ARMANDO AVENA
Dívida não se paga, se rola
No primeiro semestre de 2026, a dívida bruta do país aumentou cerca de R$ 435 bilhões


A dívida bruta do governo chegou a 82% do PIB e a imprensa especializada entrou em polvorosa. Houve até economistas afirmando que a dívida brasileira pode se tornar impagável. “Dívida não se paga, dívida se rola”, diria, não um economista desenvolvimentista ou de esquerda, mas o insuspeito Delfim Neto.
Na verdade, o mercado sabe que o problema não é a dívida, é sua dinâmica, ou seja, a velocidade com que a dívida cresce. E essa dinâmica está crescendo de forma acelerada por causa do custo extraordinário dos juros no Brasil.
Os números do Banco Central são eloquentes. No primeiro semestre de 2026, a dívida bruta do país aumentou cerca de R$ 435 bilhões. A conta é essa: os juros acrescentaram aproximadamente R$ 646 bilhões à dívida e as emissões líquidas de títulos adicionaram outros R$ 171 bilhões. Felizmente, na relação Dívida/PIB, o crescimento nominal do PIB abateu o equivalente a R$ 356 bilhões, e a valorização cambial reduziu outros R$ 26 bilhões, mas o resultado mostra o custo exorbitante dos juros no serviço da dívida.
No acumulado de 12 meses até junho, a conta de juros nominais do setor público chegou a R$ 1,16 trilhão, equivalentes a 8,8% do PIB. No mesmo período do ano anterior, eram R$ 912,3 bilhões, ou 7,41% do PIB.
Ou seja: a dívida não está crescendo apenas porque o governo gasta mais do que arrecada. Ela cresce, sobretudo, porque o Estado paga uma conta de juros gigantesca.
E o motivo é a política do Banco Central, de juros altos no longo prazo, que já dura mais de dois anos. O patamar da taxa Selic neste momento está em 14%. Ou seja, para uma inflação próxima de 4,4%, abaixo do teto da meta, o BC impõe ao país uma taxa de juros real próxima a 10% ao ano. Nos Estados Unidos neste momento, para uma inflação de aproximadamente 3,7% (próxima da nossa), a taxa básica de juros está na faixa de 3,5 % a 3,7% e o juro real é praticamente zero. O Brasil precisa ter juros maiores que os EUA, mas precisam ser quase dez vezes maiores, para inflação semelhante?
Quando o governo carrega uma dívida enorme e paga juros reais próximos de dois dígitos, o estoque da dívida passa a funcionar como uma bola de neve. Quanto maior a dívida, maior a conta de juros. Quanto maior a conta de juros, maior a necessidade de refinanciamento. E quanto maior o refinanciamento, maior o estoque sobre o qual incidem novos juros. É um círculo vicioso perverso. É o Brasil correndo atrás da própria dívida.
Aí entra a questão do ajuste fiscal, que é, diga-se de passagem, extremamente necessário. O governo precisa produzir superávits primários consistentes, pois sem isso não mexe na dinâmica da dívida. Mas fazer superávit primário não será suficiente se o Brasil continuar pagando juros reais próximos de 10% ao ano. Se a conta de juros continuar crescendo na velocidade atual, o esforço fiscal será permanentemente consumido pelo serviço da dívida. É tentar encher um balde que tem furo no fundo.
E então chegamos ao cerne da questão: o custo exorbitante do crédito no Brasil. O verdadeiro problema brasileiro não é o custo da dívida pública, é o custo do dinheiro na economia.
O Brasil construiu, ao longo de décadas, um dos sistemas de crédito mais caros do mundo. Em julho, por exemplo, a taxa média das novas operações de crédito chegou a 32% ao ano, e o spread bancário estava em 33%. O custo do dinheiro é excessivo.
Mas isso não acontece apenas porque a economia é percebida como fiscalmente arriscada; acontece porque o sistema de crédito no Brasil é muito caro e não tem competição. Infelizmente, quando as fintechs foram introduzidas, ao invés de ativarem o modo competição, preferiram focar nos desbancarizados, mantendo o mesmo sistema de crédito caro. É isso que explica fenômenos como o do Nubank, uma fintech que, em apenas 13 anos de criada, atingiu valor de mercado, em outubro de 2025, maior que o da Petrobras.
A verdade é que o Brasil precisa de uma reforma financeira. O problema estrutural da economia brasileira é o custo exorbitante do dinheiro. É preciso criar as condições para que a taxa de juros possa cair de forma sustentável, e isso inclui uma política fiscal responsável, mas exige também maior competição bancária, redução de custos de intermediação e uma revisão profunda dos spreads.
Em poucas palavras: não haverá solução definitiva para a dinâmica da dívida brasileira se o país continuar pagando taxas de juros de dois dígitos no longo prazo. O desafio brasileiro é duplo: reduzir o déficit fiscal e reduzir o custo do dinheiro.
Preço da dívida
Todo país se endivida e paga juros para financiar sua dívida. O problema brasileiro está no preço. Um título do governo de dez anos paga hoje cerca de 14,6% ao ano, enquanto o título americano de mesmo prazo fica perto de 4,8%. O Brasil paga, portanto, aproximadamente, três vezes mais juros para financiar sua dívida que os Estados Unidos.
Essa diferença tem um efeito devastador sobre a dívida: quanto maior o custo de financiamento, mais esforço fiscal é necessário apenas para impedir que a dívida cresça. O Brasil precisa controlar o déficit e reduzir estruturalmente o custo do dinheiro. Sem mexer no custo do crédito e dos juros, o ajuste fiscal sozinho nunca será suficiente.