ACRÉSCIMOS
Dá no Marinho!!!


“Dá no Marinho! Dá no Marinho!!!”. Era assim, aos berros, que o técnico Argel Fucks resumia em algumas palavras todo o esquema tático do Vitória para vencer o Atlético-PR, no último domingo, no Barradão. E, apesar de parecer, não quero aqui ser irônico com esta afirmação tão determinista e totalitária. Vida de treinador não é fácil e, às vezes, o melhor que se tem a fazer à beira do gramado é gritar pelo óbvio.
O jogo contra o Furacão não exigia estratégia, muito menos serenidade por parte de Argel. O bê-a-bá de movimentação na área de atacantes e meias já havia sido treinado, e não seriam os decibéis elevados dos ‘conselhos’ do técnico que fariam o Leão marcar.
No futebol, há em quase todos os momentos de gol um lance de ‘gatilho’ que praticamente determina a jogada que termina com a bola na rede. No Vitória, esse ‘gatilho’ se chama Marinho. Claro que a equipe vai acabar marcando de outras maneiras também, mas é dos pés do endiabrado atacante – um dos destaques do campeonato e a melhor contratação do futebol baiano em anos – que saíram e ainda vão sair as principais chances de triunfo do Rubro-Negro.
Não considero Argel um bom técnico, mas ao se observar o Vitória com Marinho em campo (porque sem ele a postura é outra), o que vemos é um time que roda a bola rapidamente em busca do seu craque e que tem uma estratégia e formação tática voltada para que essa situação seja criada. E com o pouco tempo que teve para implantar sua filosofia no clube, o treinador gaúcho teve, sim, um papel importante no crescimento exponencial do camisa sete nessa reta final do Brasileirão.
Mancini, com meses de treino e planejamento, podia se dar ao luxo de pensar o elenco como um todo. Já tinha Marinho como destaque, mas não forçava quase todas as jogadas nele. Argel, com a corda no pescoço diante da ameaça real de rebaixamento, apostou todas suas fichas na criatividade e boa forma do atacante. Quando o perdeu por contusão, viu a equipe chegar rapidamente à zona de degola. Com o craque 100%, saiu dela na mesma velocidade e pode escapar da queda justamente por esta opção. Se ficar para 2017, seu grande desafio será ampliar seu leque de possibilidades ofensivas.
Já ouvi muitos amigos comentaristas falarem que a maior contribuição de Argel desde sua chegada foi sua postura forte, com a qual teria “ganhado o vestiário”. Não enxergo isso. Ele pode até ser ‘amigo-paizão’ dos jogadores e controlar os egos e a pressão psicológica no dia a dia do clube, mas durante os jogos só consegue a atenção dos mesmos por períodos muito curtos. De maneira geral, vejo um Vitória que sofre constantemente com a desconcentração individual e coletiva.
Quem consegue motivar a equipe e ativar esse foco é a referência de Marinho pelas laterais do campo (aliás, outro ponto para Argel foi fazer com que Marinho trocasse a direita pela esquerda, e vice-versa, com mais constância do que o atacante fazia com Mancini). Argel logo percebeu isso. A torcida, há muito, também já sabe disso. Então, na hora do aperto, só resta mesmo gritar “dá no Marinho!”. Pareceu ridículo na transmissão da tevê, mas aposto que até Guardiola teria feito o mesmo.