sala de cinema é o mais nobre espaço para esta comunicação acontecer. E os festivais são muito importantes no sentido de que são formadores de políticas públicas, indicadores de caminhos. São também ferramentas de comunicação, divulgam produções, críticas, profissionais, filmes, games… E criam desejos na população de sair de casa para assistir.

A internet soterrou o sonho da TV Pública? A convergência de meios e linguagens na web comporta este projeto?

O teatro não acabou, o rádio não acabou… A internet não comprometeu o sonho da TV Pública. A comunicação pública é algo ainda a ser conquistado plenamente no Brasil. Tanto a sociedade precisa falar, a gente necessita ouvir as diversas vozes que constituem a sociedade brasileira, quanto o Estado para fazer gestão, desenvolver políticas públicas, prestar contas precisa se comunicar. Além disso, a televisão vai viver em breve grande transformação, uma simbiose, com a chegada da TV 3.0, uma tecnologia que vai transformar a experiência do telespectador ao unir a força da TV aberta (broadcast), pública e gratuita, com a internet. O aparelho de TV vai ter a mesma potência que tem o nosso aparelho de celular.

Você participava do Governo Dilma Rousseff, quando a primeira mulher na presidência sofreu um impeachment sem ter cometido crime e muito menos um “crime de responsabilidade”. Como foi vivenciar este momento histórico e suas consequências para a Cultura?

Faz parte da democracia a alternância de grupos políticos no poder. O caso de Dilma é mais doloroso porque nós sofremos um golpe de estado. Vimos em transmissão direta pela televisão o golpe acontecer, usando de ferramentas institucionalmente possíveis. Eram muitos sonhos, muitas expectativas, muitas coisas a serem feitas… Foi muito doloroso interromper um projeto escolhido pela população, mas que a mídia fez com que ele se fragilizasse tanto a ponto do Congresso conseguir fazer o que fez. Voltei para a Bahia, voltei para o chão da fábrica. Essas questões, no entanto, só me fortaleceram no sentido de voltar para a luta coletiva. Tenho comprometimento com a política pública, em um país incrível, que é o Brasil, com um estado incrível, que é a Bahia. Com a sua Cultura riquíssima. Alegria, motivação, horizonte, sentido para a vida, isso não se resolve no campo individual.

Como a Bahia Filmes, esta grande conquista da cultura, vai atuar para atrair investimentos, fomentar novas produções e impulsionar o desenvolvimento econômico?

Há 13 anos paira na cabeça de representantes do setor audiovisual baiano o desafio de unir criação, realização e o audiovisual – compreendido como atividade industrial. Nos últimos três anos, representantes do setor trouxeram para si a responsabilidade de construir um projeto e apresentar ao governo. Quem conhece a atividade é o setor. O setor meteu as caras, estudou muito e desenhou um projeto, que vem sendo discutido internamente e com secretarias do Governo da Bahia. E o governador entendeu que este era um projeto de desenvolvimento econômico do estado, a partir da plataforma audiovisual. A concretização do projeto traz oportunidades de captação de recursos, de negócios, da inserção desse cinema feito na Bahia, numa outra escala, que possa permitir que os profissionais sobrevivam da atividade, gerando renda, emprego, prestando serviços com uma visão macro de estruturação de um setor. Trata-se de um campo muito delicado porque trabalha com uma dimensão simbólica, que envolve criação, narrativas, comunicação… O projeto se debruçou em experiências diversas, pesquisas, indicadores. Temos a experiência da Riofilme e Spcine como base e a Cultura baiana – com a sua diversidade, amplidão e potência – como elemento dinamizador.

Copa do mundo ou Oscar? O que mais mobiliza a torcida brasileira?

O brasileiro é muito especial, a gente resiste, torce e gosta muito de ganhar. A gente tem a maleabilidade brasileira, não fica batendo em ponta de faca, faz o contorno necessário para segurar a faca pelo cabo. E aí a gente torce! A seleção brasileira tem uma capacidade muito grande. E o futebol está na nossa veia, como o samba, como a festa. O Oscar nem é o mais importante festival do mundo. Ainda que mobilize muitas coisas, mobilize o planeta. A gente torce muito quando a gente tem um filme concorrendo, perto de ganhar. É muito bacana ver nosso coleguinha Wagner Moura. A gente se bate com ele aqui na rua, e de repente ele tá lá… Ganhando o Globo de Ouro, indicado ao Oscar. É maravilhoso. Vamos aproveitar esses momentos e festejar, pois a gente gosta mesmo é de estar junto, de brincar, de celebrar.

Inauguração da Bahia Filmes: Hoje, 18h / Edifício Oscar Cordeiro (Rua Conselheiro Saraiva, 29, Comércio)

*Atriz, jornalista e doutora em Artes Cênicas pelo PPGAC/UFBA

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